Sobre sereias, goblins de metal e jogos de Pimball/RPG: As muitas vidas do ‘Dr Paul Robertson’

Olhem só o ‘Doutor Paul Robertson’ do ‘documentário’ [Cof!cof!cof!] ‘Sereias’ e ‘Sereias: Novos indícios’ trocou de nome (agora ele chama-se Mark Hoyt) e de profissão (de biólogo marinho caçador de sereias virou um geomorfologista), e não é que ele encontrou outro ser fantástico, desta vez ‘Homem Goblin da Noruega’. O cara é bom mesmo!

Este trecho foi retirado de outro docuficção (como ‘Sereias’ e ‘Sereias: Novos Indícios’), mas desta vez feito como parte de uma campanha de marketing viral para um novo jogo (Too Human) produzida pela Silicon Knights.

Mas caso vc ainda não esteha satisfeito, saiba que Hoyt/Robertson, mundou de novo de nome e agora é David Evans um diretor de criação de jogos (RPG/Pinball) recrutando para jogadores para os testes do jogo Rollers of the Realm. O cara é fantástico.

E tem gente que realmente acha que os programas do AP e DC são documentários de verdade e feitos em cima de evidências reais de humanoides aquáticos descobertas por cientistas de verdade. Deixando a brincadeira de lado, isso é sério. O cara é um ator e não tem culpa do que os produtores do AP fizeram.

Por favor, não acreditem em tudo que assistem na TV. Se algo for muito bom para ser verdade, desconfie, provavelmente é bom de mais para ser verdade mesmo. Investigue, questione-se. Não deixe suas expectativas e seus desejos turvarem seu senso crítico.

—————————————

Nota adicional: Pelo que pude verificar até agora, David Evans é o nome real do ator (e diretor de criação de jogos) que interpreta os Doutores Paul Robertson e Mark Hoyt. Notem que no primeiro programa (Mermaids: The Body Found) dois atores ‘viveram’ o Dr. Paul Robertson, como eu havia dito. Um deles, Andre Weideman, atuou nas ‘re-encenações’ e o outro, o próprio Evans, interpretou o ‘cientistas de verdade’.  Essa estratégia não é nova e já havia sido usada no filme “Contatos de 4º Grau“, de 2009 (The Fourth Kind), em que a atriz Milla Jovovich interpretava a psiquiatra que havia supostamente feito sessões de regressão com vítimas de abdução e uma outra atriz, bem menos famosa, Mia McKenna-Bruce, interpretava a ‘psiquiatra original’, misturando ‘re-encenações’ e ‘filmagens reais’ para dar um clima mais realista. Neste outro caso de pseudo-documentário muita gente também acreditou que os relatos fossem reais e que seriam evidências de abduções por alienígenas.

Posted in Uncategorized | 12 Comments

Agora é a vez do Megalodon

Se já não bastassem as sereias, o Discovery Communications (responsável pelo Discovery Channel e pelo Animal Planet) enfia o pé na lama mais uma vez, e se afunda ainda mais no lodo da falta de seriedade, com outro pseudo-documentário, desta vez sobre o Megalodon,

 PASCAL  GOETGHELUCK/SCIENCE PHOTO LIBRARY

PASCAL GOETGHELUCK/SCIENCE PHOTO LIBRARY

uma gigantesca espécie de tubarão já extinta e que, de acordo com o apresentado no programa, teria sido avistado e documentado este ano. O programa que é completamente ficcional, tirando algumas informações sobre os estudos baseados nos dentes fósseis encontrados deste animal, traz apenas um pequeno aviso em letras pequenas, e que permanece por 3 segundos visível na tela, explicando a natureza ficcional do programa, mencionado que avistamentos de ‘submarinos’

CHRISTIAN DARKIN/SCIENCE PHOTO LIBRARY

CHRISTIAN DARKIN/SCIENCE PHOTO LIBRARY

(como, às vezes, são chamados tubarões brancos de grande porte) ainda são feitos que, por sinal, é o máximo que pode ser dito sobre ‘evidências’ da existência de espécimens vivos do Megalodon, o que é tanta evidência quanto temos para o monstro de Loch Ness.

Isso não é só triste, mas revoltante. A produção e veiculação deste tipo de programa envolve conscientemente contar com a incapacidade de diferenciar a verdade dos mitos dos telespectadores que têm em canais como o DC e AP suas maiores fontes de informação sobre ciência, tecnologia e história natural.

Ao invés de informar e entreter, estes canais só querem aumentar seus níveis da audiência. Veja também reportagem da CNN neste link.

———————————————–

Referências:

Posted in Dor de cabeça, Pseudociências, Uncategorized | 3 Comments

Genes associados com nível de escolaridade (muito, mas muito, de leve mesmo)

Publicado anteriormente no Bule Voador em 19 de junho de 2013

bule_academicoUm grande consórcio (Social Science Genetic Association Consortium) de cientistas, envolvendo mais de 200 pesquisadores, conduziu um gigantesco estudo de associação genômica, publicado no dia 30 de maio na revista Science, em que seus autores buscam identificar variantes genéticas que pudessem estar correlacionadas com medidas de escolaridade [1]. O estudo contou com uma impressionante amostra inicial de 101.069 pessoas, a amostra de descoberta (ou seja, usada para a prospecção de eventuais associações), e uma segunda amostra de replicação menor, mas ainda assim impressionante em termos de tamanho, contando com 25.490 indivíduos [2].

