Ateísmo, Naturalismo e Sobrenaturalismo

O ateísmo em seu sentido mais amplo é a simples falta de crença em deus. Em geral, esta falta de crença se estende a qualquer divindade. Porém, na imensa maioria dos casos, é voltada principalmente ao “Deus” do teísmo tradicional, aquela entidade transcendente, sobrenatural, onipresente, onisciente, onipotente e “onibenevolente”. Os motivos que levam cada pessoa a este estado de descrença, ou a convicção com que ela a manifesta , podem variar de ateu para ateu.

Muitas pessoas se sentem desconfortáveis com o rótulo “ateu”, simplesmente porque impõem ao ateísmo um ônus exagerado. Ao contrário da ideia um tanto difundida (empurrada por certos crentes) e, infelizmente, aceita por muitas pessoas que se dizem agnósticas, o ateísmo não depende da certeza absoluta e inequívoca na inexistência de deus.

J. J. C. Smart em um artigo para a Stanford Encyclopedia of Philosophy (SEP) comenta sobre o erro de se pressupor ou exigir que qualquer posição substantiva deva envolver certeza, ou seja, a crença na impossibilidade de equivocação. Porém esta exigência não condiz com o falibilismo inerente às nossas posições epistêmicas modernas e nossas atitudes em relação ao conhecimento cientifico, a filosofia moderna ou mesmo as justificativas e argumentos que sustentam nossas tomadas de posições no nosso dia a dia.

Algumas pessoas também se ressentem do fato de que existem muitas definições possíveis de deus.  No entanto, se partimos do princípio que sem evidências não temos motivos para acreditar em nenhuma tipo de entidade mágica ou fantástica, mas ao mesmo tempo estejamos dispostos a avaliar os argumentos e evidências caso eles sejam apresentados, a posição ateísta é totalmente consistente e justificada. Mesmo por que, muitas das definições e redefinições do termo “deus” não passam de meros jogos retóricos, mais destinados a confundir do que estabelecer alguma tese. Algumas destas definições simplesmente tornam o conceito de deus trivial, por exemplo, a postular que deus é amor. Outras vezes, no entanto,  o tornam logicamente consistente, porém, meramente possível. A questão é que ao fazer isso seus atrativos iniciais se esvaem ao mesmo tempo que continua sem qualquer evidência a favor desta nova definição. Por exemplo, isso pode ser conseguido ao definir deus, não mais como um ser transcendente, perfeito e necessário, mas como uma entidade super-poderosa, não necessariamente sobrenatural, mas que está para sempre oculta e que, de alguma forma desconhecida, criou as leis naturais que deram origem ao nosso universo. Estas estratégias retóricas muitas vezes só fazem por retirar os supostos poderes explicativos da entidade original, trocando um mistério, como a origem do universo ou da vida, por um outro ainda maior, porém muito provavelmente intransponível.

Este último problema é ainda maior para as versões mais tradicionais do teísmo com as que defendem o Deus judaico-cristão. Com o agravante de que a divindade judaico-cristã está acima de qualquer possibilidade de investigação empírica ou racional, pelo menos de acordo com muitas definições. Desta forma, exclui qualquer possibilidade de compreensão dos métodos por ela usados. O problema é que ao enveredar por este tipo de estratégia o “Deus” original se esvai e sobrando muito pouco sobre o que valha a pena argumentar. Deus passa ser não mais uma resposta, mas apenas mais um nome para nossa ignorância.

Entretanto, o mais comum é que essas diversas definições e redefinições sejam empregadas alternadamente, ou mesmo conjuntamente, deixando as mais inanes e abstratas para as situações de aperto, buscando blindar o conceito de deus, e as mais tradicionais e questionáveis, para o dia a dia dos fiéis.

Muitos dos argumentos pró-teístas usam uma estratégia semelhante a acima citada, a de usar vários conceitos ao mesmo tempo, às vezes mutualmente excludentes, de forma disfarçada. Certos argumentos teístas tentam demonstrar um ponto muito simples e  às vezes até plausível, pelo menos, em um primeiro exame. Porém, a partir daí tentam escamotear, por baixo dos panos, uma série de atributos, características e habilidades sem suporte empírico e que não foram apresentadas como parte do argumento original.

