Curar o envelhecimento?

Aubrey de Grey é um cientista pitoresco, além da vasta cabeleira e da longa barba (de dar inveja a qualquer um), ele tem uma agenda científica bastante peculiar. Seu objetivo é curar o envelhecimento. Nada menos do que isso. Para de Grey envelhecer é uma doença é deve se combatido como tal, usando-se da medicina e da biologia moderna. 

Com formação na área de ciência da computação, até 2006, de Grey era o responsável pela Fly Base, uma conhecida base de dados genéticos da mosca Drosophyla melanogaster, uma das mais conhecidas espécies de organismo-modelo. Porém, sua real área de interesse é a biogerontologia, ou gerontologia biomédica, cuja sua iniciação neste campo  deu-se de forma inusitada, ao escrever um livro esboçando uma teoria sobre envelhecimento a partir dos danos moleculares que afetavam as mitocôndrias. Este livro lhe rendeu um título de doutorado, com dispensa da necessidade de cumprir créditos de disciplinas, pela prestigiosa universidade de Cambridge.

Além do acumulo de danos oxidativos que resultam em disfunção nas mitocôndrias e senescência, de Grey vê o envelhecimento como um subproduto da acumulação de uma série de outros danos moleculares e celulares, além do esgotamento imunológico.

Isto é, o envelhecimento é um complexo processo sistêmico que só pode ser combatido através de intervenções bem focadas e  específicas em vários níveis da organização biológica. Só através da medicina regenerativa é que estes danos podem ser prevenidos e revertidos. Porém, além dos caminhos de pesquisa mais tradicionais (como terapia gênica e utilização de células tronco) as estratégias investigadas (e patrocinadas pela iniciativa SENS e a Methuselah foundation) envolvem outras abordagens oriundas de áreas bastante diversas da pesquisa biológica básica e aplicada, como a biorremediação, por exemplo.


O que acontece é que, com o envelhecimento, danos as estruturas celulares e moleculares tendem a se acumular, comprometendo gradativamente o funcionamento e a saúde humana. A abordagem SENS (do inglês,
strategies for engenineered negligible senescence) encara as doenças e disfunções associadas ao envelhecimento de uma perspectiva de  ‘engenharia’. Ao invés de interferir diretamente com os processos metabólicos responsáveis pelos danos ou esperar até que seja tarde demais para reverter os danos da idade, recorrendo apenas aos paliativos das geriatria/gerontologia, a SENS tem como alvo os danos em si, tentando minimizá-los e revertê-los, buscando mantê-los a baixo do limiar crítico a partir do qual eles causam problemas.

Estas soluções vão das mais óbvias às mais engenhosas e, aparentemente, absurdas. As duas que me chamam mais atenção são (1) a incorporação de enzimas bacteriana ao nosso genoma (ou outra forma de incorporação deste tipo de proteína) para a destruição de compostos intracelulares que nós, seres humanos, não somos capazes de metabolizar; e (2) a transferência dos 13 genes mitocondriais para o genoma nuclear, continuando uma tendência evolutiva, utilizando-se de domínios proteicos de inteínas (proteínas capaz de se ‘excisarem’, como fazem certos introns), criando um sistema artificial de transferência proteica do núcleo para as mitocôndrias, já que estes genes não seriam mais sintetizados dentro da organela e sim no citosol, portanto, sendo necessário exportar as proteínas por eles codificadas.

Estas soluções contrastam drasticamente com as abordagens tradicionais da medicina geriátrica, como o tratamento convencional de doenças degenerativas, relacionadas ao avanço da idade, e mesmo com as abordagens dos biólogos e biomédicos da área de gerontologia, que buscam elucidar os mecanismos moleculares e hereditários por trás do envelhecimento, além do seus determinantes populacionais e evolutivos.

Para de Grey, a abordagem geriátrica não funciona por que começa muito tarde na cadeia causal. A outra abordagem, que parece mais promissora, infelizmente, demanda um nível de conhecimento que estamos longe de obter e não seria, desta maneira, realista como estratégia aplicada. A SENS ficaria no meio do caminho, agindo onde existe bastante consenso científico, além de metodologias e estratégias experimentalmente factíveis, mesmo que pulverizadas entre muitas áreas com pouco contato e empregadas em organismos modelo e situações bem distintas.

Veja uma apresentação de de Grey e aprecia o misto de genialidade, ciência e loucura:

Porém, um aspecto que me chama a atenção nas idaias de de Grey, é o conceito de “velocidade de escape do envelhecimento”. Como ele não advoga que precisemos conhecer a fundo os detalhes metabólicos e genéticos por trás dos danos celulares e moleculares progressivos acumulados durante o processo de envelhecimento, podemos elaborar estratégias que apenas nos deem mais tempo. Não precisamos resolver tudo de uma só vez. Vamos remendando-nos na medida do possível, apenas o suficiente, até que novas descobertas e tecnologias permitam resolver os problemas pendentes. Assim, um ganho de 25 anos, pode ser suficiente para sobrevivermos até a nova terapia regenerativa que pode nos dar mais 25 ou 50 anos e assim por diante. Esta visão, ainda que bastante especulativa, não deixa de ser bastante atraente e uma agenda científica de longo prazo (sobretudo por que muitas das tecnologias já existem aplicadas em outros contextos), baseada nela, parece ser, no mínimo, digna de atenção. Só sei que pretendo ficar de olho nos trabalhos de de Grey, nas próximas décadas.

_____________________________________________________

  • de Grey AD. A proposed refinement of the mitochondrial free radical theory of aging. Bioessays. 1997 Feb;19(2):161-6. Review. PubMed PMID: 9046246.

  • de Grey AD, Gavrilov L, Olshansky SJ, Coles LS, Cutler RG, Fossel M, Harman SM. Antiaging technology and pseudoscience. Science. 2002 Apr 26;296(5568):656. PubMed PMID: 11985356.

  • de Grey AD. The foreseeability of real anti-aging medicine: focusing the debate. Exp Gerontol. 2003 Sep;38(9):927-34. Review. PubMed PMID: 12954478.

  • Gaylarde, C.C., Bellinaso, M.L.& Manfio, G.P. BIORREMEDIAÇÃO: Aspéctos biológicos e técnicos da biorremediação de xenobióticos Biotecnologia Ciência & DesenvolvimentoAno VIII, Número 34 – janeiro/junho 2005

About rodveras

I'm a biologist and science writer who loves philosophy and sciences.
This entry was posted in Ciência, esquisitices, transhumanismo. Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s