Os estudos genômicos amplos associativos (GWAS, do inglês genome-wide association studies) envolvem a análise de variações nas sequências de DNA através do genoma humano em um amplo número de indivíduos em busca de associação estatística destas variantes genéticas com alguma variável fenotípica comum na população [3]. Geralmente estes estudos são utilizados para detectar fatores hereditários de risco a certas doenças [3], mas sua aplicação, como este estudo mostra, é bem mais ampla. Tradicionalmente o que é feito é a identificação, em uma população, de grupos de pessoas com as características de interesse (os casos) e sem as características de interesse, os controles. Uma vez definidos os grupos, os cientistas passam a verificar se alguma das variantes genéticas estudadas está sistematicamente mais associada com alguma das categorias contrastantes (casos vs controles), repetindo-se este procedimento para cada variante genética de interesse e para cada medida de escolaridade testada, ao mesmo tempo que são feitas medidas da significância estatística das eventuais diferenças (por exemplo, na proporção de variantes em cada categoria) e dos eventuais tamanhos dos efeitos destas influências.

A figura mostrando o design de GWAS foi feita com a combinação de diferentes figuras [Modern Psychiatry, GWAS, Neurology.org]de sites distintos.

A figura mostrando o design de GWAS foi feita com uma combinação de diferentes figuras [Modern Psychiatry, GWAS, Neurology.org]de sites distintos.

No caso do estudo publicado na Science em questão, as categorias fenotípicas de interesse que foram investigadas (equivalentes, a grosso modo, aos ‘casos’ e ‘controles’) são mais complicadas do que a mera presença ou ausência de uma doença, uma vez que envolvem a performance dos indivíduos em algum tipo de medida de escolaridade, como tempo de escolaridade medido em anos de frequentação escolar, a chegada ou não a faculdade ou o termino ou não da mesma. Estas categorias, a grosso modo, então, são ‘dicotomizadas’ e contrastadas umas com as outras para que se possa buscar eventuais associações estatísticas entre alguma delas com alguma das variantes genéticas estudadas, bem como com outras variáveis não relacionadas a genética.

Foram encontradas associações entre três variantes genéticas independentes de SNPs (polimorfismo de nucleotídeo único), os tipos de variantes genética mais comuns, em um total de 2000000 de regiões genômicas variantes investigadas, que foram consideradas significativas (rs9320913, rs11584700, rs4851266), todas replicadas nas duas amostras. Apenas uma delas estava associada com o tempo de educação medido em ano de frequência a escola, enquanto as outras duas mostraram-se associadas com o fato de uma pessoa ter terminado a faculdade [1].

É importante explicar também que não foram encontrados genes propriamente ditos que seriam, supostamente, responsáveis por estas variações nas medidas de escolaridade. Os SNPS identificados funcionam apenas como marcadores genéticos que estão mais associados com as medidas de escolaridade do que seria esperado pelo mero acaso e de maneira replicável. Os pesquisadores esperam, entretanto, que os genes que estariam realmente funcionalmente associados com a variabilidade estejam em regiões genômicas bem próximas aos SNPs identificados, em desequilíbrio de ligação com estas variantes [3].

 DL_SNP_Portugues

Os genes presentes nestas regiões já haviam previamente sido ligados com fenótipos relevantes a saúde, cognição e, de modo mais específico, ao sistema nervoso central, com análises de bioinformática sugerindo que estes genes estariam envolvidos com uma região do cérebro chamado de núcleo caudado anterior [1].

Ainda assim, resta uma questão crucial. Seria esta aparente influencia nas diferenças de escolaridade entre indivíduos relevante? Uma das maneiras de determinar isso é por meio de medidas do ‘tamanho do efeito’, sendo uma delas o coeficiente de correlação de Pearson (r) elevado ao quadrado, R2. Esta medida, em caso de dados pareados, nos fornece a proporção da variância comum às duas variáveis que é dada em uma escala de 0 a 1 (0 e 100%). E é aí que começam os problemas com os resultados deste novo estudo.

O tamanho do efeito estimado é realmente muito pequeno (R2 ≈ 0,02%) com cada um dos alelos respondendo por apenas 1 mês de escolaridade nas diferenças entre indivíduos [2]. Mais revelador ainda é que quando são levados em conta os efeitos em conjunto (medidos por meio de score poligênico linear) de todas as 2000000 de variantes analisadas, os cientistas concluíram que elas todas responderiam por apenas cerca de 2% da variância no nível de escolaridade e na função cognitiva entre os indivíduos mais escolarizados e os menos escolarizados [1].

E mesmo com uma amostragem tão grande, e um estudo de replicação, isso não significa necessariamente que estas associações representem correlações reais, quem dirá causais. O grande número de SNPs investigados e as varias medidas de escolaridade podem gerar muitas correlações espúrias e por isso os dados, apesar de muito sugestivos, ainda precisam ser mais corroborados por outros estudos. Um problema maior é que os pesquisadores não sabem exatamente aquilo que está sendo medido em termos cognitivos. A menos que se acredite que existem “genes para” completar o ensino médio ou chegar a faculdade (o que mostra a limitação do conceito de “genes para” [4]), a variação genética detectada associada a escolaridade pode influenciá-la das formas mais diversas e de maneira muito indireta, ou seja, esta influência pode se dar de uma forma não relacionada com habilidades cognitivas específicas. Por exemplo, estas variantes genéticas podem simplesmente estarem associadas com genes que por sua vez influenciam elementos motivacionais e de personalidade que fazem com que tais indivíduos permaneçam mais tempo da escola e, que por sua vez, sejam respostas a certos ambientes e formas de ensino [1].

