Alucinações vestíbulo-motoras e experiência-fora-do-corpo

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Em post anterior, abordei um fenômeno conhecido com paralisia do sono (SP, sleep paralysis), um tipo de parassonia. Na SP o indivíduo afetado acorda durante o estágio REM do sono, porém continuando com a atonia muscular característica deste estágio, desta forma permanece incapaz de se mexer. Durante esta situação o indivíduo pode sentir uma “presença” assustadora e uma sensação de ameaça iminente, além de “aperto” no peito, dificuldade respiratória, e eventualmente, alucinações visuais e auditivas, como o barulho de arrastar de passos ou zumbidos e tinidos também são reportados em alguns casos.

Muitos pesquisadores, em função das nítidas semelhanças entre este fenômeno e certas superstições populares, sugeriram que a paralisia de sono, e as experiencias associadas a ela, estariam na base de muitos dos relatos de abdução por alienígenas; bem como, no passado ou em culturas diferentes, na origem dos relatos de encontros com criaturas (ou manifestações) sobrenaturais como incubus/succubus, vampiros etc.

Porém, talvez o mais interessante é que, além destas experiências, não é raro que certas pessoas sujeitas a SP experimentem aquilo que se convencionou chamar de “experiencia-fora-do-corpo”, no inglês out-of-body experience (OBE)

Esta experiência, diferentemente das anteriores, não é necessariamente assustadora,. Na realidade, nossa sociedade, é explorada e intensamente buscada por muitas pessoas de inclinação mais mística que às vezes a chamam de “projeção astral”.

Para muitos, esta experiência é uma das provas mais claras e “palpáveis” para a independência entre o corpo e a mente, tida, neste caso, como uma alma imaterial.

Esta concepção é bastante difundida, sendo mesmo assumida tacitamente por um grande número de pessoas, constituindo-se em uma crença fundamental de boa parte das religiões. Por isso, não é estranho que muitas pessoas tomem estas experiencias como evidências definitivas da tese dualista. Entretanto, tais experiências parecem revelar algo um tanto diferente do dualismo cartesiano, no qual a mente é uma substância puramente lógica, não extensa, completamente diferente do corpo e da matéria, de forma geral. Nesta versão mais popular, que pode ser chamada de “tomista“, a mente, ou alma, tem vários dos atributos físicos do corpo, como extensão e autonomia sensorial e motora (e muitos outros que o corpo não possui). Tudo isso encaixa-se (pelo menos de  forma superficial, é claro) com as sensações associadas as OBEs, como as OBFs (sensação de estar fora do corpo, “Out-of-body feeling”) e as OBAs (sensação de ver o próprio corpo, “Out-of-body-autoscopy”).

Por outro lado, o conhecimento cada vez mais detalhado da estrutura e dinâmica do sistema nervoso – provenientes das diversas disciplinas das neurociências, sobretudo os advindo da investigação da indução experimental (e a ocorrência patológica destes fenômenos em pacientes com traumas neurológicos em certas áreas do cérebro) de experiencias muito semelhantes – sugere uma explicação muito mais parcimoniosa, detalhada e coerente com o resto das ciências.

Muitas investigações nas neurociências e psicologia envolvem fenômenos como a paralisia do sono, membros fantasmas e outros tipos de experiencias autoscópicas (em que o individuo vê a si próprio) diferentes da OBEs, como o doppelgänger, nas quais, “duplos” (cópias) da própria pessoa são vistas e experimentadas como um “outro”; e experiencias heautoscópicas, onde a experiencia de um “duplo” é muito mais ambígua, já que nesta situação é freqüente a troca (ou incerteza) de perspectiva pessoal. Isto é, a pessoa não sabe se ela é ela mesma ou o outro.

Todos estes fenômenos parecem estar estreitamente relacionadas à “experiências motoras ilusórias”, IMEs (“Illusory motor experience”). Sensações como a de separação corporal, flutuação, vôo, giro (no ar), etc estariam na base destes fenômenos “extra-corpóreos”.

Cheyne e Grirad teorizam que informações interoceptivas falsas ou conflitantes sobre a posição, atitude e movimento do corpo (ou de partes do corpo) seriam a causa destas experiências. Mais especificamente as OBFs e OBAs surgiriam como conseqüências de sensações vestíbulo-motoras salientes em conflito com informações somato-sensoriais, ou com outras fontes de informação, ou, até mesmo, devido ausência destas informações. Estudos de neuro-imagem corroboram esta idéia. Por exemplo, no sono REM, quando acontecem muitas das experiencias vestíbulo-motoras associadas a paralisia do sono, ocorre a ativação de regiões cerebrais há muito relacionadas com esquemas corporais e função vestibular, como os córtices pré-frontal e parietal.

Estes dados e idéias parecem se encaixar muito bem com um modelo neurobiológico para a origem e integração do “eu” (self) corporal que, por sua vez, poderia estar na base do própria fenomenologia da cosnciência.

