Religião, espiritualismo e ciência: Uma relação complicada

Adoro os textos, livros e entrevistas da pesquisadora Suzana Herculano, a neurocientista brasileira mais  atuante na área de divulgação científica. Porém, recentemente em um post em seu blog, Neurocientista de plantão, Suzana fez algumas afirmações que precisam ser examinadas um pouco mais afundo. A situação que suscitou estas alegações ilustra algumas das dificuldades de ensinar ciências e seu corolário [meta]metodológico, o naturalismo metodológico (para maiores detalhes veja o verbete  Naturalism na SEP e o artigo de Barbara Forrest ).

Suzana, em geral, é precisa, nunca pedante, e muito cuidadosa ao explicar os avanços das neurociências. Estas Foram as mesmas características que me fizeram seu fã de inclusive de suas entrevistas e participações televisivas, mesmo que seja no fantástico. Uma de suas qualidades é que ela sempre mede as palavras, normalmente sem comprometer sua formação como neurocientista e sua integridade como cientista praticante. Realmente, entendo o cuidado que ela demonstra em não magoar, e evitar se indispor com seus alunos e com audiência mais ampla para quem escreve e se dirige.

O artigo, ‘O efeito de Chico Xavier sobre as aulas de neurociência‘,  foi inspirado em uma de suas aulas, creio que sobre mecanismos de percepção sensorial, para uma turma de estudantes psicologia.

Minha primeira discordância é que, na minha opinião, as ciências tem realmente um efeito corrosivo sobre as crenças não examinadas. Creio que isso seja desta maneira porque as ciências exigem um compromisso constante com o exercício da duvida de forma metódica e sistemática. A pesquisa científica nos instiga a investigar e reexamina,r de tempos em tempos, certas idéias tidas como fundamentais. Porém, não crítico a opção discursiva de Suzana como uma solução de compromisso “política”. Eu mesmo não sei se teria feito melhor. Aliás, sei sim. Não teria. Felizmente, não preciso tomar estes cuidados e assim posso escrever sobre um assunto que julgo muito importante.

Os cuidados de Suzana Herculano são compreensíveis visto a disseminação do misticismo e das religiões no Brasil. O espiritismo, particularmente, é um movimento muito forte no Brasil, formado por muitas pessoas de bem e com um imenso, e respeitável, trabalho de caridade. Além disso, mantem uma grande industria de publicações (ainda que eu questione a qualidade de muitas delas), o que por si só, em um país onde o hábito de ler é tão pouco incentivado, já é louvável. Minha experiência pessoal com os espíritas é, no geral, positiva. São pessoas facilmente engajáveis em conversas e discussões civilizadas e educadas, além de serem muito sensíveis e, muitos deles, bastante cultos. No entanto, críticas a esta doutrina nem sempre são muito bem recebidas, muitas vezes sendo levadas para o lado pessoal. Tanto pior se as críticas forem dirigidas a sua figura maior no Brasil, Chico Xavier. Estas são ainda mais mal recebidas, sendo geralmente rebatidas com referências ao seu imenso trabalho de caridade, como se isso tivesse algo haver com a questão sobre sua suposta mediunidade.

Meu maior problema como o espiritismo está no fato de que esta doutrina parece induzir, em seus seguidores, uma síndrome “do acreditar em tudo”. Este inflacionamento metafísico desnecessário e pouco crítico é uma coisa que me incomoda bastante nesta doutrina. Muitos espíritas parecem ter muita dificuldade em compreender como a investigação científica procede, e como as ciências são uma forma de ceticismo metódico e empiricamente orientado. Isto acontece mesmo com alguns cientistas praticantes (inclusive muito competentes em seus campos particulares de atuação) que calham de serem seguidores do espiritismo.

A utilização de dois pesos e duas medidas na hora de avaliar evidências, além de outras formas de lidar com a dissonância cognitiva, são muito comuns nessas pessoas, pelo menos, tendo como base minha experiencia pessoal ao conversar com adeptos desta religião.

Lembro-me que em uma discussão em uma comunidade do Orkut (Blerrrrrg!!), há alguns anos, li um comentário que afirmava “… o espiritismo é tanto uma religião como uma ciência”, só que “ os espíritos ainda não foram detectados pela ciência”. Tudo bem que eu não tenho o monopólio sobre a palavra “ciência”, e usos como “ciências ocultas” são comuns, mas a contradição me parecia muito óbvia. O que talvez ele quisesse dizer é que o espiritismo é uma forma de “para-ciência” ou “proto-ciência”, ainda lutando por reconhecimento, mas que até hoje não conseguiu demonstrar a existência de seu objeto de estudo para o resto da comunidade científica. Meio como a parapsicologia experimental.

O problema é que a maioria dos parapsicólogos experimentais, provavelmente, não aceitariam esta comparação. Falta ao espiritismo uma orientação experimental e empirista mais sistemática, além de um rigor metodológico e procedimental. Algo que possa ser estruturado em um programa de pesquisa científico minimamente coerente. Relatos de caso e anedotas são, na melhor das hipóteses, motivação para a investigações posteriores ou protohipóteses a serem refinadas e testadas. Isso não quer dizer que não hajam pesquisadores espíritas e não que haja pesquisa sobre fenômenos supostamente sobrenaturais, mas sim que o espiritismo não é organizado como um campo científico tradicional, ou seja, ele não é um programa de pesquisa científico, nos moldes que filósofos da ciência, como Imre Lakatos (Lakatos, 1977;1979), Larry Laudan (Laudan, 1984, 1996) e Paul Thagard (Thagard, 1978, 1993), sugerem.

Nesta situação é muito comum cair em certas armadilhas conceituais e lingüísticas. Então, voltando ao texto de Suzana, a primeira coisa que me chamou a atenção foi a resposta dada por ela, ao ser interpelada por alguns alunos, sobre qual seria o ‘órgão” do sentido mediúnico em nossos corpos:

Resposta em palavras escolhidas a dedo pela Neurocientista de Plantão: até hoje não foi detectada nenhuma forma de energia que possa corresponder a manifestações espíritas. Nenhum aparelho acusa qualquer tipo de variação de energia externa ao cérebro que possa ser relacionada à sensação de “presença espírita” relatada por algumas pessoas. Se esse for de fato o caso, “espíritos” não podem ser “detectados pelos sentidos”.

Não concordo com esta afirmação. E olha que, como já deve estar claro, não sou espírita, espiritualista ou místico. Sou um ateu, dos mais céticos, bem tradicional. O motivo porque não concordo é que esta afirmação é confusa e em certo sentido é incorreta. O conceito ‘energia’, em suas diversas formas, tem vasta aplicação nas ciência naturais, além da física e da química (como biofísica, bioquímica, fisiologia e, claro, nas neurociências), sem falar nas ciências aplicadas, como as engenharias. O problema é que energia, como Suzana bem sabe, é uma quantidade conservada em sistemas físicos, sendo perfeitamente quantificável quando devidamente definida. Na química e bioquímica a energia pode ser definida operacionalmente, como a capacidade de realizar trabalho, e diversas medidas e formalismos matemáticos podem ser empregados para sua análise em sistemas químicos e biológicos, existindo unidades de medida de energia, como watts, joules, calorias etc, que conhecemos bem.

Físicos e biofísicos, conseguem medir e manipular experimentalmente campos elétricos e magnéticos muito tênues. Estes procedimentos, inclusive, estão na base de vários estudos neurocientíficos. A medida de potenciais elétricos em nervos isolados ou os registros de eletroencefalogramas, através de eletrodos colocados na cabeça de indivíduos, até as formas mais modernas de neuroimageamento, são exemplos concretos da manipulação e detecção de “variações de energia” rotineiramente aplicados na pesquisa científica e na medicina diagnóstica. Porém, quando crédulos e místicos falam de “energia” eles não estão falando da mesma coisa a que os cientistas se referem quando usam o mesmo termo. Então, uma mensagem ambígua é passada ao se incorrer neste vocabulário sem os devidos esclarecimentos.

Então, embora, muitas pessoas se refiram ao termo “energia” em contextos místicos, em geral, não se espera que estas entidades espirituais, supostamente contactadas por médiuns, tenha qualquer coisa em comum com o conceito científico de energia [A menos que estejamos contando as pessoas que usam medidores de campos eletromagnéticos para ‘detectar’ fantasmas, ou os adeptos da “medicina vibratória” ou quântica, que tentam cooptar o jargão da física quântica em um exercício escandaloso de pseudociência (Veja o artigo de Victor Stenger picaretagem quântica)]. Então, ainda que a idéia de uma “alma” desencorporada, porém ainda assim material (física), não possa ser descartada de todo, não parece ser esta a idéia por trás das crenças religiosas quando estas são as examinadas em maior detalhe.