Estes resultados, certamente, serão apropriados tanto por gente que os usarão como prova de que nossos sucesso na sociedade depende das variantes genéticas herdamos, como por gente que afirma que as influências genéticas são sempre negligenciáveis e por isso deveríamos deixar de estudá-las. Creio, porém, que os dois extremos não não se aplicam e partem de uma visão equivocada sobre as relações entre a genética e as características mais complexas dos organismos. A verdade é que não deveríamos esperar, como regra, quaisquer tipo de relações simples e diretas entre as variantes genéticas comuns e nossa ‘performance social’, a não ser em casos extremos nos quais as eventuais variantes causem doenças mentais relativamente sérias, ou pelo menos, quando elas permitissem que déficits cognitivos sérios se desenvolvessem em certos ambientes mais prevalentes, como é o caso da fenilcetonuria não diagnosticada precocemente e não tratada adequadamente.

Por um lado, é um simples truísmo afirmar que nossos genes estão evolvidos com praticamente todos os aspectos de nossas vidas, por outro lado, isso não deve ser encarado como equivalente a afirmação de que nossos genes determinam (em qualquer sentido estrito) nossas vidas, sobretudo quando estamos lidando com questões sociocognitivas e culturais tão complicadas como a escolaridade ou sucesso profissional. Nestes casos, deveria já estar claro também que a influência dos genes nestas características (e, mais especificamente, das eventuais

Imagem: JOHN BAVOSI/SCIENCE PHOTO LIBRARY

Imagem: JOHN BAVOSI/SCIENCE PHOTO LIBRARY

variantes genicas destes genes existentes nas populações) deverá ser muito indireta, como muito bem colocado pela filósofa Patricia Churchland em um artigo de seu blog que recentemente traduzimos (‘Genes criminais e cérebros criminosos‘), devendo, muitas vezes, serem solapadas por outras influências muito mais diretas e imediatas, eminentemente socioambientais, que podem ir desde a nutrição adequada em fases iniciais da vida até o acesso a educação de qualidade e o incentivo familiar.

Quando compreendemos melhor a maneira bem indireta pela qual os genes agem no desenvolvimento dos fenótipos dos organismos fica mais fácil de compreendemos o porquê desta situação. Ao invés de definir diretamente características fenotípicas complexas, os genes especificam as sequências de seus produtos primários, proteínas e RNAs, que, por sua vez, participam de complexas redes de interação que influenciam as propriedades, características e comportamentos das células, tecidos, órgãos, sistemas e, desta maneira, do organismo como um todo [5]. Portanto, é por meio deste complexo sistema de interações que eles influenciam nossos impulsos, desejos, emoções, motivações, bem como nossa percepção, cognição e, por fim, nossos comportamentos. Isso acontece em um contínuo ‘interjogo’ com o ambiente em seus diversos níveis e manifestações, desde o ruido molecular intracelular [6] – e as restrições físico-químicas e mecânicas associadas as propriedades dos biomateriais que compõem as células e matriz celular e da própria organização e geometria dos tecidos [7 ]-, passando pelo ambiente intrauterino e pós-natal, chegando às complicações típicas das interações socioculturais em que estamos inseridos ao longo de nossas vidas.

Contudo, esta miríade de influências e interações não implica que não devamos tentar desvendar as cadeias causais, os mecanismos e processos biológicos (incluindo genéticos) que intermeiam o desenvolvimento de nossas capacidade cognitivas e emocionais que são aquilo que permitem nossas relações sociais e culturais, uma vez que não deixamos de ser entidades biológicas. Porém, isso deve ser feito com extremo cuidado e com a consciência que modelos simplistas da ligação entre a variação genética, cognição, emoção e comportamento humano devem ser evitadas em favor de modelos mais compatíveis com o que sabemos sobre a complexa relação entre genes, organismos e o ambiente.

——————————————————————————–

Referências:

