A terrível madrugada de sexta à noite, na realidade sábado.

São três horas e trinta e três minutos da madrugada de sábado, e acabei de ouvir o galo cantar. Os gatos continuam quietos, provavelmente dormindo, o mesmo que eu deveria estar fazendo, mas simplesmente não consigo. As madrugadas sempre foram estranhas para mim. Criança, ainda morando no Rio, ficava olhando para as sombras nas paredes durante horas, morto de medo de “ver” alguma coisa. Às vezes olhava pela janela e imaginava como seria ver figuras assustadoras, típicas dos filmes de terror que passavam à noite na TV. Por causa disso durante muito tempo evitei a maioria dos filmes de terror. Isso durou até quase minha adolescência. Lembro de uma tia comentando que não assistia filmes de terror por que depois, à noitinha, ela revia tudo de novo,  “passando” na janela . Provavelmente foi daí que tirei a idéia de imaginar como seria ver criaturas terríveis pela janela. Na época, meu maior medo eram os filmes de vampiros.

Os filmes da Hammer, àqueles com Christopher Lee e Peter Cushing, eram os que eu mais temia. Anos depois, me diverti muito vendo estes mesmos filmes. A grande maioria com roteiros fracos, cenários simples e atuações nem sempre inspiradas, de atores que, em outros papéis, eram excelentes. Estes filmes, apesar de tudo, tinham uma atmosfera difícil de achar em filmes mais modernos de terror. Algo de que até hoje sinto falta.

Eu me recordo bem de assistir as chamadas na TV, querer muito assistir o filme, mas não ter coragem de fazê-lo. Perdi muitos filmes bons assim, em uma época em que eu teria me assustado e, quem sabe, aproveitado muito mais estas ocasiões. Às vezes, eu vencia o meu medo, e até uma eventual falha na minha insônia (Acho que isto era o pior, perder um filme por causa de sono), e conseguia assistir àlgum filme de terror inteiro. Sempre debaixo do cobertor,  com as mãos com os dedos entreabertos, cobrindo parcialmente os olhos. Em geral, fazia isso quando algum primo ou prima dormia lá em casa, mas depois, quando já era um pouco mais velho, comecei a fazer isso sozinho. Eu protegia o pescoço, sempre. Este sempre foi meu ponto fraco. Não se podia dar bobeira com grandes veias.

Admito que, uma ou duas vezes, não resisti e fui estrategicamente buscar um espaço na cama de meu irmão mais velho. Ele não gostava muito disso, mesmo por que devia saber que não cosneguiria me proteger. Ele dormia bem perto, na cama de baixo do beliche, mas mesmo assim a expectativa “da chegada” da criatura do filme, ou de algo pior, fazia esta distância grande demais para eu arriscar. A idéia era eu dormir em um cantinho perto do pé da cama dele, escorado na parede. Aí se algo aparecesse, atacaria ele primeiro, antes de mim e eu teria tempo de fugir.

O pior é que eu nunca acreditei muito nisso. Eu tinha já consciência do que eram mitos e lendas e sabia que vampiros eram invenções da cultura humanas e, mesmo que existissem, segundo a maioria dos filmes e livros, viveriam, em sua maior parte, na Europa oriental e dificilmente iriam atacar um garoto de 9 ou 10 anos, morando em um subúrbio do Rio de Janeiro, emplenos anos 80. Vampiros nos trópicos não parecia ser algo digno de temor. Assaltantes eram uma preocupação bem mais realista. Mas não adiantava,  à noite , a minha razão sucumbia a este tipo de medo irracional. Porém, não era sempre assim. Meus medos eram mais palpáveis e mais certos. De fato, estas situações de pavor e expectiva de uma visita noturna aconteceram poucas vezes. A minha principal fonte de ansiedade e temor não eram as criaturas monstruosas em si. O meu medo real eram os pesadelos.