Portanto, quando se fala em espíritos, tradicionalmente, se pressupõem uma realidade puramente mental, não redutível à física, mas que mesmo assim possua a capacidade de interagir causalmente como o mundo físico. Este tipo de visão sobrenaturalista (veja Ateísmo, naturalismo e Sobrenaturalismo) nem sempre é clara na cabeça das pessoas mais místicas, por isso é tão comum que muitas delas busquem algo, aparentemente, mais palpável, como o oferecido pelo jargão pseudocientífico exemplificado por termos como ‘corpo astral’, ‘perispírito’, ‘padrões vibratórios de energia’, ‘bioenergia’ etc (Stenger 1997; 1999; 2001- veja alguns dos artigos de Stenger aqui e aqui). Em franco contraste com estas crenças, os dados e teorias científicas, sugerem fortemente que a natureza é um sistema fechado e que nosso comportamento, nossas memórias, nossa capacidade de perceber e se emocionar, além de nosso senso de identidade pessoal e corporal, são todos produtos da atividade de nossos cérebros. Somos uma entidade sensório-motora situada em um mundo, agindo e reagindo sobre ele através desta encorporação (embodiment) e da atividade integradora e dinâmica de nosso sistema nervoso.

Esta explicitação é importante porque, na realidade, a energia pode assumir várias formas que induzem experiencias tidas como sobrenaturais. O que não existe são evidências para uma realidade puramente espiritual, ou seja, sobrenatural ou de que estas formas de energia sejam autonomamente conscientes. Mas a frente no texto, quando Suzana cita certos experimentos, esta confusão fica patente.

Por outro lado, há vários estudos em neurociência que mostram que a percepção de presenças atribuíveis por exemplo a espíritos está associada a um padrão de ativação em regiões do córtex, como o parietal posterior e o lobo temporal. ”

Existem muito dados acumulados que mostram como certos tipos de intervenções experimentais (como a estimulação direta do córtex (por eletrodos) ou indireta (por campos eletromagnéticos) provocam experiências equivalentes ao que é experimentado por vários místicos e supostos médiuns. Em suma, diferenças de potencial elétrico e campos eletromagnéticos podem reproduzir o fenômeno em questão. Isto é, processos físicos estão associadas com experienciais tidas como espirituais, sugerindo que a mediunidade, e as visões de realidades ou entidades transcendentes, são apenas percepções induzidas por estes mesmos processos físicos, puramente naturais. A afirmação de Suzana é muito ambígua, criando mais confusão do que esclarecendo a questão.

Estudos tem indicado que experiências fora-do-corpo (OBEs- Out-of-body experience) e outros fenômenos ligados a paralisia do sono são, de fato, vários tipos de alucinações sensoriais e vestibulares, associadas à alterações no funcionamento da junção temporo-parietal e circuitos de controle do sono REM (Blanke, 2004; Blanke et al., 2004; 2004b; Cheyne J.A., 2008; Brugger & Mohr, 2009; Cheyne & Girard, 2009). Nada disso indica a existência de uma alma não-física, separada do corpo. O fato desta possibilidade lógica não poder ser descartada deixa de lado o fato desta possibilidade, simplesmente, não ser parcimoniosa, além de não acrescentar nada do ponto de vista das virtudes epistêmicas e cognitivas procuradas pelos cientistas em suas explicações. A possibilidade de um “fantasma na máquina” é uma adição supérflua e problemática, como pode ser percebido ao se avaliar as evidências da neuropsicologia, neurologia clínica e das neurociências em geral, discutidas mais adiante.

Olaf Blanke da universidade politécnica federal técnica de Lauzane, na Suíça, conseguiu induzir muitas destas experiências e descreveu estes experimentos em artigos na revista Nature (Ardy et al, 2002; Blanke et al. 2006). O grupo de Blanke consegui induzir a percepção de um ‘vulto’ ou sombra de uma pessoa e, antes disso, já havia provocado alucinações vestibulares e ilusões da percepção da própria posição corporal através de protocolos de estimulação semelhantes, reproduzindo um OBE. Como já comentado, o lobo temporal e principalmente certas partes do lobo parietal, especialmente a junção temporo-parietal parecem estar envolvidos com estes fenômenos de forma causal. Em 2006, um grupo do Helmholtz Research Institute e da Universidade de Utrecht, produziu ilusões auto-corporais semelhantes através da estimulação magnética transcraniana do cerebelo (Schutter et al., 2006).

A abordagem experimental direta pode ser ainda mais frutífera quando integrada à estudos observacionais bem controlados, realizados com grande número de voluntários,

como os feitos por Cheyne e Girard (Cheyne & Girard, 2009 ). Estes estudos também sugerem padrões causais comuns entre uma série de fenômenos que vão desde as alucinações hipnopômpicas e hipnogógicas, experiências autoscópicas (como as OBEs) e a sensação de presença, todas elas ligadas a paralisia do sono e “entradas” semilúcidas em estado REM. Outra fonte de insights são os estudos com pacientes com epilepsia do lobo temporal e a sensação de não estar só, vivenciados por eles, que pode provocar estados semelhantemente aos descritos por pessoas que passam por estases místicos até mesmo o sentimento de comunhão religiosa, além de alucinações sensoriais, hipergrafia (escrita automática em grande quantidade)(Dewhurst & Beard, 1970; Waxman & Geschwind, 1974; Okamura et al., 1993; Asheim, Hansen & Brodtkorb, 2003; Devinsky & Lai, 2008). Porém o mais interessantes é que mesmo estes fenômenos parecem estar presentes em menor grau em populações não-clínicas. A atividade elétrica ‘anormal’ também foi identificada em pessoas saudáveis, não portadoras de epilepsia e parece correlacionar-se com a experiencias tidas como paranormais e sobrenaturais (Persinger & Valliant, 1985; Persinger, 1993; Persinger & Makarec, 1987).

Michael Persinger é outro pesquisador que tem se dedicado também a estudar fenômenos deste tipo. Seus estudos com campos eletromagnéticos em voluntários conseguiram reproduzir muitas das sensações atribuídas a estados supostamente mediúnicos e abduções (Persinger, 2003; 2008).

Além dos fatos e estudos mencionados acima, possuímos muitas evidências de que alucinações visuais e auditivas não são sintomas exclusivos de psicoses e outras doenças mentais. Estudos epidemiológicos, com populações não clínicas, mostram que estes fenômenos são realidades experienciais nada raras. É crescente a idéia de que este tipo de fenômeno seja distribuído de forma contínua nas populações humanas, apenas os casos maios extremos sendo realmente patológicos (Stip & Letourneau, 2009; Menezes & Moreira-Almeida, 2010; Linden et al., 2010). Este tipo de pesquisa é interessante por que, ao mostrar que alucinações visuais e auditivas não necessariamente estão associadas com psicoses, uso de substâncias alucinógenas, privação sensorial e estresse intenso, ajuda a remover um pouco do preconceito de estudar este tema em pessoas que alegam ter experiências paranormais ou sobrenaturais. Estas experiências, portanto, são mais um fenômeno que pode ser atribuído a variabilidade biológica humana e a mecanismos psicológicos e socioculturais que podem cooptar estas experiências, seja em contextos menos favoráveis, nos quais estas experiências são vistas como possessões demoníacas (por exemplo, em religiões cristãs mais conservadoras), ou mais favoráveis, onde as pessoas que experimentam tais fenômenos são vistas como possuidoras de talentos inerentes,como acontece em doutrinas e religiões que acreditam na reencarnação e comunicação com os mortos, como o espiritismo e religiões de matriz afro-brasileira.

Isso mostra que, apesar de ainda termos muito a aprender sobre os complexos mecanismos neurobiológicos operando neste e em outros fenômenos estranhos, o caminho da investigação científica minuciosa, orientada de forma metodologicamente naturalista tem sido a melhor estratégia.

Mais para o final do post Suzana comenta:

Se Deus/espíritos/almas são uma criação do seu cérebro ou os criadores dele, portanto, fica a critério de cada um. A ciência nem prova, nem desaprova… ”

Meu problema com esta declaração não é que eu a considere falsa. Na realidade, o oposto. A declaração “A ciência nem prova, nem desaprova…” é um truísmo. Porém, acaba sendo um pouco enganosa por que ela é valida para qualquer fenômeno experiencial. Ao contrário da lógica e da matemática, nas quais se pode provar teoremas, as ciências dependem da continua investigação empírica, o que sempre envolve níveis de incerteza, já que não se consegue excluir um infinidade de possibilidades lógicas, todas elas compatíveis com os dados. Por isso, princípios cognitivos extras nos ajudam na avaliação dos resultados empíricos.