Portanto, é completamente descabido esperar que o ônus seja do descrente, esperando que ele refute todas as definições possíveis (mesmo as mais triviais ou mesmo as ainda não formuladas) que podem ser atreladas ao nome “deus”, para que, só depois disso, ele possa se dizer ateu. Estas exigências, em geral implícitas na postura de muitos crentes, são ainda mais absurdas quando nos damos conta de que não existem evidências que tornem a existência de qualquer deus, clara, óbvia ou, pelo menos, provável. A menos que se redefina a divindade das formas mais prosaicas e inefetivas possíveis, trivializando a palavra “deus”.

O ateísmo neste sentido amplo é, portanto, uma posição bastante básica, podendo ser vista mesmo como a postura padrão. Pelo menos, para aqueles que não dão o mesmo peso à tradição, e à doutrinação religiosa, que dão às evidências e à razão.

Entretanto, existem também formas mais positivas ou substantivas de descrença. O chamado “Ateísmo forte” é a tese de que deus, ou pelos menos certos deuses particulares como o “Deus” abraâmico, não existe. Esta negação mais contundente também não precisa envolver certeza absoluta, apenas a convicção de que, frente a determinadas características e atributos da divindade em questão, as evidências indicam que nada semelhante ao deus, clamado pelos crédulos, exista.

Nesta hora é comum que críticos repitam o adágio “ausência de evidência” não implica na “evidência de ausência”. No entanto, fica muito difícil defender este lema, quando estamos lidando com um deus que deveria ser particularmente preocupado com os seres humanos, e a natureza, e que, supostamente, deseje o nosso bem maior e que, além disso, não deveria ter uma agenda secreta que o faça preferir se esconder de nós. Por isso, neste caso, a ausência de evidências é sim boa evidência de ausência, mesmo que não seja uma “prova definitiva”. Certas alegações de supostas interferências divinas na história humana, ou na natureza, simplesmente não são facilmente conciliáveis com os resultados da investigação histórica e científica, o que reforça a tese ateísta.

A defesa do ateísmo não depende, portanto, da demonstração lógica (baseada em premissas universalmente compartilhadas) de que deus, ou qualquer outra divindade, não exista. Não podemos nos esquecer que argumentos abdutivos e indutivos são comuns no nosso dia-a-dia, mas também nas ciências e mesmo na filosofia. Eles, portanto, devem estar na base dos nossos juízos epistêmicos e ontológicos.

Além disso, os próprios atributos supostamente divinos, principalmente aqueles enfatizados no teísmo tradicional, como as qualidades do Deus Abraâmico (onisciência, onipotência, onipresença e onibenevolência) podem elas mesmas depor contra a existência de tal entidade. A inconsistência de certos atributos fundamentais, ou a incoerência de conjuntos de atributos (por exemplo onisciência e onipresença) entre si, tornando-os mutuamente incompatíveis, são argumentos muito fortes em prol do ateísmo. Esta linha de argumentação induz o crente a tentar defender a coerência de sua divindade.

O problema é que mesmo sendo possível esta manobra, para tal o crente precisa apelar para uma gigantesca  ginástica retórica, por exemplo, ao cercear, diminuir, qualificar ou simplesmente redefinir, de forma arbitrária, o atributo original questionado. Portanto, na tentativa de defender a coerência de sua divindade, como antes mencionado, os teístas acabam refugiando-se no terreno do meramente possível, deixando para trás uma entidade mutilada, sem nenhuma evidência rigorosa a favor de sua sua existência e, em geral, não mais digna de adoração, ou capaz de responder as duvidas que motivaram sua postulação inicial.

Apesar de não ser uma característica necessária para o ateísmo, é muito comum que os ateus também não acreditem em quaisquer outras entidades sobrenaturais, como anjos, espíritos e santos. Esta posição que envolve a rejeição do sobrenatural é comumente chamada de “Naturalismo”. A maioria dos ateus é, portanto, formada por Naturalistas no sentido filosófico do termo.

Paul Draper define naturalismo como a ideia de que a natureza é um sistema causalmente fechado. Portanto, nada fora natureza pode interferir com ela. Esta posição exclui a causação externa à natureza, ou seja, a causação sobrenatural  é rejeitada. Note que esta tese não precisa ser mantida a priori, como auto-evidente ou demonstrável, mas deixemos este tópico para mais adiante.

No entanto, estas definições ainda deixam à desejar. Richard Carrier propõe resolver esta questão definindo o sobrenaturalismo como a tese de que existe um domínio mental que não pode ser redutível, de nenhuma maneira, a qualquer aspecto, ou entidade, não-mental. De acordo com este versão, espíritos, deuses e fantasmas, se forem entidades sobrenaturais, são basicamente mentes, ou consciências, desencorporadas, não-físicas, não redutivas a nada que não sejam elas próprias. Essa definição tem a vantagem de não relegar, por definição, o sobrenatural ao incompreensível, ou ao inatingível e muito menos ao não testável.