Filmes, livros e histórias contadas por amigos e primos, durante o dia, eram um alimento muito poderoso para a minha imaginação onírica. Os meus maiores apavoros, portanto, surgiam da expectativa de ter pesadelos ou mesmo sonhos angustiantes. Na época, os pesadelos eram incrivelmente freqüentes. Pior do que eles só as paralisias do sono, um tipo de parassonia muito esquisita em você desperta, apenas parcialmente. Porém vc não consegue se mover. O mais angustiante desta situação era não conseguir inspirar fundo.O meu corpo continuava com um ritmo respiratório lento e suave, típico do sono, que muitas vezes parecia ser suave demais. Nestas situações, tinha a nítida sensação de que, se não me levantasse e respira-se fundo logo, eu não acordaria mais. Algumas pessoas podem sentir um peso no peito e uma sensação de uma “presença”. Eu nunca tive este problema, minha luta era só com o meu corpo.

Este fenômeno era agravado quando eu dormia de bruços por cima das minhas mãos.  Frequentemente isto acabava refletindo nos meus sonhos. Eu passava, então, a sonhar que estava com uma (ou as duas) das mãos deformadas ou imóveis. Minha noite “perfeita” envolvia pesadelos, seguidos de falsos despertares, em outros pesadelos, conjugados com dormir em cima de pelo menos uma das mãos. Para fechar com chave de ouro, a paralisia do sono. Meu despertar final, vinha depois de uma intensa luta com meus músculos para retomar o controle e conseguir me erguer e tragar o ar. Eram assim minhas piores jornadas nas madrugadas

Neste período, eu ainda mantinha certos vícios cognitivos e comportamentais: Eu rezava. Rezava às vezes 20 ou 30 vezes antes de dormir. Rezava para não sonhar. Os pesadelos me assustavam tanto que, em minhas preces, pedia para que eu não tivesse nenhum tipo de sonho, só por garantia. Vai que um sonho prazeroso transformasse-se em um pseadelo. Com o tempo as preces passaram a ser reforçadas por de sinais da cruz que, por sua vez, tinham que ser feitos sempre em números de vezes pares, isto sempre às dezenas. Hoje, entendo que estes comportamentos refletiam uma personalidade um tanto compulsiva. De fato, gastei muitas madrugadas com estas ações. O pior é que mesmo neste período, minha fé já era bem abalada. Eu rezava simplesmente por via das dúvidas, e olha que eu nem tinha ouvido falar da “aposta de Pascal”.

Ao mesmo tempo, a idéia de uma entidade sobrenatural traçando todos os meus movimentos e escarafunchando os meus pensamentos, além de parecer muito intrusiva, passou a ser cada vez menos atraente.  Fazia cada vez menos sentido. As minhas reflexões e dúvidas já me faziam achar muito improvável, ou, pelo menos, difícil de imaginar, algo como um Deus.

Aos poucos fui me libertando destes comportamentos e dos meus medos. Passei, então, a quebrar deliberadamente essas “regras” e superstições. Fortaleci a minha descrença e o peso das madrugadas começou a diminuir.

Durante esta fase, passei por um rápido período em que me voltei para o exoterismo e ufologia, passando a assistir o programa da bandeirantes, “Terceira visão”, apresentado pelo “médium” Luiz Gasparetto, assiduamente. Foi este mesmo programa que deu o golpe final em qualquer fé em Deus ou crença no sobrenatural que eu ainda pudesse ter.

 

As inconsistências nas histórias ali narradas, o puro espetáculo que eram as intervenções cirurgias supostamente mediúnicas e as desculpas dadas quando as coisas não aconteciam como esperado, me transformaram em um cético. O mais engraçado é que o fato que mais me espantavam era como as mensagens e as doutrinas ali discutidas eram prosaicas, espelhando os preconceitos e a ignorância dos “veículos”. As narrativas “racionais” que supostamente “juntavam os fios” de uma complexa trama pós-vida e explicavam tudo, me pereciam histórias sem imaginação, ou simples racionalizações a posteriori. Elas nunca me impressionaram. Nesta época, eu era já um apaixonado por história natural, fã incondicional de documentários e livros sobre a vida animal e evolução humana. Tinha também já sido encantado pela série Cosmos, de Carl Sagan, e, na escola, já tinha descoberto que era a biologia, a disciplina que eu mais adorava. Nesta época, já com 13 para 14 anos, deixei de lado as desculpas e o medo, e passei a me assumir como Ateu.