O corpo é sentido como uma unidade coesa, um ponto central de perspectiva das nossas diversas experiencias; uma entidade com qualidades diferentes em ocasiões diferentes, mas que parece exibir uma certa continuidade. Para explicar este fenômeno e sua relação com a experiência de dor, Melzack propôs a existência a teoria da neuromatriz. Isto é, uma rede amplamente distribuída de neurônios consistindo laços de reentrada entre o tálamo e o córtex, assim como entre este último e o sistema límbico, cuja organização fundamental seria resultado da arquitetura genética do individuo, entretanto, mais tarde, também sendo esculpida pelos inputs sensoriais. Esta rede produziria um padrão particular de atividade recorrente, altamente dinâmico, chamada de neuroassinatura. Então, para Melzack a extensa rede formada pela neuromatriz produziria a neuroassinatura que responderia por este “eu-corpóreo” unificado.

Em íntima analogia a sensação de membros fantasmas em indivíduos amputados (que também faz parte do escopo explanatório inicial da teoria de Melzack), Cheyne e Girard sugerem que as OBEs são causadas por uma falha na integração das experiencias táctis, proprioceptivas, vestibulares, motoras e visuais do “eu-corpóreo”, muito provavelmente envolvendo regiões relevantes dos córtices frontal, parietal e temporal. De modo geral, os autores deste artigo defendem que as OBEs representem uma falha na neuroassinatura, ou seja, no padrão específico de atividade da neuromatriz que sinaliza que o corpo está intacto.

Cheyne e Girard em seu artigo publicado na revista Cortex em 2009, utilizam duas amostras de pessoas que experimentaram OBEs, e outras experiencias associadas a paralisia do sono, para tentar entender melhor os componentes vestíbulo-motores por trás das OBEs.

A primeira amostra, com mais de 11000 pessoas (depois de extensamente purgada de dados repetidos e outras fontes de redundância e erro sistemático ) constitui-se em um grande survey pela internet (Waterloo Unusual Sleep Experiences Questionnaire) de mais de 10 anos e a outra uma amostra menor, mas desta vez prospectiva, tomadas a partir de experiencias únicas feita para validar a amostra maior.

Os autores empregaram um vasta gama de métodos estatísticos e analíticos como regressão múltipla, análise de caminhos por modelagem de equação estrutural (SEM), além de uma série de métodos de escolha de modelos, como AIC (AIC) e BIC (BIC) para determinar a plausibilidade relativa de várias hipóteses alternativas para explicar as supostas relações entre os diversos fenômenos, como IME, OBF, OBA e OBE, propriamente ditas, e suas possíveis relações causais. A segunda, é formada por uma amostra bem menor, porém, prospectiva, e mais cuidadosa na qual os respondentes relatam casos únicos de SPs e OBEs.

A hipótese principal é a de que o aumento na intensidade das IMEs leva a sensação de OBF, resultando na sensação de separação corporal (desincorporação), criando as condições para a corroboração visual, OBA. Assim as OBFs mediariam a relação entre as IMEs e as OBAs.

A primeira parte desta hipótese é consistente com vários estudos de indução experimental destas experiências, com estimulações menos intensas provocando IMEs e as mais intensas, OBEs. Este modelo é compatível também com o argumento conceitual e neurológico de que as OBEs envolvem ativação de componentes vestibulares e proprioceptivos, bem como com a alegação, de certos autores, de que as sensações de despersonalização não visuais são estados de transição para os fenômenos autoscópicos.

Os resultados corroboraram a hipótese principal (hipótese 1). Como esperado tanto as OBFs como as OBEs estavam positivamente associadas com todas as diversas variáveis de IMEs. Análises subseqüentes buscaram detalhar estas relações e foram repetidas nas duas amostras, revelando resultados semelhantes.

A análise de caminhos SEM (“SEM path analysis”) para as diversas hipóteses revelou que a hipótese 1(IMEs → OBFs → OBAs ), com as IMEs como variável latente, era a de melhor ajuste, além de ser o único modelo bem ajustado quando os autores utilizaram critérios heurísticos mais recomendados. Este tipo de procedimento estatístico é uma forma de regressão múltipla que visa investigar as co-relações entre variáveis e destrinchar suas relações de dependência, estabelecendo a direcionalidade da causação.

 

Além do fato dos dados serem consistentes com a hipótese principal, de acordo com as análises de regressão e SEM, existem alguns indícios de que alucinações motoras podem ser também um componente direto das OBAs. Assim uma alteração do modelo principal com a colocação de um elo direcional entre este componente e as OBAs, pode melhorar ainda mais o ajuste do modelo. O trabalho também denota a centralidade da sensação de flutuação e mostra claramente que as OBEs não necessitam da experiencia autoscópica esta sendo relatada em apenas entre 1/2 e 2/3 das vezes pelos indivíduos experienciando OBFs.