  1. Hesman Saey, Tina Genes weakly linked to education level Science New s Web edition: May 31, 2013.
  2. Rietveld CA, Medland SE, Derringer J, Yang J, Esko T, Martin NW, Westra HJ,Shakhbazov K, Abdellaoui A, Agrawal A, Albrecht E, Alizadeh BZ, Amin N, Barnard J, Baumeister SE, Benke KS, Bielak LF, Boatman JA, Boyle PA, Davies G, de LeeuwC, Eklund N, Evans DS, Ferhmann R, Fischer K, Gieger C, Gjessing HK, Hägg S, Harris JR, Hayward C, Holzapfel C, Ibrahim-Verbaas CA, Ingelsson E, Jacobsson B, Joshi PK, Jugessur A, Kaakinen M, Kanoni S, Karjalainen J, Kolcic I, Kristiansson K, Kutalik Z, Lahti J, Lee SH, Lin P, Lind PA, Liu Y, Lohman K, Loitfelder M, McMahon G, Vidal PM, Meirelles O, Milani L, Myhre R, Nuotio ML, Oldmeadow CJ, Petrovic KE, Peyrot WJ, Polasek O, Quaye L, Reinmaa E, Rice JP, Rizzi TS, Schmidt H, Schmidt R, Smith AV, Smith JA, Tanaka T, Terracciano A, van der Loos MJ, Vitart V, Völzke H, Wellmann J, Yu L, Zhao W, Allik J, Attia JR, Bandinelli S, Bastardot F, Beauchamp J, Bennett DA, Berger K, Bierut LJ, Boomsma DI, Bültmann U, Campbell H, Chabris CF, Cherkas L, Chung MK, Cucca F, de Andrade M, De Jager PL, De Neve JE, Deary IJ, Dedoussis GV, Deloukas P, Dimitriou M, Eiriksdottir G, Elderson MF, Eriksson JG, Evans DM, Faul JD, Ferrucci L, Garcia ME, Grönberg H, Gudnason V, Hall P, Harris JM, Harris TB, Hastie ND, Heath AC, Hernandez DG, Hoffmann W, Hofman A, Holle R, Holliday EG, Hottenga JJ, Iacono WG, Illig T, Järvelin MR, Kähönen M, Kaprio J, Kirkpatrick RM, Kowgier M, Latvala A, Launer LJ, Lawlor DA, Lehtimäki T, Li J, Lichtenstein P, Lichtner P, Liewald DC, Madden PA, Magnusson PK, Mäkinen TE, Masala M, McGue M, Metspalu A, Mielck A, Miller MB, Montgomery GW, Mukherjee S, Nyholt DR, Oostra BA, Palmer LJ, Palotie A, Penninx B, Perola M, Peyser PA, Preisig M, Räikkönen K, Raitakari OT, Realo A, Ring SM, Ripatti S, Rivadeneira F, Rudan I, Rustichini A, Salomaa V, Sarin AP, Schlessinger D, Scott RJ, Snieder H, St Pourcain B, Starr JM, Sul JH, Surakka I, Svento R, Teumer A; The LifeLines Cohort Study, Tiemeier H, van Rooij FJ, Van Wagoner DR, Vartiainen E, Viikari J, Vollenweider P, Vonk JM, Waeber G, Weir DR, Wichmann HE, Widen E, Willemsen G, Wilson JF, Wright AF, Conley D, Davey-Smith G, Franke L, Groenen PJ, Hofman A, Johannesson M, Kardia SL, Krueger RF, Laibson D, Martin NG, Meyer MN, Posthuma D, Thurik AR, Timpson NJ, Uitterlinden AG, van Duijn CM, Visscher PM, Benjamin DJ, Cesarini D, Koellinger PD. GWAS of 126,559 Individuals Identifies Genetic Variants Associated with Educational Attainment. Science. 2013 May 30. DOI: 10.1126/science.1235488

  3. Bush WS, Moore JH (2012) Chapter 11: Genome-Wide Association Studies. PLoS Comput Biol 8(12): e1002822. doi:10.1371/journal.pcbi.1002822

  4. Kaplan, Jonathan Michael, Pigliucci, Massimo Genes `for’ Phenotypes: A Modern History View Biology and Philosophy March 2001, Volume 16, Issue 2, pp 189-213 doi: 10.1023/A:1006773112047

  5. Moss, Lenny, What Genes Can’t Do, MIT Press, 2003, 241pp.

  6. Griffiths AJF, Miller JH, Suzuki DT, et al. Genes, the environment, and the organism. In An Introduction to Genetic Analysis. 7th edition. New York: W. H. Freeman; 2000.

  7. Newman SA, Comper WD. ‘Generic’ physical mechanisms of morphogenesis and pattern formation. Development. 1990 Sep;110(1):1-18. Review. PubMed PMID:2081452.

—————————————————————-

 Autor: Rodrigo Véras

Posted in Ciência, Ciências cognitivas, Genetica | 3 Comments

Combatendo a ciência de má qualidade: A importância da publicação dos resultados negativos

Para variar, mais duas excelentes palestras do médico psiquiatra e epidemiologista, e eterno garoto, Ben Goldacre. Estas duas TEDtalks “Combatendo ciência ruim” e “O que os médicos não sabem sobre as drogas que prescrevem”.

Além do habitual sensacionalismo da mídia com relação a pesquisa médica e biomédica, que alterna entre a propagação do terror e a venda da panaceia, os absurdos das terapias alternativas e complementares, com sua base pseudocientífica e ausência de evidência clínica rigorosa, a própria medicina convencional pode ser vítima de más práticas de investigação e, portanto, tornar-se má ciência. Goldacre nos alerta para o fato das grandes companhias farmaceuticas estarem escondendo dados relevantes para a avaliação crítica da qualidade e segurança dos fármacos, infelizmente, com a a anuência dos órgãos regulatórios. Não se faz ciência de qualidade suprimindo dados. Precisamos do conjunto das informações para podermos tirar conclusões e decidirmos qual o melhor curso de ação. Veja também esta sessão de P&R com ele após a primeira das conferências.

—————————————————–

Referências:

  • Goldacre, Ben ‘Bad Pharma: How drug companies mislead doctors and harm patients.’ Fourth Estate, 2012. 448 p.
  • Goldacre, Ben ‘Ciência da Treta’ Bizâncio editorial, 2009. 336 p.
Posted in Ciência, Farmacologia, Pesquisa Clínica, Pseudociências | 1 Comment

Ciência e Inferência Parte IV: Probabilidades e probabilidades

Publicado originalmente no dia 24 maio de 2013 no Periódico Bule do Bule Voador.

——————————————————————

Definir probabilidade não é uma tarefa fácil. Até hoje não há um consenso entre matemáticos, estatísticos, probabilistas e filósofos sobre o que, exatamente, significa este termo. Não obstante, é inegável a nossa dependência deste conceito que tem vastas aplicações. Apesar destangbbs4ceb73eb99a24 situação, conseguimos distinguir, pelo menos, duas classes de significados mais comummente atribuídos ao termo ‘probabilidade’.