Anos antes um colega já havia se declarado Ateu na minha frente. Nós deveríamos ter por volta de 11 anos. Anos mais tarde, outro, e aí eu já tinha 13, falou isso na minha frente, ao ser convidado, por um professor de religião, para uma missa católica que acontecia durante uma passeio de escola. O professor pareceu muito ofendido com àquela revelação. Quando meu primeiro coleguinha disse que era ateu, lembro de ter dito para ele que achava aquilo absurdo, mas já na época senti admiração e simpatia pela coragem dele. O segundo colega, já durante meu período de aceitação da minha condição de ateu, quando disse que era Ateu teve um impacto diferente em mim. Ele me fez sentir vergonha porque eu não tive a coragem de dizer o mesmo e me ausentar daquela missa. Aquela foi minha última missa. Alguns meses depois, eu passei a dizer sempre que era interpelado sobre a minha religião, que não tinha nenhuma e eu era Ateu .

Estudar em colégio de padres em uma turma na qual muitos colegas eram espíritas, talvez tenha sido o empurrão que  faltava para eu assumir para mim mesmo, de uma vez por todas, que eu não acreditava em Deus. Eu me sentia muito estranho naquele meio: Padres católicos vs alunos espíritas. A gota d’água foi quando, em uma aula de religião, com um palestrante convidado (um padre), começou uma discussão sobre reencarnação, com alguns dos piores argumentos que já ouvi. O ponto crucial que me marcou, do qual até hoje não consigo esquecer, foi quando um colega, ao atacar a posição católica, argumentou que se não fosse a reencarnação o céu precisaria de uma fábrica de almas. Não lembro a resposta do padre, mas não foi uma pérola teológica. O nível argumentativo era muito ruim de ambos os lados. Aquele foi meu ponto de não retorno. Ali vi que aquilo não era para mim. Claro, desde então, ouvi (e li) argumentos teológicos mais bem elaborados, tanto por cristãos como por espíritas. Alguns até bem eruditos, mas quando examinados mais a fundo, percebe-se que não são tão melhores que os argumentos que ouvi na minha sala de aula, lá no meu segundo grau.

Fato curioso é que algumas fontes inusitadas me ajudaram nesta fase e reforçaram minhas posições. Primeiro foi o meu interesse pelo budismo, sobretudo o zen-budismo. Segundo, foram as histórias que meu pai me contava sobre um “anti-guru” indiano chamado Jiddu Krishnamurti. Meu pai, nestes tempos, estava em uma fase mais “espiritualizada” e lia muitos livros deste tal de Krishnamurti. Felizmente, as idéias dele eram bem diferentes das de muitos gurus. Sua história, diz muito sobre a personalidade e seu caráter. Krishnamurti, ainda menino subnutrido e cheio de piolhos, foi descoberto por um ocultista britânico famoso que estava na India no começo do século XX. A partir daí passou a ser criado para ser um “grande professor espiritual” por membros da sociedade teosófica, mas quando era um jovem adulto, rompeu com todo o secto de fiéis ao seu redor, devol

 

veu propriedades e presentes, e desautorizou qualquer um de segui-lo como um líder espiritual. Esta atitude e uma certa aversão a religião organizada e autoridade me ajudaram a perceber como pensar por si é importante.

Em pouco tempo passei a me assumir como Ateu, aceitar meus medos como naturais e meus pesadelos como inerentes a minha estrutura cognitiva, e incapazes de me ferir. Pelos menos, salvo as vezes que caía da cama por causa deles.

Mas mesmo hoje, dormir é algo complicado para mim. Meu sono é irregular, tenho ainda, com uma certa freqüência, as mesmas paralisias de sono, além dos pesadelos ainda serem relativamente comuns. Porém os temas mudaram, agora sonho mais com zumbis do que com vampiros, provavelmente por causa dos filmes de George Romero; além de criaturas alienígenas capazes de assumir a forma humana, como os alienígenas dos filmes “Invasores de corpos” e “Enigma de outro mundo“.

