Chocolate e Depressão

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No último mês, um interessante, honesto e bem construído estudo epidemiológico analisou a possível correlação entre o consumo de chocolate e a depressão. Dois assuntos que, certamente, me interessam muito. Aliás, sobre os quais tenho alguma experiência e conhecimento de causa. O estudo publicado no periódico médico Archives of Internal Medicine, em abril de 2008,  analisa um “corte instantâneo” (cross-section) de uma população sem problemas cardíacos ou metabólicos conhecidos. Um total de 1018 pessoas, 694 homens e 322 mulheres, com idades variando entre 20 e 85 anos de idade. No estudo foram usados questionários validados específicos para aferir o consumo de chocolate (Statin Study Questionnaire chocolate consumption, SSQ-C, ) e a incidência de alterações de humor associadas a depressão (Center for Epidemiological Studies–Depression Scale, CES-D). Das 1018 pessoas iniciais, 1009 responderam aos dois questionários mencionados e 78 foram excluídos do estudo porque utilizavam-se de fármacos antidepressivos. Portanto, a análise se concentrou nos 931 indivíduos restantes.

Além dos dois questionários, foi utilizado um outro questionário para a aferição do consumo de chocolate e alimentação em geral (Fred Hutchinson Food Frequency Questionnaire , FFQ), o que permitiu controlar o estudo para outros fatores confundidores, como o nível de ingestão de macronutrientes (como gordura ou carboidratos) ou aporte energético. Este último questionário foi respondido por 839 pessoas. As características dos sujeitos na linha de base foram avaliadas para o conjunto de indivíduos nos quais a escala CES-D foi medida, e, pelo menos, uma medida do consumo de chocolate foi incluída. O auto-relato do consumo de chocolate foi avaliado para toda a amostra e estratificado pelo sexo, e os escores divididos em dois limiares, nos valores de 16 e  22, gerando três categorias. As médias para o consumo de chocolate estratificados pelas categorias do CES-D foram comparadas através de testes t não-pareados.

Um teste não paramétrico para tendências foi utilizado para avaliar as categorias resultantes da divisão dos escores da escala CES-D, menor que 16, de 16 a 21, e de 22 em diante.

Como os gráficos mostram, os resultados evidenciam uma correlação positiva significante (ou seja, valores-p < 0.5), entre o consumo de chocolate e a intensidade dos escores para a depressão divididos em categorias. Lembrem-se, o valor-p é a probabilidade de obtermos um resultado como aquele ou ainda mais extremo dado que a hipótese de nulidade -ou seja, nenhuma diferença – seja verdadeira. O valor de p < 0,5 é o ponto de corte (diga-se de passagem um tanto arbitrariamente estabelecido) mínimo, tradicionalmente utilizado, para rejeitarmos a hipótese de que diferenças ou valores como aqueles se deram simplesmente a partir do acaso. O que podemos retirar disso é que as diferenças parecem realmente serem reais, mas como lembra Matt Young (Chocolate linked to depression.), sem medidas da incerteza associadas as próprias escalas, temos que ser cautelosos. Por isso estudos visando replicar estes resultados ainda são bem necessários.

Este estudo, é sempre bom lembrar, não é um estudo longitudinal de coorte (que segue indivíduos por meses ou anos a fio, entrevistando-os e avaliando-os de tempos em tempos) e muito menos um ensaio experimental (onde as condições investigadas são ativamente manipuladas), além disso, as escalas mesmo que validadas ainda dependem do auto-relato dos indivíduos no estudo, o que pode introduzir maiores incertezas. Porém, o mais importante é que, mesmo sendo um delineamento não-experimental,  este é um estudo prospectivo movido por uma hipótese prévia e não um estudo retrospetivo com intensas análises estatísticas pós-fato (data-fishing, onde os dados são virados de pé a cabeça em busca de correlações estatisticamente significativas, aliás, atrás de qualquer correlação significativa). Além disso, muitos cuidados foram tomados para evitar que variáveis confundidoras ou erros sistemáticos ocorressem. Por exemplo, como podemos ver na tabela, foram escrutinados itens extras nos questionários sobre alimentação para controlar para possíveis variáveis que pudessem explicar a correlação no lugar do próprio consumo de chocolate.

Mais um ponto a favor do estudo é que ele é muito honesto. Seus autores deixam muito claro as limitações do estudo, as dificuldades do tipo de delineamento utilizado e a impossibilidade de, a partir dele, se inferir causalidade. Além disso tudo, afirmam a necessidade de estudos posteriores para verificar o que estaria por trás desses resultados. Os autores frisam, inclusive, que seus resultados são compatíveis com pelo menos cinco hipóteses de relação causal:

  1. A depressão poderia estimular o desejo (“fissura”) por chocolate, como uma forma de “auto-tratamento”, caso o chocolate realmente cause benefícios no humor, como alguns estudos em animais sugerem.

  2. A depressão poderia estimular a “fissura” por chocolate por motivos não relacionados, portanto, sem nenhum benefício terapêutico. Aliás, como lembram os autores, caso haja realmente algum tipo de benefício ele não apareceu na amostra estudada.

  3. A relação de causação contrária não pode ser excluída a partir deste tipo de delineamento, por isso o chocolate poderia ser a causa da depressão nestas pessoas.

  4. Uma causa comum fisiológica poderia estar por trás do aumento concomitante tanto do consumo de chocolate como da depressão, pelo menos, como medida pelas escalas do questionário.

  5. Por fim, algum tipo de relação (ou interação) causal muito mais complicada poderia estar acontecendo – inclusive efeitos semelhantes aos do consumo de álcool, isto é, com efeitos positivos de curto prazo e/ou em baixas quantidades e efeitos maléficos à longo prazo e/ou quando consumido em altas quantidades.

Estudos mais rigorosos e com delineamentos que permitam uma melhor investigação das relações de causalidade devem se seguir a este trabalho, talvez mesmo, avaliando a concentração de certas substâncias presentes no chocolate ou investigando se existem diferenças entre o consumo de chocolate de verdade (com auto teor de cacau) e o chocolate ao leite. No entanto, um dos resultados (que avalia o consumo de café e não acha diferenças significativas nas diferentes categorias) sugere que metilxantinas como a teobromina, principal alcalóide presente no chocolate, não devem ser as responsáveis pelo suposto efeito do chocolate em pessoas com depressão. Outros estudos já tinham sugerido que as teobrominas não poderiam ser as responsáveis pela ação do chocolate sobre o humor pois, além da baixa concentração, estas moléculas têm baixíssima atividade sobre o sistema nervoso central. Porém, novas pesquisas podem mudar esta idéia.

Ainda vamos precisar de mais tempo para saber se existe mesmo uma relação de causa e efeito entre o consumo de chocolate e a depressão, mas até lá, sejá qual for o resultado futuro destas pesquisas, ainda pretendo continuar comendo chocolates. Aliás, tem um pedacinho me aguardando lá em baixo, 85% de cacau, junto com um bom café feito na minha cafeteira moka.

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  • Rose, N., Koperski, S., & Golomb, B. (2010). Mood Food: Chocolate and Depressive Symptoms in a Cross-sectional Analysis Archives of Internal Medicine, 170 (8), 699-703 DOI: 10.1001/archinternmed.2010.78

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