Na primeira classe de definições as probabilidades são encaradas como frequências relativas de certos eventos de um total de eventos possíveis de interesse, ou, mais tecnicamente, como a razão limite de uma sequência de eventos reprodutíveis. Neste caso, uma declaração de que uma moeda teria 50% de probabilidade de dar cara caso arremessada é, normalmente, compreendida como querendo dizer que cerca da metade dos resultados de uma série de lançamentos darão ‘cara’, sendo esta razão cada vez mais exata quanto mais a série se estender. Já na segunda classe, as probabilidades são vistas de maneira bem diferentes, como o grau de conhecimento ou crença de um indivíduo em uma determinada hipótese ou desfecho dado uma situação de incerteza. Neste caso, a probabilidade pode ser aplicado não apenas às sequências, mas também a eventos individuais, como nos explica David Howie em seu livro [1] :

Quando um meteorologista prevê chuva para amanhã, com uma probabilidade de 12%, ele não está se referindo a uma sequência de dias futuros. Ele está preocupado em fazer uma previsão confiável para amanhã e não especular para o futuro ou para uma série de dias quase idênticos ao amanhã, já que a previsão é baseada em determinadas condições atmosféricas que nunca serão repetidas. Em vez disso, o meteorologista está expressando sua confiança que vai chover, com base em toda a informação disponível, com um valor em uma escala em que 0 e 1 representam a certeza absoluta de nenhuma chuva e chuva, respectivamente.”[1]

Estas duas interpretações particulares são chamadas, respectivamente, ‘Frequencista‘ e ‘Subjetivista‘ e podem ser consideradas pertencentes a duas classes, mais amplas, de interpretação de probabilidade:

  1. Interpretações ‘epistêmica’ ou ‘evidencial’;

  2. Interpretações ‘objetiva’ ou ‘física’.

Além da interpretação ‘subjetivista‘, dentro da classe de interpretações ‘evidenciais‘, pode ser incluída a ‘interpretação lógica – que vê a probabilidade como uma forma de implicação fraca (em contraste da implicação lógica dedutiva tradicional) – bem como, dentro da classe ‘objetiva ou ‘física’, podemos incluir a ‘interpretação propensionista‘, na qual as probabilidades são encaradas como tendências (‘propensões’) intrínsecas de certos sistemas naturais ou de arranjos experimentais particulares [2, 3].

Os Bayesianos, normalmente, inclinam-se às interpretações subjetivistas, como já deve ter ficado claro. Nesta perspectiva o nível de apoio que as evidências conferem a certas crenças depende de três fatores principais: (a) a ‘relatividade conformacional’, ou seja, as relações entre as evidências com as hipóteses devem ser relativizadas para cada indivíduo e seus respectivos graus de crença; (b) ‘proporcionalismo das evidências‘, isto é, o fato de um agente racional dever basear sua confiança em uma hipótese H proporcionalmente ao total de evidências em selo_periodico_smallrelação a H, de maneira que sua probabilidade subjetiva para H reflita o balanço geral de suas razões a favor e contra a verdade de tal hipótese; e, (c) a “confirmação incremental”, ou seja, a ideia que um conjunto de dados fornece evidência incrementais para H na medida que, ao serem condicionadas aos dados, elas aumentam a probabilidade de H ser verdadeira [2].

Um problema óbvio pode ser detectado com o primeiro dos postulados. Embora a relativização das relações das evidências aos indivíduos, e aos seus níveis de crença prévios, faça sentido em termos de uma teoria da decisão individual, ao mesmo tempo, parece afastarmos do ideal de objetividade e da necessidade de acordo intersubjetivo característicos da investigação científica, o que certamente traz um sabor estranho para uma teoria da inferência científica. Tratarei deste ponto com mais cuidado em um próximo artigo por que existe um problema mais imediato que assombra a perspectiva subjetivista adotada tipicamente pelos Bayesianos:

Por que nossas crenças e o grau de confiança nas mesmas deveriam respeitar regras de ‘condicionalização‘* como as do teorema de Bayes da teoria das probabilidades?

A principal forma de responder a esta questão envolve o chamado “argumento da aposta holandesa” (“dutch book argument”). A chamada ‘aposta holandesa’ (“dutch book”) envolve um conjunto de apostas e ‘chances‘** a elas associadas que lhes garantem um certo ganho independentemente do resultado do jogo, o que uma decorrência das probabilidades implicadas por estas ‘chances’ não serem coerentes [b]. Frank P. Ramsey e Bruno de Finetti postularam que os graus de crença dos indivíduos devem ser coerentes de modo que uma ‘aposta holandesa‘ não possa ser feita contra eles, garantindo uma salvaguarda contra esta indesejada situação. Por isso, os subjetivistas propõem que a teoria das probabilidades (especialmente em função de certas propriedades com a aditividade das mesmas) e as suas regras de inferências funcionem como normas de coerência entre os graus de crença dos indivíduos que previnem que eles sejam vitimas da “aposta holandesa” por parte de outros. Como explica Luiz Helvécio em um post do Crítica na Rede:

Foto: SOPHIE BRANDSTROM/LOOK AT SCIENCES/SCIENCE PHOTO LIBRARY

A estratégia básica é mostrar que se violarmos esses axiomas, consequências ruins podem surgir. No caso da aposta holandesa, se o apostador fizer um conjunto de apostas (presumindo que há alguma conexão entre graus de crença e disposição para apostar) que violem os axiomas da probabilidade, ele certamente perderá dinheiro. Por exemplo, se eu apostar R$ 600 para ganhar R$ 1000 que amanhã vai chover, e também fizer a mesma aposta de que amanhã não vai chover, terei gastado R$ 1200 para ganhar apenas R$ 1000. De qualquer maneira perco R$ 200. Isso aconteceu porque atribuí 0,6 à  minha crença de que amanhã vai chover e também 0,6 à minha crença de que não vai chover amanhã. Somados os graus de crença — 1,2 — vemos que estou a violar um dos axiomas da probabilidade — o de que a probabilidade de p ou ¬p é igual a 1. Infelizmente não há muitos recursos introdutórios que nos auxilie passo a passo nos detalhes de como funciona uma aposta holandesa.”