Entretanto, meus piores pesadelos são os em que grito e brigo com conhecidos e, principalmente, entes queridos. Pode parecer estranho mas me assusto com a raiva que manifesto nestes sonhos, com a altura em que sou capaz de gritar e com minha incapacidade de me controlar. Algumas vezes percebo que estou sonhando e aproveito para extravasar, brigo e grito, até que com um certo prazer, devo admitir, principalmente quando meus antagonistas são amálgamas de amigos e parentes, e agem com uma petulância e um desrespeito que jamais vi suas contrapartidas reais demonstrarem. No final, o medo volta. Não o medo de ter um pesadelo, mas o medo de estar acordado. Nestas horas, sempre acordo suando frio, pois o monstro sou eu.

Boa manhã!!

About rodveras

I'm a biologist and science writer who loves philosophy and sciences.
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2 Responses to A terrível madrugada de sexta à noite, na realidade sábado.

  1. Maryualê says:

    Se os adultos soubessem como a educação religiosa pode ser prejudicial às crianças… Infelizmente nem todos tem a sorte de ter uma criação laica. Pensando bem, uma criação verdadeiramente laica é quase uma impossibilidade, em uma sociedade em que as pessoas simplesmente assumem que todo o mundo “precisa” acreditar em alguma divindade. As crianças precisam sentir-se muito seguras de si para se desvencilhar dessas pressões, uma pena que muitas não encontram o estímulo ao livre-pensamento nem dos próprios pais.

  2. rodveras says:

    Só nos resta esperar que os danos não sejam muito terríveis e, pelo menos, parcialmente reversíveis.

    No meu caso que não tive uma educação rigorosamente religiosa. Fui batizado, mas nunca fui crismado ou tive que fazer comunhão. Fui à missas poucas vezes e só participava de rituais muito raramente, como as “sessões espíritas” na casa do meu tio que recebia um “vovô”. Não culpo meus pais, mesmo porque a exposição era bem pequena e basicamente respeitava um certa necessidade de convívio em família, mas mesmo essa exposição pode deixar marcas. Eles foram muito mais expostos e mesmo sem romper totalmente com a tradição, pareceram intensionalmente afastar a mim e meu irmão o máximo que puderam deste ambiente.

    No meu caso, acho que minhas marcas não vieram deste contato com rituais, mas sim com essa convicção geral de que existe um mundo extra, diferente que parece só estar esperando para pular atrás de vc e fazer, BÚ!! Crianças falam, partilham de seus medos e adoram

    O pior é que as tentativas dos adultos de dar coerência a este mundo e explicar porque não deveríamos sentir medo dele, nunca é muito eficiente. “Vampiros não existem, mas espíritos desencarnados sim.” “Eles só querem conversar…” (Porra, e preicisavam dar sustos. Não poderiam avisar antes, por carta, fax, etc.) 🙂 Qual o limite para o poder sobrenatural, afinal? Por que demônios e vampiros não seriam possíveis? “Não, Deus não permitiria.” Claro, Deus só permite furacões, mal formações fetais, doenças degenerativas, síndromes hereditárias, etc Sempre achei isso uma piada. Crianças são criaturas imaginativas e experimentam as coisas, inclusive a angustiante expectativa, vividamente. Hoje, acho que demograficamente, tive foi sorte de nascer em uma família que tivesse a religião como algo bem secundário.

    Felizmente, meus pais deixavam bem claro que era dos criminosos é de quem eu deveria ter medo, o resto era besteira (mesmo que existissem :)). Foi melhor do que nada.🙂

    Nossos gatos não vão ter estes problemas. Afinal damos uma criação bem laica para eles, não damos?

    Muito obrigado por comentar. Por enquanto (ou quem sabe “para sempre”) só nós dois que usamos este blog.🙂 Isso é tão divertido e pioneiro, não?

    Até,

    Rodrigo

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