O Naturalismo e o Sobrenaturalismo, assim definidos, são teses metafísicas claras, mas que não nos dizem muito sobre nossas capacidades de reconhecermos de forma segura se uma dada entidade é sobrenatural ou natural, mas  está apenas além das nossas capacidades epistêmicas e cognitivas correntes. Esta segunda questão, ainda que também muito importante, é de caráter epistemológico e deve ser separada das definições metafísicas já discutidas. A questão principal, é que nossas limitações epistemológicas não são exclusivas de nossas tentativas de diferenciar o naturalismo do sobrenaturalismo. Elas são universais, já que só podemos afirmar conhcer com certeza poucas questões, em geral apenas nos domínios da lógica e da matemática, se é que relamente podemos afirmar isso. Por isso precisamos manter uma postura crítica e falibilista constante na busca pelo conhecimento, incluindo aí as questões que envolvem investigar o que existe para além dos nossos sentidos e modelos cognitivos.

A definição de Carrier não é a única proposta que caminha nesta direção. O filósofo britânico David Papineau defende uma linha muito semelhante de argumentação ao advogar sua versão de naturalismo, a qual ele chama de “Naturalismo fisicalista”. Papineau escora sua defesa do Naturalismo na idéia de “completude da física”. Diferente do que possa parecer, Papineau não afirma que a física moderna chegou a sua forma final e que por isso nenhuma outra teoria (como alguma versão das teorias M ou mesmo a teoria da gravidade do laço quântico) possa substituir as teorias físicas contemporâneas. Não, de forma alguma. A “completude da física”, segundo Papineau, é a idéia de que a física não usa (e não precisa de) nenhum elemento, ou descrição, mentalista, e que, além disso, não parece que um dia irá precisar de tal elemento.

O filósofo materialista francês André Comte-Sponville também argumenta de forma semelhante e define o seu Materialismo como uma tese metafísica de combate, uma negação da primazia do espiritual, definido como o puramente mental, sobre o material.

As três teses, o Naturalismo, como definido por Carrier, o Naturalismo fisicalista de Papineau e o materialismo metafísico de Comte-Sponville baseiam-se na negação da irredutibilidade do mental ao não-mental, seja não-mental chamado de físico, material ou apenas natural.

O naturalismo metafísico aqui descrito é defendido como uma tese a posteriori por isso falível, ou seja, ele se propõem a ser uma conclusão baseadas em formas de inferência indutiva ou abdutiva. Isso quer dizer que em princípio é uma posição revisável, portanto mantida de forma conjectural e provisória. Porém, como conclusão o naturalismo tem se mostrado uma postura tremendamente robusta e parece ser uma ponto de convergência de boa parte da investigação científica (ainda que a investigação científica aproxime-se de formas mais metodológicas de naturalismo) e filosófica moderna, mesmo que ainda cause muita polêmica e sofra muita resistência, principalmente oriunda de setores religiosos e conservadores.

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O artigo de J.J.C. Smart pode ser encontrado no link abaixo:

http://stanford.library.usyd.edu.au/entries/atheism-agnosticism/

A definição de Paul Drapper é citada na página inicial da Secular Web:

http://www.infidels.org/

A definição de Carrier pode ser encontrada no artigo abaixo da revista Free Inquiry:

http://www.secularhumanism.org/index.php?section=library&page=carrier_30_3

Um explicação da tese de Carrier sobre o Sobrenaturalismo que vai bem além da discussão da Free Inquiry, repleta de exemplos interessantes, pode ser encontrada a seguir:

http://richardcarrier.blogspot.com/2007/01/defining-supernatural.html

A baixo segue um livro online de David Papeneau defendendo o Naturalismo fisicalista:

http://www.kcl.ac.uk/ip/davidpapineau/Staff/Papineau/PhilNat2nded/PhNatIndexrevised.htm

O verbete de Papineau da Stanford Encyclopedia of Philosophy para o Naturalismo:

http://plato.stanford.edu/entries/naturalism/

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4 Responses to Ateísmo, Naturalismo e Sobrenaturalismo

  1. Maryualê says:

    O que aconteceu com o bom e velho Materialismo? Afinal, como diria a Madonna, “we are living in a material world”.

  2. rodveras says:

    Culpe os filósofos.🙂

  3. Pingback: Religião, espiritualismo e ciência: Uma relação complicada | calmaria&tempestade's Blog

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