Isso nos traz de volta a questão da subjetividade e dos problemas para a natureza comunitária e para a busca por objetividade típica da investigação científica. Embora subjetivistas de alta estirpe, como Finetti e Ramsey, defendam que as probabilidades não existem concretamente (apenas em nossas mentes) [4] é bom deixar claro que o que eles questionam é o ‘objetivismo probabilista‘ – isto é, a ideia de que as probabilidades são inteiramente determinadas por aspectos da realidade. Eles não questionam, necessariamente, que haja uma realidade objetiva, para além das probabilidades, e a qual devemos levar em conta ao estimar nossos graus de crença em certas ideias, desfechos e na tomada de decisão frente a informações que são, de modo geral, incertas e imperfeitas. Neste sentido os subjetivistas são também objetivistas (ou, pelo menos, podem sê-lo) [5] em um sentido mais amplo. Mas é aí que as coisas começam a tornar-se mais interessantes, pois entre os Bayesianos, mesmo adotando uma perspectiva subjetivista em relação a inferência, existem aqueles que se autodenomina ‘Bayesianos objetivistas’, diferindo dos ‘Bayesianos subjetivistas’ ao acreditarem que devem existir bem mais restrições para determinar nossos graus de crença do que a mera manutenção da coerência por meio do respeito aos axiomas da teoria das probabilidades. No próximo artigo, irei explorar as diferenças entre Bayesianos subjetivistas e objetivistas em relação a como eles escolhem as probabilidade prévias, um importante ponto de discussão entre filósofos, matemáticos e cientistas que adotam a abordagem Bayesiana. Portanto, aguarde ‘Ciência e Inferência. Parte V: Subjetividades objetivas e objetividades subjetivas‘.

———————————————————

* Aqui, por ‘condicionalização‘, entenda-se a regra de mudança dos graus de crença de uma pessoa quando esta se depara com novas evidências, em que a probabilidade posterior, após levar em conta as evidências X, pnova, é ajustada para ser igual a probabilidade condicional prévia, p antiga (· | X) [6]. Veja também o artigo anterior para saber mais sobre probabilidades condicionais.

** do inglês odds, é uma razão de probabilidades, ou seja, a probabilidade de ocorrência de um evento dividida pela probabilidade da não ocorrência do mesmo evento. r = p/1- p, onde r é a chance e p é a probabilidade de ocorrência do evento.

——————————————————–

Referências:

  1. Howie, David Interpreting Probability: Controversies and Developments in the Early Twentieth Century. Cambridge: Cambridge University Press, 2002, 262 pp.

  2. Joyce, James, “Bayes’ Theorem”, Zalta, Edward N. (ed.)The Stanford Encyclopedia of Philosophy Fall Edition, 2008. [veja especialmente o item 3].

  3. Hájek, Alan, “Interpretations of Probability“ Zalta, Edward N. (ed.)The Stanford Encyclopedia of Philosophy Fall Edition, 2012.

  4. Nau, Robert 2001. “De Finetti was Right: Probability Does Not Exist,” Theory and Decision, Springer, vol. 51(2), pages 89-124

  5. Galavotti, Maria Carla ‘Subjectivism, Objectivism and Objectivity in Bruno de Finetti’s Bayesianism‘ in Corfield, David and Williamson, Jon [ed] Foundations of Bayesianism: Applied Logic Series Volume 24, 2001, pp 161-174 doi: 10.1023/A:1015525808214

  6. Greaves, Hilary and Wallace, David Justifying Conditionalization: Conditionalization Maximizes Expected Epistemic Utility Mind (July 2006) 115(459): 607-632 doi:10.1093/mind/fzl607

____________________________________

Autor: Rodrigo Véras

Posted in Ciência, Ciências cognitivas, Filosofia da ciência | Leave a comment

Lá vamos nós de novo: As incansáveis sereias que não morrem jamais

Publicado originalmente no blog do GIQ na quarta-feira, 29 de maio de 2013
————

As sereias do Discovery Channel e Animal Planet são como os proverbiais mortos-vivos. Não importa quantas vezes você os mate (ou, no caso, os  desminta), não adianta, eles continuam voltando para te assombrar.

Após o pseudo-documentário “Sereias” (“Mermaid: A body found”) que foi mais uma vez reprisado, em maio deste ano, foi  veiculado, em seguida, um outro programa, desta vez chamado, “Mermaids: New Evidence” que traz de volta o ‘Doutor Paul Robertson‘ (que, na verdade, não existe, sendo apenas um ator. Ator esse que parece estar se especializando em interpretar cientistas que se deparam com mistérios) defendendo a existência das criaturas lendárias que, na versão do AP seriam uma espécie de hominini adaptada à vida aquática que teria sido inspirada na muito especulativa e não levada a sério pela comunidade de pesquisa, ‘teoria do macaco aquático‘. Neste novo programa são apresentadas ‘evidências’ históricas e novas filmagens inéditas destas criaturas.

Muitas pessoas, ao defenderem o programa, usaram a desculpa que os desmentidos e exposição da natureza ficcional do programa eram apenas um exercício de prepotência e arrogância, já que estaríamos negando mesmo a mera possibilidade destes seres existirem, mas esta jamais foi a questão. O problema é que muitas pessoas estão realmente acreditando que o programa do AP seja um documentário real, que os ‘cientistas’, citados nele, realmente existem e que teriam tido seus trabalhos (e as evidências que eles analisaram nos mesmos) suprimidas pelos governos de seus países em uma campanha de acobertamento internacional que só não conseguiu silenciar uma rede de TV à cabo e um cientista, cujos dados biográficos, profissionais e a produção acadêmica teriam sido todos apagados do mapa.