Entre as várias virtudes epistêmicas e cognitivas que os cientistas se valem nestas horas, estão a simplicidade, coerência interteórica, habilidade de gerar novas hipóteses empiricamente testáveis e alcançar acordo intersubjetivo, gerar novas predições e retrodições, explicar novos fenômenos, replicabilidade, validação por múltiplos métodos etc. Estes princípios heurísticos são tão importantes para a avaliação das teorias e hipóteses como os testes controlados e contínuo escrutínio empírico. Portanto, o fato de não podermos provar (ou desaprovar), em nenhum sentido absoluto, não deve ser visto como impedimento para avaliarmos as evidências racionalmente e tirar conclusões, mesmo que de forma, admitidamente, falível e provisória. Desta forma, ao avaliar a ideia de mentes desencorporadas (não físicas) percebemos que ela nunca passou em nenhum teste rigoroso e que tenha sido replicado de forma sistemática. Minha aposta pessoal é que ela se mantém popular por motivos psicossociais e antropológicos, particularmente por causa do desejo de transcendência que é reforçado pelo medo da morte e extinção da consciência. Muito se tem discutido sobre esta questão. Campos científicos como o das ciências cognitivas da religião ou, de forma mais geral,  antropologia cognitiva tem trazido novas ideias e hipóteses, iluminando esta questão. Além disso, me parece evidente que as experiências antes mencionadas (NDEs, OBEs, paralisia do sono etc) reforçam estes sentimentos, dando a sensação de uma realidade palpável por trás deles que se combinam de forma prosaica com nossas próprias expectativas ao não levar em conta nossa imersão sensório-motora no mundo físico. De forma complementar, as pessoas que experienciam estes fenômenos, partilhando suas experiências em grupos, formam vínculos sociais e comunitários cooptados pelas religiões e cultos “nova era”.

A força deste tipo de mentalidade e seu poder na sociedade é também muito melhor explicado pela investigação sociológica e antropológica, associada as informações da neurobiologia e das diversas áreas da psicologia e ciências cognitivas. Por outro lado, a pesquisa sobre supostos fenômenos sobrenaturais é tremendamente heterogênea, com uma tradição de polêmicas, erros e sérios problemas metodológicos, além de uma clara divisão entre as atitudes de céticos e crédulos.

A principal questão (que se estende a pesquisa parapsicológica) é que esta tradição não tem uma hipótese substantiva clara e nem métodos específicos e validados de forma rigorosa, já que os fenômenos são definidos de forma negativa , ou seja, é sobrenatural/paranormal aquilo que não conseguimos explicar de forma naturalista. Até hoje ninguém desenvolveu um programa científico com uma orientação metodológica sobrenaturalista que tenha mostrado resultados equivalentes da abordagem naturalística. Os pesquisadores destas áreas utilizam-se das ferramentas tradicionais das ciências naturais e sociais. Por isso a pesquisa ‘mediúnica’ e parapsicológica sofre as mesmas restrições da investigação científica tradicional, devendo manter-se minimamente coerente com os resto da empreitada científica. Porém este simples fato coloca os pesquisadores destas áreas (realmente comprometidos com uma abordagem metodologicamente sistemática) em uma situação difícil já que seu trabalho é achar anomalias não-consistentes com o resto das ciências. Então, o que os pesquisadores destas áreas de fronteira – quando não caiem em pura pseudociência – podem  fazer é tentar, a todo custo, rejeitar explicações naturalistas através de experimentos metódicos e minuciosamente delineados buscando controlar várias tipos de variáveis tênues. Este tipo de atitude torna as pesquisas parapsicológicas bastante difíceis de serem interpretadas, já que os fenômenos estudados são definidos negativamente, com ‘paranormal’ sendo aquilo que não se consegue explicar de forma natural, o que leva muitos parapsicólogos em uma busca desenfreada por anomalias estatísticas, qualquer que seja (Alcock, 2003; Hyman, 2006; 2008; Jeffers, 2006; Wiseman, 2009; veja também Ioannidis, 2005, para uma crítica mais geral aos resultados de estudos científicos, e sua dependência do poder estatístico e do número de estudos realizados, pontos que tornam os resultados da parapsicologia ainda mais problemáticos). Assim, tornam-se presas fáceis de falsos positivos e de aceitação precoce de resultados, quando não fazem pior, por exemplo ao transformar resultados negativos em “sucessos”, ao renomeá-los como “efeito de declínio”, “psi-missing” etc.

Estes problemas são agravados pelo uso e abuso de certos procedimentos de análise estatística, como as meta-análises. O principal erro dos parapsicólogos e pesquisadores de fenômenos (supostamente) sobrenaturais é o seu excesso de confiança em procedimentos de estimação do efeito de engavetamento (filedrawer effect), como os criados por Rosenthal (ver Scargle, 2000; Stokes, 2001, Stenger, 2002), e no uso de valores-p ao se lidar com tamanhos de efeito tão pequenos e fenômenos, mesmo por eles, reconhecidos como evasivos (Jefferys, 1990; 1992; Matthews, 1999). Meta-análises são procedimentos muito úteis, mas podem ser vitimadas por vários problemas, desde a subjetividade na escolha dos critérios de inclusão até a heterogeneidade dos estudos incluídos (Eysenck, 1994). Tais procedimentos deveriam ser utilizados com muito mais cuidado, principalmente, ao tentar usá-los para validação de fenômenos tão polêmicos e com efeitos tão tênues e erráticos. Talvez fosse melhor aproveitá-las apenas como fonte de hipóteses e na avaliação dos estudos que mereceriam ser replicados, com grandes amostras e maior rigor procedimental, em um futuro próximo.

Apesar destes problemas,  entidades (supostamente) sobrenaturais, mesmo não sendo passíveis de investigação científica direta, podem ser parcialmente sondadas por abordagens que seguem o naturalismo metodológico. Estas abordagens permitem investigar certos instanciamentos de crenças sobrenaturais e nos permitem retirar algumas conclusões sobre sua suposta existência. Então, caso estas supostas entidades sobrenaturais causem efeitos sobre a natureza, elas poderiam, em princípio, ser investigadas de forma científica a partir destes possíveis efeitos.

A postulação de entidades não observáveis faz parte do repertório conceitual das ciências modernas. Portanto, este não seria um problema. O que não é permitido é que estas entidades sejam definidas explicita ou implicitamente de forma que as exima de refutação, como ao dizer que elas estão acima de nossas capacidades de compreensão ou, pior ainda, que elas sejam ativamente esquivas. Estas estratégias de imunização epistêmica, e outras manobras ad hoc destinadas a explicar resultados negativos, são exatamente aquilo que deve ser evitado caso resolvamos realmente levar a sério a possibilidade destes fenômenos. Infelizmente, este tipo de atitude é comum aos crédulos e religiosos de plantão. Porém, em tese, é possível imaginar situações que convenceriam um cientista cético não-religioso da possibilidade efetiva de fenômenos sobrenaturais. Por exemplo, imagine que estas entidades violassem sistematicamente leis e princípios naturais muito bem estabelecidos, com a única restrição sendo a vontade do agente cognitivo em questão ou de seu intermediário físico, como um médium, profeta ou homem santo. Este tipo de “milagre sobre demanda” seria um caso interessante que poderia alterar a atual percepção da comunidade científica e torná-la mais inclinada a considerar explicações sobrenaturais. Pense, por exemplo, em um “homem santo” entrando em uma enfermaria de queimados ou recém amputados e retornando estes pacientes a suas condições originais imediatamente após apenas uma oração ou imposição de mãos. Tudo isso documentando em vídeo, na presença de médicos e cientistas  e especialistas em ilusionismo e detecção de fraudes, como os pacientes sendo previamente avaliados e escolhidos pela equipe de médicos/pesquisadores céticos.

O acúmulo deste tipo de evidência, obtida em situações muito bem controladas e de forma sistematicamente replicável, faria uma grande diferença e removeria boa parte do ceticismo da comunidade acadêmica em relação ao tema.

Porém, nada parecido com isso ocorreu, pelo menos, em tempos modernos, desde que as ciências se estabeleceram e se institucionalizaram. Um agravante é o fato da pesquisa sobre fenômenos supostamente sobrenaturais ser ainda mais problemática do que a pesquisa paranormal, com a grande maioria das investigações sendo feitas a partir de estudos de casos e coletas de anedotas.

