Extinção

Eu deveria ser ainda bem pirralho, mas me lembro de pensar em como seria morrer. Às vezes simplesmente pensava nisso de uma forma menos pessoal, menos íntima, imaginando como seria a vida dos meus pais e irmãos, após a minha morte. Pensava se eles sofreriam muito (ou não), ou se comprariam mais um bicho de estimação para meus irmãos para compensar a minha falta, ou, quem sabe, se alugariam meu quarto para outra pessoa (Tudo bem, nisso eu nunca pensei). Porém, na maioria das vezes eu pensava mesmo era em como seria estar morto.

Eu me lembro de apertar meu próprio pescoço e sentir aquela sensação terrível que vem do bloqueio da circulação do sangue para o cérebro. A cabeça fica pesada e parece começar a pulsar. O rosto se retesa e um ligeiro desespero começa a se instalar. A sensação é realmente terrível. Felizmente nunca tentei isso por mais do que alguns poucos  segundos.

Também tentava prender a respiração pelo máximo de tempo que conseguia. Aproveitava as visitas à praia ou as aulas de natação para fazer isso com mais discrição, mas também fazia isso em casa quando estava sozinho no meu quarto ou quando assitia tv. Algumas vezes fiz isso durante as reprises do filme “2001: Uma Odisséia do espaço”. Na cena quando David Bowman retorna a nave sem seu capacete, impulsionado pelo ar que escapava de seu módulo EVA quando ele estoura os ferrolhos da escotilha, eu retirava o ar dos meus pulmões, para evitar a embolia claro, e tentava me manter sem inspirar até ver, no filme, a escotilha se fechando e o som do ar ventilando a ante-sala da nave Discovery.

Nas aulas de natação, conseguia ficar mais de um minuto sem respirar. Acho que meu recorde foi de quase 2 minutos prendendo a respiração. Pena que nunca treinei de forma mais séria, pois talvez eu tivesse tido um futuro em competições de mergulho livre e apneia profissionais. De qualquer forma, antes que comece a tergiversar mais ainda, essas experiências foram a base das minhas primeiras incursões intelectuais sobre a mortalidade. Tentar me imaginar morto imóvel e de olhos fechados foi outro destes experimentos preliminares. Mas isso sempre me pareceu ridículo e longe da questão principal.

Apesar desses pequenos “experimentos” jamais poderem me dar uma ideia do que era estar morto (no máximo poderiam me dar pistas sobre o processo de morrer estrangulado ou sufocado), me revelaram desde cedo uma questão que mais tarde definiria muito da minha personalidade e das minhas “visões de mundo”.

Os experimentos com bloqueio do meu fluxo de sangue e os experimentos, mais demorados, de apneia, me deram uma “intimidade” maior com meus processos fisiológicos básicos, respiração e circulação sanguínea. E quando pensava na percepção ou quando contemplava as minhas piores dores de cabeça uma sensação de incomodação me invadia. Esta incomodação era em relação a ideia de morrer, como uma forma de continuação da vida. Alguma coisa não fazia muito sentido nisso tudo.

Não fazia sentido viver sem respirar, sem batimentos cardíacos, sem sensação de tato, sem perceber movimentos viscerais, sem propriocepção, sem visão, sem audição etc. Mesmo que pudéssemos viver sem um ou outro, ou mesmo alguns, desses processos, não era possível viver sem todos ou mesmo alguns tão fundamentais como respirar. Tudo isso parece óbvio, mas foi essa “intimidade” fisiológica, que sentia durante os meus “experimentos”, que me fizeram perceber que todos estes processos e as sensações, percepções e até as reflexões sobre eles, dependem da incorporação. Eles dependem do fato de eu ser um corpo, com sistemas sensoriais e efetores, como músculos, tendões e glândulas. Por exemplo, somos animais extremamente visuais. Nossa  visão estereoscópica é base de nossos processos de “imageamento”. Não consigo, por exemplo, me imaginar vendo em ângulos de 360 graus por exemplo. Também não faz sentido imaginar ver sem uma aparato físico que absorva a luz através de algo como os fotorreceptores da minha retina e extimulem meu córtex visual. O mesmo acontece se penso em outras modalidades  sensoriais. Como posso imaginar de forma que faça sentido sentir um toque sem contato físico ou pelo menos uma estimulação nervosa numa  em alguma área cortical sensorial equivalente.