Os artigos que eu (veja “De novo a história das sereias” e “De Dragões à Sereias“) e outros escrevemos sobre o tema em nenhuma momento negam o direito das pessoas acreditarem em lendas e nem ao menos negam a simples possibilidade lógica de que tais seres existam. Eles apenas alertam que, como antes do programa do AP, não existem evidências científicas e rigorosas que endosse a existência de tais seres vivos (nem como criaturas místicas nem como espécies desconhecidas pelas ciência de primatas aquáticos), apenas as anedotas de sempre. É preciso mais que uma mera possibilidade lógica e anedotas para que a comunidade científica passe a considerar algo como real ou pelo menos provável , especialmente quando são lendas e mitos. Esta é a grande questão.

Embora os próprios responsáveis pelo Discovery, por meio do news.discovery, reconheçam que “Sereias” não é um documentário real, mas apenas um programa feito ‘ao estilo de um documentário‘ (devendo ser visto como ficção científica, ainda que, segundo eles, baseado em alguns fatos reais e teoria científica real*), ainda assim, os produtores e responsáveis pelo programa usam de linguagem ambígua e deixam de lado os vários problemas de suas especulações e da teoria pseudocientífica que usam como base para sua proposta, bem como não deixam claro a total falta de evidências rigorosas para estes seres. Parece que eles deixam as coisas assim de propósito para disseminar as interpretações mais desvairadas possíveis.

O mesmo pode ser visto na entrevista dada pelo criador/produtor da série, Charlie Foley, ao Mother Nature Network [Veja também o artigo e o vídeo do huffigntonpost] em que ele explica o novo programa misturando ‘fatos’ e ficção de maneira ambígua, de modo a não desfazer as confusões criadas por ele próprio e pelo AP ao exibir o programa. Não tenho como não enxergar nisso uma certa irresponsabilidade, sendo mais uma mostra de que o DC e o AP cada vez mais se distanciam da educação e divulgação científica de boa qualidade e navegam em direção do puro entretenimento sensacionalista, como ocorreu com o History Channel.

Confundir telespectadores, fomentar desinformação generalizada e disseminar a ideia de conspirações governamentais e acobertamento de fatos fantásticos não me parece um objetivo digno para um canal de TV, especialmente um de que se esperaria mais seriedade.

A repercussão do primeiro programa foi tão grande que o NOAA [National Oceanic and Atmospheric Administration], a agência ambiental de pesquisa que é citada como abrigando os principais ‘cientistas’ mostrados no programa, teve que fazer um desmentido em sua página, enfatizando que não foram descobertas evidências de humanoides aquáticos. O que, na realidade, só fez por reforçar as crenças de muitos leigos, inclinados à teorias conspiratórias, pois ‘já que o governo negou, então, deve ter alguma coisa ali‘. É claro que se o governo (na figura do NOAA que, aliás, foi solicitado por vários e-mails de cidadãos a esclarecer a questão) nada tivesse dito, o silêncio desta instituição também seria usado como evidência de que as sereias existem ou de que exista algo a mais por trás desta história. Com uma mentalidade assim não tem como vencer.

Os produtores do programa chegaram a criar uma página, believeinmermaids.com, supostamente, do ‘Doutor Robertson’, na qual ele exporia as ‘evidências’ das sereias, mas que, convenientemente, teria sido bloqueada pelo FBI. O que foi só mais uma jogada de marketing, brilhante, por sinal, já que, além de sustentar a ideia de que o governo dos EUA (e não só ele, já que no programa original ‘pesquisadores’ de várias partes do mundo analisam as ‘evidências’ e atestam sua ‘veracidade’) estar abafando o caso, ao bloquear a página, os produtores impedem que as pessoas fossem mais fundo na questão e analisassem as supostas informações e evidências, fazendo perguntas ao seu ‘dono’ que poderiam expor a inconsistência da história, como por exemplo, se alguém questiona-se onde estão os artigos sobre as análises das evidências, ou por que não encontramos nenhum dos ‘cientistas’ citados e mostrados no programa nas páginas das universidades e institutos de pesquisa, de acordo com o próprio programa, nos quais eles deveriam trabalhar e seus nomes em artigos nas bases de periódicos.

Aliás, com uma conspiração dessa magnitude, que apaga do mapa pessoas de diversos países e suas carreiras, deveríamos realmente esperar que o AP conseguisse burlar todo o processo de abafamento e veicular vários programas sobre o assunto?

A própria forma como eles apresentam os supostos hominines aquáticos é bizarra. Por exemplo, as criaturas mantém feições tremendamente humanas, mesmo tendo divergido de nossa linhagem, de acordo com o programa, milhões de anos atrás antes mesmo da divergência da nossa linhagem da dos ancestrais dos Chimpanzés e Bonobos, em um incrível caso de convergência evolutiva mesmo que tenha ocorrido em ambientes completamente diferentes. Este pequeno lapso faz todo sentido do ponto de vista ficcional já que foi feito, obviamente, para manter a identificação dos telespectadores com a criatura e não desviar demais da visão puramente mítica destes seres.