Os estudos que mais se aproximam deste ideal de clareza metodológica e experimental são aqueles realizados sobre o possível efeito de preces ‘intercessórias’ na saúde de pacientes hospitalizados. Porém, a maioria destes trabalhos são permeados por péssimos delineamentos experimentais e por outros problemas metodológicos que vão desde a utilização de desfechos múltiplos (e acrescentados posteriormente a coleta dos dados), finais em aberto, medidas alternativas de “sucesso”, além de manipulações estatísticas e análises post hoc vergonhosas(Bishop & Stenger, 2004; Jørgensen, Hróbjartsson, Gøtzsche, 2009; Roberts et al., 2007; 2009). Entretanto, quando os estudos com resultados positivos são replicados de maneira independente, seus resultados positivos não se sustentam; e quando levados a cabo, desde o início, de forma mais rigorosa não mostram nenhum resultado positivo (Aviles et al. 2001; Bishop & Stenger, 2004; Jørgensen, Hróbjartsson, Gøtzsche, 2009; Roberts et al., 2007; 2009).

Em franco contraste, nos últimos 150 anos, várias anomalias e descobertas científicas desconcertantes acabaram sendo incorporadas as ciências.  E isso sem que estas tenham sido procuradas intencionalmente, de forma tão desesperada, como evidências para comunicação com os mortos e mediunidade.

As anomalias científicas, que forçaram radicais mudanças em nossa visão de mundo, apareceram nas próprias investigações tradicionais de forma recalcitrante e inevitável, tais como o periélio de mercúrio, a radiação do corpo negro, ou ainda as semelhanças entre organismos que viveram em épocas diferentes (fósseis de espécies extintas) e em locais diferentes (biogeografia de ilhas) com espécies atuais mais bem conhecidas. A revolução quântica, a biologia evolutiva, a relatividade de geral e a moderna cosmologia são alguns dos mais conhecidos exemplos deste tipo de mudança na nossa compreensão científica do universo. Todas estas alterações na nossa visão de mundo envolveram grandes mudanças conceituais, mas nada semelhante aconteceu em relação ao sobrenatural. Então, embora, não possamos descartar tal possibilidade, ao analisarmos a questão em termos puramente lógicos, não precisamos suspender o juízo. Podemos tirar algumas conclusões sobre esta questão e manifestá-las com razoável convicção.

Em suma, existe abundante evidência indicando a dependência causal da mente em relação ao cérebro e para o ‘fechamento causal’ do mundo físico, além de sua origem por mecanismos naturais. Em contrapartida, não temos nenhuma evidência de fenômenos sobrenaturais como a comunicação mediúnica, que tenham sobrevivido ao escrutínio das ciências nestes últimos 150 anos de investigações sobre o tema. Os esforços mais sistemáticos e metódicos nesta área não revelaram evidências robustas e replicáveis para nenhum fenômeno sobrenatural, irredutível ao físico e a suas manifestações. Testes controlados, na presença de observadores isentos e especializados em detectar fraudes, nunca são replicados de forma sistemática e rigorosa com resultados positivos claros. Simplesmente não existem bons motivos científicos para acreditarmos em uma realidade extra-física, sobrenatural puramente mental, que tenha conseguido evadir-se a todas tentativas sistemáticas de detectá-la e medi-la. Casos isolados, que jamais foram estudados de forma sistemática a fundo, uma montanha de anedotas e wishfull thinking, são as únicas “evidências” para a tese sobrenaturalista/sobevivencialista/dualista. Desta forma, o peso social que é depositado nesta hipótese não deve servir de argumento, caso contrário incorreríamos na falácia ad populum ou da mera argumentação pelas conseqüências desejáveis de uma vida após a morte. Entretanto, parece esta a natureza da fé: Crer a despeito das evidências, mesmo contrariando a elas. Reforçando esta interpretação, vários estudos tem indicado que é possível simular muitas das experiências que ocorrem em seções mediúnicas. Estudos controlado feitos com voluntários demonstram comu sugestões podem induzir a ‘percepção’ de fatos e eventos que não estão acontecendo (O’Keeffe & Wiseman, 2005, Wiseman & Greening, 2005, Wiseman & Smith, 2002, Wiseman, Greening and Smith, 2003; Holden & French, 2002; French et al., 2009). Na última década experimentos visando simular ambientes mal assombrados (e medições diretas de diversos fatores físicos em locais supostamente assombrados) – e os efeitos de campos eletromagnéticos, infra-som, sugestionabilidade, correntes de ar etc – tem sido conduzidos como intuito de investigar os possíveis mecanismos psicológicos e processos físicos que podem causar e/ou influenciar as experiências individuais de caráter supostamente paranormal ou sobrenatural (Braithwaite, 2004; French, 2009).

Estas possibilidades tornam-se ainda mais plausíveis ao analisarmos várias evidências (provenientes das áreas de psicologia cognitiva e social, sociologia, antropologia e, no último século, da neurologia e das neurociências) de que sensações de presença, ‘visão’ de vultos e ‘assombrações’, supostas instâncias de adivinhação e comunicação com o “outro lado”, ou são irreais (engano, fraude, etc), ou explicáveis por mecanismos naturais cognitivos que enviesam nossa percepção e decisão. Estudos, iniciados por Amos Tversky e Daniel Kahneman nos anos 60 e 70, mostram como heurísticas e viéses cognitivos guiam nossas decisões e nossa percepção da probabilidade dos eventos (Tversky & Kahneman, 1971; 1974). Tendenciosidades cognitivas nos impelem, por exemplo, ao sermos solicitados a produzir seqüências aleatórias, a fornecer seqüências que tem maior abundância de números pequenos (Loetscher et al., 2008; Loetscher & Brugger, 2007). Parecemos também ter dificuldade em reconhecer seqüências aleatórias, baseando nossos ‘palpites’ em esquemas muito simplistas que tendem em procurar heterogeneidade numérica, subestimando a ocorrência de séries e repetições (Blackmore, 1990. Blagrove, French & Jones, 2006). Esta situação é completamente inteligível do ponto de vista da evolução biológica, já que esquemas de escolha precisam ser apenas,  suficientemente, precisos para garantir nossa sobrevivência e reprodução.

Essas assimetrias de percepção e julgamento inconscientes nos levam, muitas vezes, à achar padrões e coincidências ‘significativas’ e atribuir-lhes grande importância. Sabemos também que nossa memória é muito pouco confiável e que as situações de evocação influenciam o conteúdo rememorado. De forma semelhante, nossa habilidade de julgar nossas próprias habilidades tende a sobrevalorizá-las. Isso sugere, que somos inclinados a superestimar a raridade de determinados eventos, o que nos faz utra-sensíveis à coincidências, tornando-nos péssimos estimadores da probabilidade, sujeitando-nos a ‘perceber’ conexões espúrias em padrões aleatórios e achar que um dado evento não deveria acontecer (ou ser muito raro) quando ele seria, na realidade, estatisticamente esperado (Loetscher et al., 2008). Além disso, os estudos sobre falsas memórias, e sobre os problemas em várias técnicas utilizadas para ‘recuperação’ de memórias reprimidas, realizados por cientistas como a psicóloga Elizabeth Loftus (2001; 2002; 2003; 2006), evidenciam mais ainda a imprecisão de nossos julgamentos pessoais e de nossas recordações.

É por estes motivos que não podemos confiar em anedotas, e em testemunhos de eventos fantásticos, sem que estejam disponíveis outras formas de corroboração independente. Pelo mesmo motivo, ao investigar alegações paranormais e de eventos sobrenaturais, precisamos cercarmo-nos de procedimentos e metodologias rigorosas e insistir na replicabilidade dos resultados.

Ainda controverso, porém ainda assim apoiado por certas evidências empíricas, é a questão de que pessoas que experienciam e reportam fenômenos supostamente paranormais (e sobrenaturais) parecem exibir uma propensão maior a erros de estimação de probabilidades subjetivas; assim como, parecem possuir características cognitivas (e de personalidade) que as predisponham a certas tendenciosidades de julgamento em maior proporção do que pessoas que não vivenciam e relatam estas experiências (Brugger, Landis &. Regard. 199; Musch & Ehrenberg, 2001; Lawrence & Peters, 2004; Blagrove, French & Jones, 2006; Meyersburg et al., 2009).

Todas estas linhas de evidências, informações e teorias, quando conjuntamente avaliadas, apoiam para tese naturalista, que as explica de forma bem mais consistente, mesmo com a persistência de algumas lacunas. Como bônus adicional, esta tese permite que nós nos aprofundemos na investigação das suas causas e características destes fenômenos e que organizemos um programa de investigação científica bem minucioso.