As principais hipóteses para a base neurofisiológica de OBEs relacionadas a SP, elencadas pelos grupos de Blanke e do próprio Cheyne, envolvem uma participação especial do córtex parietal, principalmente a junção temporo-parietal (TPJ). Esta hipótese é fortemente respaldada pelas evidências experimentalmente induzias de IMEs e OBEs. Já o caso para alterações vestíbulo-motoras nos fenômenos relacionados a SP é mais indireto. Entretanto, como a SP e as experiências associadas a ela são fenômenos REM muito bem estabelecidos, podemos estar confiantes do envolvmento de centros pontinos vestibulares, intimamente associados aos centros REM on-off dos núcleos da rafe, lócus cerúleos e os tegmentos laterodorsal e pedúnculo pontinos. Coerente com estes dados, o fato de que lesões nas regiões parietais, temporais e ocipitais estão associadas com a cessação dos sonhos. Reforçando esta idéia, estudos de tomografia por emissão de positróns (PET) evidenciam diminuição no fluxo sanguíneo na maior parte das regiões parietais durante o sono REM. Outros  estudos mostram que, a despeito de uma desativação generalizada cerebral durante o sono REM, o vermis cerebelar, uma parte importante do sistema vestibular, é seletivamente ativada. Por tanto, é possível que uma hipoativação de áreas vestibulares corticais durante a SP possam conflitar com uma superativação desta áreas vestibulares subcorticais, além de informações  sensoriais conflitantes de outras fontes.

O esquema abaixo sintetiza algumas das hipóteses levantadas no artigo de Cheyne e Girard.

A existência de certas semelhanças entre as OBEs e as NDE, as “experiências de quase morte” (Near-death experiences), são enfatizadas pelos autores. Parte das pessoas que experimentam NDEs também relatam OBEs como parte desta experiência.  Além disso, características como imobilidade, consciência das redondezas, sensação de presença (eventualmente ameaçadora) podem ocorrer também nas NDEs mesmo sem a presença de OBEs, sugerindo que sejam fenômenos com origens semelhantes. Mais recentemente a relação entre NDEs e intrusões REM (como a paralisia do sono e alucinações hipnagógicas e hipnopômpicas) tem sido investigadas mais a fundo. Alguns autores predisseram e confirmaram que um número significante de pessoas que relatam NDEs também relatam intrusões REM e alucinações hipnagógicas e hipnopômpicas associadas. Este fato levaram a especulações de que alterações neurológicas nos sistemas de vigília em certas pessoas, as predisporiam tanto à NDEs quanto à intrusões REM. Porém esta ligação ainda precisa ser melhor investigada.

Para sumarizar, de acordo com o modelo proposto por Cheyne e Girard, perturbações da neuromatriz podem afetar o processamento de uma série de sensações corporais, envolvendo os sistemas vestibular, motor e proprioceptivos. Esta perturbação pode produzir diretamente as experiências corporais anômalas, bem como contribuir para a ruptura da neuroassinatura, especialmente quando a integração central é comprometida. Para os autores, OBEs experimentadas como OBFs e OBAs seriam os produtos fenomenológicos experienciais mais extremos deste tipo de perturbação.

O artigo também trás uma discussão sobre as semelhanças e diferenças das OBEs e outro fenômeno associado a PS, a “sensação de presença”.

As limitações das amostras utilizadas neste estudo e dos métodos de análise também são discutidas pelos autores. Como já mencionado, este estudo é baseado em questionários e escalas preenchidas pelos próprios respondentes, disponíveis em páginas da internet, envolvendo extensas análises de regressão múltipla, modelagem e avaliação de possíveis relações causal. Ele não é um estudo experimental, no qual as variáveis são ativamente controladas e manipuladas. Entretanto, mesmo assim, oferece dados muito interessantes, além de interpretações bastante plausíveis que merecem toda a atenção da comunidade científica, mostrando uma forma sistemática e rigorosa de investigar um tema bastante complicado e envolto em mistério.

Estamos só começando a desvendar os mistérios do nosso cérebro e da realidade experiencial que ele pode gerar. Este estudo segue este caminho, investigando de forma científica e minuciosa estas experiências desconcertantes, propondo explicações naturalísticas bem embasadas nas neurociências e na análise de um grande conjunto de dados empíricos. Apesar de ainda pouco específicas, hipóteses como esta podem guiar estudos posteriores que, por sua vez, possam ser testadas de forma mais direta, permitindo um detalhamento cada vez maior destas investigações, lançando mais luz nas  alterações neurológicas envolvidas nestes fenômenos. Quem sabe nos ajudando a compreendermos cada vez melhor a experiência humana e os intrincados processos neurais responsáveis por ela.

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  • CHEYNE, J., & GIRARD, T. (2009). The body unbound: Vestibular–motor hallucinations and out-of-body experiences Cortex, 45 (2), 201-215 DOI: 10.1016/j.cortex.2007.05.002

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