A constatação da minha corporalidade foi o primeiro passo para eu compreender que não é possível imaginar estar morto de uma maneira que recrie uma experiência subjetiva. Não é possível imaginar o “não-ser”. Mesmo um sono sem sonho (ou um estado de coma profundo) só pode ser pensado, pela a própria pessoa que passa por esta situação, se ela acorda (ou sai do coma).

Desde a época desses meus bizarros “experimentos” comecei a perceber que eu era um “extintivista” e não um “sobrevivencista”. A partir desta época começou a ficar muito claro que aquilo que chamamos de mente, mas particularmente a consciência – na qual podemos incluir nosso senso de identidade pessoal, nossas memórias, personalidade e nossas experiências perceptivas e cognitivas imediatas – deixa de existir junto com o fim do nosso corpo, particularmente do nosso cérebro.

Na minha vida adulta tudo que aprendi só me deu mais clareza sobre este fato. Tudo que li em minhas leituras das diversas ciências, principalmente as neurociências (mas mesmo a bioquímica e a biofísica), me mostraram que a consciência e tudo que está atrelado a ela só faz sentido na corporalidade. Sem um substrato físico altamente complexo não faz sentido experimentar qualquer coisa. Quando este substrato é destruído e com eles os processos nele instanciados, nós nos extinguimos.

A dependência estreita que os processos cognitivos, sensoriais, efetores e emocionais tem da atividade do cérebro, constituem-se na maior fonte de evidências para o “extintivismo”. Estudos nas áreas de neurologia, neuropsicologia, neurociências cognitivas, psicobiologia, neurofarmacologia e neurobiologia comparativa, envolvendo estudos com pacientes com lesões cerebrais e outros distúrbios clínicos, investigações experimentais com sujeitos humanos ou usando modelos animais (principalmente roedores, macacos e gatos), deixam muito pouco espaço para qualquer dúvida significativa da relação de dependência causal que todas nossas experiências tem em relação ao cérebro ativo.

As teses dualistas de substância, como o dualismo cartesiano, são becos sem saída explanatórios, que não nos dão nenhuma possibilidade de explicar a mente humana de forma precisa e empiricamente orientada. São teses destituídas de evidências científicas que as corroborem e completamente não parcimoniosas. São verdadeiras antiguidades intelectuais. Isso se torna ainda mais evidente se olharmos para as disciplinas mais fundamentais como a química e a física. Elas sugerem um fechamento causal que torna qualquer ideia de alma “imaterial” ou “não-física”, bem como todo conceito de sobrenatural, simples peças de wishful thinking. Meras possibilidades lógicas sem nenhum apoio científico, baseadas mais no nosso desejo de eternidade (e mantidas por mecanismos cognitivos e sociais que nos enviesam e distorcem nossos julgamentos) do que em boa filosofia ou boa ciência.

A minha caminhada em direção ao naturalismo metafísico já não tinha mais volta, assim como a consciência da minha caminhada para a extinção. Por mais assustador que isso possa parecer é essa consciência da finitude que me enche de entusiasmo e me tira, muitas vezes, das mais nefasta depressões. Nestas horas percebo que todos meus problemas fazem parte do meu viver. Mesmo a minha preocupação com o futuro, até mesmo com o futuro que jamais testemunharei, faz todo sentido pois quando penso nele, penso nele enquanto estou vivo e penso nele em um momento “presente”, e isso não poderia ser diferente. Um sentimento de respeito a vida, especialmente a de outros seres humanos – mesmo que na maioria das vezes eu não vá muito com a cara deles – e criaturas sencientes, vem junto com a constatação da minha finitude. Este senso de tranquila desesperança talvez venha também do fato de que a extinção absoluta de qualquer perspectiva individual ou memória autobiográfica pode também acenar com a possibilidade de uma verdadeira paz final. Não como uma segunda existência à sombra de palmeiras “espirituais”, ouvindo o canto dos anjos ou preso a um eterno ciclo de reencarnação, como algumas visões religiosas podem postular. Não mesmo. Eu me refiro a simples inexistência.

Infelizmente, enquanto o cérebro estiver intacto e a consciência perdurar, o medo e a ansiedade também podem continuar e o velho medo do processo de morrer e da falta de controle que temos sobre ele vem à tona. Mas deste medo mesmo os crentes dificilmente podem se esquivar.

 

About rodveras

I'm a biologist and science writer who loves philosophy and sciences.
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2 Responses to Extinção

  1. Maryualê says:

    Abraça uma gatinha que todo o medo e ansiedade passam…

  2. rodveras says:

    Meu medo é o gato!

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