Mesmo assim, existem muitas pessoas que insistem em abrir lugar para interpretações sobrenaturalistas, inclusive uma pequena proporção da comunidade científica. Uma das formas de resistir a conclusão a favor visão de mundo naturalista (extensamente corroborada pelas ciências modernas) é insistir que, mesmo que a hipótese sobrenaturalista não tenha evidências a seu favor, ainda assim, ela seria logicamente possível, não tendo sido refutada ainda.

Esta atitude joga todo o ônus em cima dos naturalistas, o que é um absurdo pois não é possível traçar e investigar cada alegação sobrenatural e desmenti-la. Esta inversão do ônus é desmedida, mas mesmo assim tem sido a tônica de muitos líderes religiosos ao se pronunciar, superficialmente, simpáticos as ciências. A frase atribuída a Kardec é um bom exemplo disso:

“Quando a ciência demonstrar que o espiritismo estiver errado em um ponto, ele se modificará neste ponto.” Allan Kardec.

Modernamente, esta atitude envolve a defesa da compatibilidade lógica entre as neurociências e a tese espiritualista/sobrenaturalista, além ser uma alegação muito, mas muito, mais modesta do que o que muitos religiosos gostariam de poder afirmar, ela, além de não parcimoniosa, incorre em vários outros problemas. Para começar este argumento não é explanatório, já que apenas admite que existe uma mente não-física que controla o corpo físico, sabe-se lá como.

Fica claro que as críticas ao dualismo cartesiano, em relação ao problema da interação mente-corpo, até hoje, não foram respondidas de forma minimamente satisfatória. Como a res extensa (espacialmente extensa e material, i.e. corpo/cérebro) e uma res cogita (i.e. uma ‘substância’ puramente pensante, sem extensão espacial, e não-física, i.e. mente/alma) podem interagir sendo de naturezas tão distintas. Os apelos a mecânica quântica (MQ) e a perspectiva de uma neurociência quântica da consciência também não parecem nada promissoras, já que além de especulativas (i.e. A existência de efeitos não triviais quânticos em sistemas biológicos e as teorias quântica da consciência) dependeriam de interpretações filosóficas dualistas da MQ, bastante problemáticas e desprovidas de suporte empírico (Koch & Hepp, 2006; Litt et al., 2006; McCrone, 2003; McKemmish et al., 2009; Reimers et al., 2009; Smith, 2006; 2009; Tegmark, 2000a; 200b; Wiseman & Eisert, 2008.- Veja também o artigo de Stenger ‘Metafísica Quântica’). Por isso as teses monistas, particular o naturalismo fisicalista, mesmo com seus problemas, tem sido preferido por filósofos e cientistas. Para muitos sendo esta a filosofia espontânea da prática científica moderna. Pretendo contra-argumentar,no entanto, me mantendo nas neurociências e em algumas implicações de alguns resultados experimentais e observações clínicas.

O argumento sobrenaturalista/sobrevivencialista moderno admite que as evidências para a correlação, e dependência, do funcionamento da mente da atividade cerebral são inegáveis. Porém, interpretam esta ligação, sem apoio empírico e teórico, como sendo análoga ao processo de funcionamento de uma TV ou rádio, em que o sistema físico funciona como um receptor/transmissor para uma entidade separada. Assim, todas as evidências de co-dependência entre a mente e o cérebro são encaradas como uma via de mão dupla. Então, por exemplo, danos ao cérebro, que causam déficits mentais, são tidos como alterações nos sistemas de envio ou recepção de informação. Este tipo de interpretação é sujeita a várias objeções, que demandam uma incrível ginástica mental e habilidade retórica para serem respondidas. A primeira delas se origina na interpretação do resultados de experimentos como os realizados por Benjamin Libet (Libet, 1985; Libet et al, 1983) e replicados com técnicas de neuroimageamento por Soon e colaboradores (2008).

O trabalho de Libet, sobre tomada de decisão pelo cérebro, deixa pouco espaço para a idéia de que certas formas de livre arbítrio (isto é, aquelas envolvendo decisões puramente consciente livres de constrangimentos e restrições causais físicas, livre arbítrio contra-causal libertário) sejam nada mais do que uma ilusão subjetiva. Neste experimentos, voluntários foram convidados a mover seus pulsos, de forma voluntária em um momento aleatório, ao mesmo tempo deveriam acompanhar um relógio e, através dele, registrar o momento exato em que sentiram que a decisão foi tomada conscientemente. Enquanto isso Libet gravava a atividade eletroencefalográfica dos cérebros destas pessoas. Na medida que a atividade cerebral, na forma de potenciais de prontidão, era registrada, verificou-se que ela, não só, precedia a ação motora, como também ocorria antes de que os indivíduos se percebessem conscientes de sua intenção de mover seus pulsos. A defasagem entre as alterações no potencial de prontidão e a decisão conscientemente experienciada foi de cerca de meio segundo. Experimentos posteriores eliminaram eventuais problemas metodológicos e variáveis confundidoras indesejáveis, mas os resultados gerais permaneceram inalterados. O experimento de Soon e colaboradores é uma replicação recente destes resultados, usando técnicas mais refinadas e com resolução espacial melhor para a gravação da atividade do cérebro, no caso o fMRI (ressonância magnética funcional), além de testar esquemas de decisão muito mais sofisticados. Os resultados deste experimento revelaram toda uma hierarquia de atividades cerebrais que precedem as decisões conscientemente experienciadas. O mais interessante é que até 10 segundos podem transcorrer, desde o início da atividade inconsciente do cérebro, até a experiência do ato conscientemente desejado. A precedência temporal da atividade cerebral inconsciente associada a tomada de decisões conscientes é dificilmente reconciliável com interpretações dualistas interacionistas, como as exigidas pelas crenças sobrenaturais.

Outro ponto fraco da interpretação dualista, que defende que o cérebro é apenas como um intermediário para a mente/alma, vem dos resultados de mais de 100 anos de pesquisa em neurologia clínica e neuropsicologia.

O filósofo Matt McCormick expressa este raciocínio de forma muito clara, ao abordar a possibilidade de imortalidade da mente humana:

Em alguns casos, em que ocorrem danos cerebrais, por exemplo, vítimas de derrame podem sofrer de apraxia, perdendo a habilidade de produzir linguagem articulada, tendo grande dificuldade em coordenar os movimentos da boca e a fala. Algo semelhante ocorre com pacientes vítimas de AVC que sofrem disartria. Neste caso eles são perfeitamente capazes de pensar e formar linguagem, mas não podem controlar os músculos necessários para pronunciar os sons. Mais tarde, caso estes pacientes readquiram a capacidade de falar, através da reabilitação, eles relatam poder pensar muito bem, mas não poder mover a boca para dizer o que eles estavam pensando. Da mesma forma, quando uma pessoa perde a visão ou a audição, por causa dos danos aos seus olhos e ouvidos, as suas mentes permanecem intactas. Mas desde que diferentes partes do cérebro controlam a formação de conceitos e a capacidade de controlar os músculos e respiração necessária para expressá-las com a boca, e desde os olhos e ouvidos são separados dos processos cerebrais que são responsáveis por pensamentos, estes casos não apóiam a alegação de que a mente não precisa de cérebro para funcionar. Nestes casos, as partes do cérebro associadas com as funções mentais, presumivelmente necessárias para a mente, estão ilesas e são as porções do cérebro que não são vitais para as funções mentais abstratas que foram danificadas. Na verdade, são estes tipos de casos de danos localizados que permitiram aos neurocientistas encontrar as regiões do cérebro que controlam a coordenação motora ligada à boca e isolá-la das regiões que são responsáveis pela conceitualização, e outras funções.

O tipo de evidência que é necessário para sustentar a tese dualista está nos casos em que as regiões do cérebro, que estão diretamente relacionados com uma função mental superior específica, estão danificadas ao ponto de que elas não podem funcionar, mas que pudesse ser estabelecido, de forma inequívoca, que as funções mentais continuaram durante, e apesar, dos danos causados a região cerebral específica. O desafio para os dualistas é que se os sistemas do cérebro relacionados com a abstração conceitual, ou outras atividades mentais, são danificados, não existem indicadores públicos [intersubjetivamente comunicáveis e validáveis] de que a mente permaneceu inalterada.

Um lugar que o dualista pode olhar é para vítimas de derrame que têm várias formas de afasia. Em casos graves, perdem a capacidade de produzir palavras, reconhecer palavras, ler ou escrever por completo. Nos casos mais leves, elas podem entender as palavras e ler, mas têm dificuldade em encontrar as próprias palavras. Talvez o cérebro de vítimas de derrame que tiveram prejuízos com as regiões associadas com a formação de pensamentos abstratos (e não apenas a sua capacidade de falar ou se expressar) poderiam recuperar-se através da reabilitação. Então, se a tese dualista, for correta, seria de se esperar que as vítimas relatassem que, o tempo todo durante sua lesão cerebral, eles estavam pensando e abstraindo normalmente, mas encontravam-se misteriosamente incapazes de expressar seus pensamentos. Além disso, esta dificuldade é diferente da dificuldade que os pacientes disartria apraxia e sofrer.