O problema é que, ao adotarmos uma perspectiva comparativa mais rigorosa, seria muito estranho que estes animais mantivessem, por exemplo, narinas frontais e uma cabeça tipica da postura ereta, isto é, com a coluna vertebral e a posição do forame, onde ela se insere, muito semelhante a nossa e não ao observado em outros primatas e menos ainda ao observado em mamíferos aquáticos, o que não parece nem filogeneticamente correto e nem hidrodinamicamente apropriado.

Por exemplo, em outros mamíferos marinhos, que se adaptaram a vida eminentemente aquática (em contraste com animais que adotam uma vida mais anfíbia, como castores, lontras etc), como as focas e sirenídeos (como os manatins), as narinas ficam mais para o topo do rostro; e em cetáceos, como baleias e golfinhos, elas se fundiram e deslocaram-se bem para cima na cabeça, atrás dos olhos, como fica claro ao observarmos os orifícios respiratórios destes animais.

Outro problema é a distribuição da gordura nestas supostas criaturas, o que é uma questão importante em mamíferos aquáticos, sobretudo para aqueles que perderam os pelos, como os cetáceos, por causa da perda de calor acentuada que ocorre na água, especialmente em águas mais frias. As sereias do AP são simplesmente muito magrinhas e pouco roliças. Além do que possuem aqueles braços compridos e finos, bem humanos, que seriam outra fonte de perda de calor enorme. Em contraste, mamíferos aquáticos como sirenídeos, ‘pinipédios’ e cetáceos, todos, tiveram seus membros dianteiros evoluídos em nadadeiras, evoluindo também estratégias bem específicas, como mecanismos contracorrentes trocadores de calor, para minimizar a perda de calor por estas superfícies maiores. Embora, forçando um pouco a barra, poderiam ser arranjadas explicações adaptativas ad hoc para estas diferenças (ou os autores, simplesmente, poderiam apelar para a contingência nos processos evolutivos ou a falta de tempo dos mesmos), ainda assim, estas questões mostram como foi superficial o tratamento dado pelo programa à biologia destas criaturas imaginárias, o que desmonta a impressão que muitos leigos tiveram de que era tudo muito coerente e consistente. Não era. Algo compreensível em um exercício de ficção, mas não em um documentário verídico que se propõem ser a única exposição das supostas evidências remanescentes daquilo que certamente seria a maior descoberta do século.

O pior de tudo isso é que, caso os produtores e a emissora fossem mais sérios e responsáveis, tendo apresentado o programa como claramente ficcional (ao invés do silêncio e da ambiguidade nos desmentidos nos créditos, ao final do programa) e deixado claro que era apenas um ‘What if?’, as coisas poderiam ter sido muito mais interessantes. Por exemplo, eles poderiam ter incluído, ao final da exibição (em um programa separado ou mesmo ao final do programa) cientistas reais, especialistas em mamíferos aquáticos e em sua evolução (não envolvidos com a produção do programa), bem como antropólogos e primatologistas, para comentar as limitações, problemas e mesmo os acertos da perspectiva adotada pelo AP de como seriam as sereias caso elas existissem mesmo como animais reais e não como seres místicos e sobrenaturais. Caso tivessem feito isso, o programa seria muito mais informativo, útil e divertido.

———————————————

*O que ainda é um certo exagero, pois os eventos reais são o ‘bloop‘, os encalhamentos de baleias (que são suspeitos de terem sido causados por sonares da marinha) e a existência e evolução de mamíferos aquáticos, além da dita ‘teoria científica’ que embasaria esta ficção,  a ‘hipótese do macaco aquático’, mas que, como já disse, é uma ideia especulativa que, simplesmente, não é levada a sério por boa parte da comunidade de paleoantropólogos e biólogos evolutivos que estudam a evolução humana. Isto é, as coisas que são realmente inspiradas em fatos são muito diferentes dos fatos que as inspiraram e a ‘teoria científica’, que eles alegam usarem como base, é uma especulação vista como pseudocientífica por boa parte da comunidade científica em áreas relevantes.

—————————————————–

——————————————

Atualização do dia 27 de janeiro de 2014:

Aos desaviados, que caíram neste post de para-quedas ou após uma procura no google motivada pela exibição de um dos programas do AP sobre sereias, existem outros posts sobre o tema, neste mesmo blog (sigam os links) e, principalmente, escrevi um post mais recente do que este sobre o ator principal do segundo programa. Vejam “Sobre sereias, goblins de metal e jogos de Pimball/RPG: As muitas vidas do ‘Dr Paul Robertson“.

Posted in Ciência, esquisitices, Pseudociências, Uncategorized | 51 Comments

Naturalismo (editora Vozes, Jack Ritchie)

Estou começando a ler (e já estou gostando bastante) este belo livrinho publicado pela edito8532644236ra vozes. O livro ‘Naturalismo’ é uma ótima introdução aos interessados na moderna filosofia analítica e naquela que é a orientação mais disseminada entre os filósofos atuais desta tradição. No livro, o autor, Jack Ritchie, explica um pouco da história do projeto naturalista que surge do abandono da busca por uma ‘filosofia primeira’, que visava dar um fundamento sólido e indubitável a razão humana, e da crescente aproximação entre a filosofia e as ciências naturais, ressaltando as várias formas que isso foi e vem sendo tentado, enfatizando os problemas, limitações, bem como os possíveis caminhos e soluções para este moderno ‘ismo’, com o qual muitos filósofos modernos vêm se alinhando. Especialmente indicado aos interessados em epistemologia e filosofia da ciência.

————————————–

  • Ritchie, Jack ‘Naturalismo‘ Petrópolis: Editora Vozes, 1ª edição, 2013. 320 p.
Posted in Filosofia, Filosofia da ciência | Leave a comment