Porém, a investigação desses casos não produziu as evidências que seriam necessárias para apoiar a tese dualista. Muito pelo contrário, tem sido a nossa capacidade de identificar as regiões altamente localizadas do dano e o testemunho de doentes recuperados que nos permitiu isolar as diferentes regiões do cérebro e identificar os diferentes tipos de transtornos. Quando um paciente se recupera, podemos obter detalhes sobre exatamente que tipo de dificuldade cognitiva que ele tinha e podemos co-relacioná-los com o tipo de danos físicos aos seus cérebros. Eles relataram que podiam formar pensamentos abstratos, mas eles não podiam mover suas bocas para expressá-los, ou eles relatam que sua capacidade de formar abstrações parecia danificada, mas outras habilidades cognitivas ou físicas estavam intactas, e assim por diante. O que eles não relatam, nos casos em que há dano para os centros cognitivos vitais, é que todas as suas faculdades mentais estavam ilesas. O próprio fato de que somos capazes de separar com sucesso distúrbios diferentes, tais como afasia global, afasia de Broca, afasia de Wernicke, afasia anômica, apraxia e disartria, e identificar os danos físicos que são responsável por eles, e seus sintomas diferentes, refuta a hipótese dualistas. E o que encontramos também é que estas regiões específicas associadas com as funções mentais superiores são as mesmas em todos os seres humanos, e que os danos a elas tem resultados previsíveis. A mente não funciona de forma independente do cérebro – o corpo não é apenas um mero fantoche que é dirigido por uma entidade independente, o controle do corpo e as funções mentais emanam do próprio cérebro.”[McCormick, Matt Against The Immortality Of The Soul In   Tandy, C. (Ed.), Death and Anti-Death, Volume 2: Two Hundred Years After Kant, Fifty Years After Turing Palo Alto, California: Ria University Press. ISBN: 0974347221 – foi usada a versão disponível no site, citada aqui com a permissão do autor]

Por fim, a chamada experiência de quase-morte (NDE, Near-Death Experience) é frequentemente utilizada como argumento em prol da tese dualista, especialmente da hipótese de imortalidade da mente consciente.

As NDEs são fenômenos bastante interessantes, presentes nas mais diversas culturas e que vem sendo relatados há séculos. Tais experiências podem ocorrer em indivíduos que estão, de fato, perto da morte, mas também quando estes apenas acreditam estar perto dela. A experiência envolve um número de componentes, típicos, incluindo uma sensação de paz e bem-estar, experiências fora-do-corpo (OBE) – nas quais os indivíduos que as reportam sentem-se flutuando, a uma distância de dois o três metros acima de seus próprios corpos, assistindo-os de fora deles -, além de entrar em uma região de trevas, como um túnel, além de ver uma luz brilhante. Algumas pessoas, que passam por NDEs, relatam encontrar figuras de ‘luz’ e, eventualmente, parentes queridos. Muitas pessoas acreditam que estas experiências são evidências de uma alma extra-corpórea, além de fornecerem ‘provas’ para existência de uma realidade sobrenatural transcendente. Esta linha de evidências é defendida, ou pelo menos olhada com simpatia, por um certo número de pesquisadores, como o psiquiatra Bruce Greyson (Greyson, 2010a), mas ao mesmo tempo é muito criticada por outros como Susan Blackmore (Blackmore, 1996) e Chris French (French, 2001).

O tema tem atraído bastante atenção, principalmente, por causa do forte impacto emocional que este fenômeno costuma ter nas pessoas que o experienciam. Para muitos, uma experiência profundamente transformadora. Entretanto, enquanto a realidade do fenômeno em si não esteja em questão, a interpretação sobrenaturalista é profundamente problemática, mesmo que ainda estejamos longe de ter uma explicação neurocientífica e psicológica bem definida para o que acontece durante estas experiências.  Um estudo com vítimas de parada cardíaca na holanda, realizado pelo médico holandês Pim van Lommel e publicado na prestigiosa revista médica Lancet, tratou esta hipótese com bastante simpatia, ao sugerir que algumas das histórias relatadas (e o contexto das situações em que ocorreram) tornavam a interpretação naturalista pouco provável. No entanto, o exame mais atento dos próprios dados de van Lommel, e principalmente de algumas de suas suposições, mostra que sua interpretação é no mínimo exagerada, já que os casos são consistentes com explicações bem mais convencionais. Michael Crislip, em um pequeno artigo na revista Skeptic (Crislip, 2008), no qual questiona boa parte do raciocínio empregado por van Lommel, mostra como as conclusões, do médico holandês, não são apoiadas pelos seus próprios dados.


Crislip contrasta várias das alegações de (e das suposições assumidas por) van Lommel com a literatura médica, originalmente citada pelo próprio Lommel, e com a prática clínica tradicionalmente empregada em situações de parada cardíaca em hospitais. No artigo da revista Lancet, a morte clínica é definida como a inconsciência após a parada cardíaca, apoiada na alegação de que a literatura médica relata que após o cérebro entrar em anóxia (‘zero’ de fornecimento de O2) em 10 s os eletroencefalogramas (EEGs) indicam uma linha reta, ou seja, a ausência de atividade cerebral. Porém, todos os pacientes do estudo, dentro de um período de menos de 10 minutos, receberam ressuscitação cardiopulmonar (CPR) e, dado a variabilidade na eficiência do procedimento, não há como saber, nos casos reportados por van Lommel, se estes pacientes realmente não tinham atividade cerebral detectável pelo EEG. Crislip relata que estudos mostram que o CPR pode manter um fluxo mínimo de sangue capaz de manter o cérebro funcionando, além disso a própria resolução dos aparelhos de EEG é limitada. Por exemplo, Braithwaite em artigo para a revista The Skepic (Braithwaite, 2008) comenta:


“Dentro da pesquisa sobre as NDEs, um número de pesquisadores têm argumentado que um registro plano de um eletroencefalograma (EEG) pode ser tomado como evidência da inatividade total do cérebro (e van Lommel et al. recruta este argumento em sua interpretação; Fenwick & Fenwick, 1995; Parnia e Fenwick , 2001; Parnia et al., 2001; Sabom, 1998). Esta afirmação é totalmente incorreta. É certamente o caso de que um EEG isoelétrico cortical seria indicativo de um cérebro que está em apuros. Supondo que nenhum erro técnico ou problemas com o contato do eletrodo, um EEG plano está longe de ser desejável. No entanto, a suposição de que um EEG plano pode ser tomado como uma forte evidência de inatividade cerebral global e total é improcedente. (É importante também salientar que os estudos que fazem grandes afirmações sobre EEGs não fornecem nenhuma informação sobre o nível de ganho empregado no dispositivo EEG, assumindo que eles eram dispositivos QEEG digital. Isto parece importante já qualquer EEG tornar-se quase plano, quando ajustado para ganho mínimo. Um EEG plano, com um ganho máximo, seria mais um indicativo de inatividade neocortical, embora, novamente, não inatividade do cérebro inteiro). Salvo aqueles implantados cirurgicamente, diretamente no cérebro, o EEG mede principalmente a atividade da superfície cortical. A forma das ondas registradas em um EEG cortical são consideradas, amplamente, como advindas dos disparos em sincronia de neurônios piramidais corticais. Como tal, é perfeitamente concebível que as estruturas sub-corticais, profundas do cérebro, poderiam disparar, e até mesmo gerar convulsões, na ausência de quaisquer sinal cortical desta atividade. De fato, a partir de dados analisados, Gloor (1986) argumentou que as descargas inter-ictais, no hipocampo e amígdala isoladamente, foram mais do que suficientes para produzir alucinações complexas significativas – nenhuma participação do córtex foi necessária![…]

Para resumir, a confiança em alegações anteriores, de que o EEG plano representa inatividade total neural, parece gravemente equivocada. Estes casos podem representar situações de “falsos positivos” (positivo do ponto de vista dos ‘sobrevivencialistas’, que querem recrutar casos como estes como evidência contra a hipótese do ‘cérebro agonizante’). Além disso, mesmo na presença de EEG de fundo, atividade de convulsiva de base (que é suficiente para gerar imagens alucinatórias e auras) pode ser considerável e, ainda assim, pode não se manifestar através de registro de EEG corticais, através de eletrodos aplicados no couro cabeludo.”[Braithwaite, J.J. Towards a Cognitive Neuroscience of the Dying Brain The Skeptic, Volume 21, Issue 2 (2008)]

Mais um problema do artigo dos argumentos de van Lommel é que a presença, e o nível de anóxia, foi inferida, indiretamente, por meio de respostas a questionários sobre as informações médicas a respeito da natureza e da duração da parada cardíaca. Isto é, não foram empregadas medidas diretas dos níveis de anoxia para qualquer pessoa que participou do estudo em questão (Braithwaite, 2008, Crislip, 2008 e ver o próprio artigo de van Lommel et al., 2001). Este simples fato, aceitável do ponto de vista das restrições metodológicas de um estudo com estes, torna as alegações e as conclusões do trabalho muito além daquilo que os dados são capazes de apoiar. Isso ocorre porque a alegação fundamental do artigo repousa no pressuposto de que os pacientes tinham níveis comparáveis de anoxia (algo que nunca foi mostrado ser, de fato, o caso), assim isso torna-se bastante problemático para o argumento de van Lommel e seus colaboradores (Braithwaite, 2008). Por não haver nenhuma evidência direta, não havia, portanto, nenhuma razão real para assumir que este fosse o caso. Assim, toda a lógica em que se apóia as conclusões do estudo é posta em dúvida.

Além do já mencionado, Braithwaite (2008) deixa claro que van Lommel e seu colaboradores (2001) ignoraram totalmente a heterogeneidade dentro do cérebro e entre cérebros diferentes, ambas questões tendo implicações para os níveis de anoxia presentes, as taxas de iniciação, e como estes fatores poderiam ter impacto sobre a experiência vivenciada:

“Por exemplo, em termos de diferenças dentro do cérebro, Blackmore (1993) observou que, assim como existem muitas formas diferentes de anoxia (que tem diversas conseqüências neurofisiológicas), uma dada taxa de anóxia pode ter impacto desproporcional em áreas diferentes do cérebro devido a proximidade de células das artérias e capilares, a densidade e localização das células, sua conectividade e os níveis de demanda específicos e atividade dos sistemas neurais que estão sendo afetados (Blackmore, 1993, 1990; Woerlee, 2003). Em um sentido estrutural, diferente regiões do cérebro têm diferentes números de neurônios, com conexões diferentes e que têm diferentes demandas de oxigênio. […] Em termos de variabilidade entre os cérebros, uma linha de evidências, é que foi mostrado que os pilotos da força aérea tem diferentes limiares de G-LOC e podem tolerar (dentro de um certo limite) diferentes níveis de estresse e anoxia, antes de perder a consciência (Whinnery, 1997, 1990, ver. Blackmore, de 1993, para uma discussão). Nestas circunstâncias, a intensidade da força G pode ser controlada, mas claras diferenças entre os indivíduos existem. Estas diferenças refletem importantes características fisiológicas que claramente interagem com agentes de estresse externos. Assim, um determinado nível de anóxia pode ter impacto sobre a experiência de forma diferente entre diferentes indivíduos. O estudo de van Lommel et al. ignora estes bem conhecidos e bem documentados aspectos do modelo do ‘cérebro agonizante’.”[Braithwaite, J.J. Towards a Cognitive Neuroscience of the Dying Brain The Skeptic, Volume 21, Issue 2 (2008)]

Devido a todos estes fatores complicadores fica impossível determinar, pelos dados de van Lommel, uma correlação precisa entre o momento das NDEs e a suposta falta de atividade elétrica no cérebro. Crislip continua sua crítica ao afirmar que nenhum dos pacientes do estudo estavam ‘clinicamente mortos’ e muito menos em estado de morte cerebral. Este é um ponto importante já que existem vários critérios para o diagnóstico de morte cerebral, incluindo a total falta de evidências clínicas de função cerebral por exame físico, tais como a ausência de resposta à dor e a uma variedade de reflexos nervosos (ex: nervo craniano, a resposta pupilar, ou seja, pupilas fixas, olhar fixo, ausência de reflexo de piscar seguido a estimulação), além de nenhuma respiração espontânea. Sem mencionar o fato que os pacientes tem que estar livres de drogas e condições metabólicas que imitem a morte cerebral por vários dias, já que é importante distinguir entre morte encefálica e os estados que imitam a morte encefálica. [A maioria dos pacientes no estudo receberam um benzodiazepínico e / ou entorpecentes.] Além disso um EEG isoelétrico por dois dias, como pelo menos 24 horas de intervalo, é também muitas vezes exigido (veja Wijdicks, 2001; Escudero, 2009).

Como Crislip comenta: ‘a declaração de morte cerebral é um procedimento demorado e detalhado, como deve ser.’ Nenhum dos pacientes do estudo (e de nenhum outro), encontravam-se neste estado quando supostamente tiveram as experiências e depois voltaram para relatá-las. Portanto, as evidências para a correlação entre NDE e vida após a morte, ou experiências sobrenaturais, é ainda inexistente, sendo mais uma questão de gosto pessoal, alimentado pela nossa ignorância sobre os detalhes do processo.

Várias condições fisiológicas e psicológicas diferentes podem mimetizar, pelo menos, parte das experiências relatadas por quem vivencia uma NDE, o que sugere que vários mecanismos podem convergir para a indução de um padrão de atividade cerebral, particular, que provoque estas experiências. A principal aposta para explicar a NDE em termos fisiológicos é a depleção de O2, mas, sobretudo, o excesso de CO2. Este ano, um estudo publicado na revista Critical Care, executado por Klemenc-Ketis e colaboradores (2010), reforça esta hipótese e trás novos dados bastante sugestivos. Os autores deste estudo, ao comentar as críticas de Bruce Greyson (que afirma que a maior pressão parcial de dióxido de carbono (pCO2) pode ser apenas um indicativo de melhor capacidade de relembrar a experiência e não sua causa), citam um estudo sobre o efeito de meditação sobre a respiração nos lobos temporais. Este estudo indica que a maior pCO2, resultante de técnicas especiais de respiração empregadas durante a meditação, pode ser importante em provocar mudanças cognitivas e emocionais [Petersson Bouin Y: Effects of Meditation on Respiration and the Temporal Lobes: An Exploratory and Meta-analytic Study. Lund: Lund University Press; 2000. citado por Klemenc-Ketis (Greyson, 2010b)]. Além disso, altos níveis de pCO2, presumivelmente, tem um efeito excitatório sobre o sistema límbico, o que pode resultar no componente místico das NDEs.

A atitude de Greyson em rejeitar a conexão causal baseada em explicações plausíveis naturalistas, sem ter nenhuma alternativa efetiva, me parece contra-produtiva. Ela é resultado da utilização de dois pesos e duas medidas já que sua hipótese preferida não é clara o suficiente para ser diretamente testada. Ela exige que o cético explique em detalhes minuciosos todo o fenômeno, como se houvesse uma simetria epistêmica e operacional entre as duas teses, dualista e monista. Sem uma metodologia sobrenaturalista clara, os esforços dos que advogam a hipótese sobrevivencialista/sobrenaturalista, caso bem sucedidos, vão sempre acabar em mistérios, não em respostas. Caso esta realmente seja a verdade, que assim seja, mas com um prognóstico tão pouco explicativo medidas extras de controle e cuidado deveriam ser tomadas. Na falta de respaldo interteórico, e mecanismos subjacentes que possam ser investigados, os níveis de evidência e cuidado metodológico são incrivelmente maiores, pois pequenos erros têm um efeito muito mais sério. Algo que a comunidade de pesquisa mediúnica e parapsicológica nem sempre parece perceber, ao buscar qualquer ‘anomalia’ nos resultados de seus estudos e no excesso de confiança que depositam em análises estatísticas muito complicadas mesmo sem possuírem hipóteses científicas substativas claras e fecundas.

Este tipo de postura, no entanto, não é incomum. Por exemplo, a explicação para NDE como esta sendo mediada/causada por hipóxia foi prematuramente descartada por pesquisadores simpáticos à interpretação sobrenaturalista das NDEs (Woerlee, 2004). Porém, esta suposta refutação baseava-se em um estudo cuja medição pO2 havia sido feita por punção da artéria femural, um péssimo indicador de hipóxia cerebral. O mesmo tipo de atitude está presente nas conclusões do resumo do estudo de van Lommel:

“Nós não sabemos por que tão poucos pacientes que sofreram paradas cardíacos relatam NDEs após CPR, embora a idade pareça ter um papel. Com uma explicação puramente fisiológica para a experiência, tais como anóxia cerebral, a maioria dos pacientes que tenham estado clinicamente morto deveria relatar uma (Lancet. 2001 Dec 15;358(9298):2039-45.)”

Como comenta Crislip:

‘No entanto, o CPR bem feito não leva à anoxia cerebral. A maioria dos pacientes neste estudo não tiveram uma NDE porque receberam CPR, então eles tinham sangue e oxigênio fornecido ao cérebro, assim, eles não poderiam ter uma NDE mediada por anóxia (Crislip, Mark. “Near death experiences and the medical literature.” (2008) Skeptic 14.2 ).”

Como já foi comentado, a hipóxia e, especialmente, o aumento da pCO2, não pode ser descartada como explicação já que variabilidade na eficácia do CPR, e nas próprias características metabólicas e clínicas dos pacientes, é esperada. Portanto, as conclusões de van Lommel não são sustentadas por evidencias.  O primeiro ponto é que a anóxia nem mesmo é o fator fundamental em que se sustenta a hipótese do ‘cérebro agonizante’. Em princípio, então, anoxia não precisa estar presente em todas as circunstâncias para produzir NDEs. No entanto, em casos onde as pessoas estão em estado de “quase morte”, ou sofrem de insuficiência cardíaca durante um período prolongado de tempo, é plausível que um certo grau de anoxia estaria presente. O fator principal é a desinibição cortical que pode ser causada por vários fatores, principalmente níveis particularmente, baixos de anóxia (com uma taxa de iniciação intermediária) ou elevação da pCO2, dentre vários outro. Então como salienta Braithwaite:

“Portanto, enquanto a anóxia é uma rota através da qual pode ocorrer desinibição, de nenhuma maneira, esta seria a única rota. Além disso, a hipótese do ‘cérebro agonizante’, prevê que as NDEs mais vívidas, profundas e significativas estarão provavelmente associadas com maior grau de desinibição cortical. Assim, NDEs relatadas quando as pessoas realmente estão mais próximas da morte (e, conseqüentemente, com o nível de desinibição maior), devem ser mais vívidas, profundas, detalhadas e significativas, em relação ao relatado quando as pessoas só acreditam ser assim. Este é exatamente o que foi encontrado (Drab, 1981; Gabbard e Twemlow, 1984; Gabbard, Twemlow, & Jones, 1981; Owens, Cook, & Stevenson, 1990).”[Braithwaite, J.J. Towards a Cognitive Neuroscience of the Dying Brain The Skeptic, Volume 21, Issue 2 (2008)]

O papel da desinibição cortical, subjacente a estas percepções e alucinações, é evidenciado pela baixa tolerância do cérebro a estados anormais, dos quais a anóxia é apenas um deles, especialmente pela forma como o cérebro reage normalmente a estas situações. Boa pate da confusão vem da citação do caso de Pam Reynolds, que teria experimentado uma OBE durante uma cirurgia em condições muito mais bem controladas e definidas, supostamente em um ponto onde ser corpo encontrava-se resfriado e seu EEG, uma linha reta. Porém, ao analisar os registros detalhados deste caso, especialmente o curso temporal dos eventos durante a cirurgia, e compará-lo ao relato da NDE, a hipótese de saída do corpo, e independência da atividade consciente do cérebro, não encontra suporte. Keith Augustine, constata que as informações supostamente obtidas, através de uma experiência fora-do-corpo, durante a NDE, quando a paciente deveria encontrar-se sem atividade elétrica cerebral discernível, na realidade, aconteceram em um momento diferente (Para maiores detalhes veja Hallucinatory Near-Death Experiences). O anestesiologista G.M. Woerlee chega a conclusões semelhantes ao examinar o mesmo caso descrendo este e outros casos de forma bem minuciosa em seu site. Esta situação poderá mudar em um futuro próximo com a execução de grandes estudos multi-centro com pacientes que sofre em parada cardíaca ou cirurgias que envolvem a paralisação temporária do coração, em que estejam presentes no teto da sala de cirurgia alvos escondidos que só poderiam ser observados de cima, como supostamente ocorreria em uma OBE verídica (Awarer Study, liderado por Sam Parmia). Alguns destes estudos já foram realizados, sem resultados positivos. Porém, várias falhas e detalhes de delineamento podem gerar resultados espúrios e enganosos,como comenta Sebastian Diegues, em artigo no Skeptical Inquirer:

No entanto, parece que essas “imagens ocultas” não serão “geradas aleatoriamente” depois de tudo, mas serão fotos simplesmente pré-instaladas em uma placa. São, alegadamente, cerca de 750 deles já espalhadas por diferentes áreas do hospital. Não está claro se estas fotos serão periodicamente alteradas, quem estará ‘cego’ ao seu conteúdo e quem não estará, quando eles serão removidos, e assim por diante. Os exemplos incluem um bebê ou um cão-de-rosa.”[Dieguez Sebastian NDE Experiment: Ethical Concerns Skeptical Inquirer Volume 33.5, September/October 2009]

Por isso é preciso ter muito cuidado na condução e interpretação destes estudos. Em franco contraste com as interpretações espiritualista das NDEs e OBEs, alguns pesquisadores, como Thomas Metzinger (Blanke & Metzinger, 2009), tem sugerido que nossas crenças em uma realidade sobrenatural e da perspectiva de sobrevivência da consciência individual à morte do corpo, tenham se originado de fenômenos autoscópicos (como as OBEs), NDEs e fenômenos associados, em uma completa virada conceitual em relação as crenças tradicionais de que um mundo espiritual esteja por trás da supostas experiências espirituais. Este modelo reconhece a existência destes fenômenos como experiência subjetivas vivenciadas, porém, dando enfase a sua origem natural com base na compreensão do cérebro humano e dos processos cognitivos.

Em suma, a hipótese dualista que buscar conciliar os resultados da pesquisa científica, em psicologia e neurociências, com a idéia de uma alma imaterial (funcionando como um “fantasma da máquina”) não resiste a um exame mais detalhado de suas conseqüências empíricas, especialmente quando investigamos os resultados de estudos de casos de neurologia clínica e neuropsicologia. Pacientes que se recuperaram de lesões que comprometiam faculdades intelectuais superiores, envolvendo cognição e abstração mental, não relatam que elas estavam intactas no momento que eram acometidos pelas patologias e debilidades, mas que eram apenas incapazes de receber/enviar informações sobre elas. Certos tipos de danos neurológicos que alteram a personalidade dos indivíduos ou que afetam suas capacidades de se vincular emocionalmente a outras pessoas, bem como alucinações ‘cartunescas’, que não podem ser interpretadas como um encontro (ou percepção de) com entidades sobrenaturais, também não são facilmente conciliáveis com a tese dualista. Estas alterações na matriz pessoal ou no próprio conteúdo consciente, e não na sua nitidez ou transmissão dele, são muito melhor explicados como produtos cerebrais e não oriundos do mal funcionamento da recepção e transmissão de padrões mentais de (para) uma mente desencorporada.

As evidências provenientes de estudos sobre a ação de psicofármacos em seres humanos (principalmente drogas psicodélicas e alucinogênicas), em conjunto com pesquisas em psicobiologia e neurobiologia comparativa – ex: investigações em modelos animais, particularmente estudos com ratos, gatos e macacos- somam-se aos dados e teorias da neurociência cognitiva, neurologia clínica, neuropsicologia, além das perspectivas evolutivas assumidas nos estudos comparativos, reforçando a tese naturalista.

Eu tenho toda a simpatia pela postura da Suzana em evitar confrontos. Afinal, ela é professora e uma figura publica. Entretanto, creio que existe uma assimetria monstruosa entre as visões naturalistas e sobrenaturalistas. Mesmo que não possamos provar (no sentido absoluto do termo) que não exista uma realidade transcendente, a questão metafísica por trás da discussão não é uma mera questão de opinião. Aceitando nossas limitações epistêmicas, contando com nossos sentidos e nossas faculdades intelectuais (ambas falíveis), podemos, mesmo assim, investigar e tirar certas conclusões. Fazemos isso lançando mão de nossa experiência pregressa, mas, principalmente, através das ferramentas teóricas e conceituas da lógica e filosofia; e dos métodos e procedimentos das ciências. Estas atividades levadas a cabo por uma comunidade de investigadores criticamente engajados não foi capaz, até hoje, de nos revelar nada de sobrenatural, mesmo tendo surgido em um contexto em que as visões místicas e religiosas eram predominantes.

As ciências avançaram (é que verdade que de maneira bastante não-linear) e tornaram-se independentes das religiões e da teologia, oferecendo uma perspectiva única e criticamente sem igual. Por isso, creio que as conclusões mais prováveis e robustas levam-nos a crer que nada de sobrenatural exista, e o ônus em mostrar que esta conclusão esteja errada é dos crentes.

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