Não adianta espernear, não existe uma neurociência não-materialista.

ResearchBlogging.org“Às vezes não é claro se se deve falar ou calar. É especialmente nebuloso quando confrontado com argumentos falhos, sem apoio em qualquer evidência convincente, mas que reivindicam apoiar conclusões drasticamente radicais. Será que engajar-se nestas questões emprestará legitimidade espúria, ou é melhor para cortar logo o mau pela raiz? Esse é o enigma colocado pela chamada “neurociência não materialista”. (Clark, 2010).

O filósofo Andy Clark expõe os vários problemas por trás desta suposta abordagem investigativa em artigo publicado recentemente na revista Cortex (Cortex. 2010 Feb;46(2):147-9.).

Esta curiosa quimera, “a neurociência não-materialista”, é encabeçada pela jornalista e blogueira conservadora, ‘pós-darwinista’, Denyse O’Leary e por alguns pesquisadores, como os neurocientistas Mario Beauregard e Jeffrey Schwartz, o primeiro deles co-autor,  com O’Leary, de um livro sobre o tema, The Spiritual Brain: A Neuroscientist’s Case for the Existence of the Soul (veja a crítica de PZ Myers no blog Pharyngula).

No cerne desta suposta nova abordagem científica está a alegação de que “a mente existe e usa o cérebro, mas não é a mesma coisa que o cérebro” (Beauregard & O’Leary, 2007 apud Clark, 2010).

Esta alegação, contudo poder ser interpretada de duas formas diferentes. Uma delas um tanto trivial, pelo menos a uma primeira olhadela, mas que tem repercussões interessantes em relação a como encarar a mente e mesmo a consciência. Porém, é na segunda forma, de interpretar esta afirmação, que os reais problemas se escondem. Sabendo que O’Leary (assim como  Schwartz) é uma simpatizante do Design Inteligente já podemos ter uma boa idéia de que alguma coisa mais audaciosa e tola está implícita na alegação anteriormente apresentada. Aqui também estão em jogo as supostas evidências para uma mente imaterial e separada do corpo, mas que ao mesmo tempo é capaz de controlá-lo e usar as informações angariadas pelos sistemas sensoriais disponíveis mesmo sendo algo fora deste mundo. Um ‘fantasma da máquina’, para utilizar da expressão cunhada pelo filósofo Gilbert Ryle é o que passa ser o alvo das investigações desta suposta nova forma de fazer neurociências (Clark, 2010).

Como Clark deixa bem claro, a implicação pretendida por O’Leary, Beauregard e Schwartz é que a mente (ou pelo menos parte dela) está “totalmente fora da ordem natural, o inebriante – ou talvez não tão inebriante – reino da alma ou espírito não-material” (Clark, 2010).

Clark, como um defensor da primeira interpretação da alegação de O’Leary, faz questão de separar as duas interpretações e as conclusões que podemos tirar a partir delas:

Assim, como alguém poderia razoavelmente argumentar que exite mais, digamos, na aderência ao asfalto, do que o explicado unicamente pela análise da estrutura e do desempenho do motor do automóvel, pode-se sugerir que há mais da cognição humana do que aquilo que encontramos só ao olhar para a estrutura, atividade e função do cérebro/CNS sozinho (Clark, 2010).

Não é preciso muito para perceber que esta reivindicação é satisfeita ao nos darmos conta de que muito do nosso sucesso intelectual enquanto espécie, para parafrasear Clark, advém da forma como nós temos, ao longo do tempo, lentamente, estruturado o nosso ambiente de um jeito que cérebros como os nossos – ao trabalhar em conjunto com os apetrechos e arcabouços externos corretos – podem resolver problemas que deixariam doido qualquer agente humano desavisado, por exemplo de uma cultura muito diferente:

“Pense em canetas, PCs, iPhones e similares. Mesmo contar com os dedos, ou determinadas maneiras de se decorar um bolo, podem ser vistas como a criação de um circuito de resolução de problemas que potencialmente combina elementos neurais e não neurais. Há aqueles também (e eu me incluo entre eles), que iriam mais longe, argumentando que nós, seres humanos, às vezes somos capazes de criar e manter estruturas de resolução de problemas em que elementos neurais, corporais e mundano/ambientais (wordly) são tão densamente e complexamente interligados que passa a valer a pena tratar todo o conjunto como uma espécie de arquitetura cognitiva distribuída em seus próprios termos.” (Clark, 2010)

A visão esposada por Clark é estudada em campos legítimos da investigação científica em nas áreas e abordagens para as ciências cognitivas conhecidas como cognição situada, incorporada, enativa ou estendida. Existem sem dúvidas muitos pontos debatidos e argumentos prós- e contras, além de muita discussão sobre várias questões referentes a estas formas de investigar e encarar a cognição.

Contudo, não existe  nenhum indício, até mesmo entre aqueles pesquisadores que defendem as formas mais radicais destas abordagens,  qualquer referência a influência de um domínio  não-material espiritual sobre o cérebro.  As abordagens situadas e estendidas de cognição são tão materiais quanto as formas mais tradicionais de ciências cognitivas (Clark, 2010).

Então, onde diabos os neurocientistas não-materialistas encontram suas evidências?

Os argumentos seguem duas vias. A primeira via viria do fato de que certas manifestações de estados mentais podem influenciar os estados do cérebro, e a segunda, seria uma decorrência da ausência de uma explicação plenamente satisfatória materialista contemporânea para a chamada experiência consciente, propriamente dita.

A primeira via argumentativa é ilustrada pelas atitudes do neurocientista Mario Beauregard que parece se  impressionar com o simples fato de que o pensamento deliberado pode afetar a atividade neuronal. A mudança voluntária de atenção de um sujeito, provoca mudanças no estado de ativação cerebral detectáveis através de um sistema de neuro-imageamento.

“Beauregard e seus colegas descobriram que os indivíduos foram capazes de inibir a excitação sexual deliberadamente durante a visualização de imagens eróticas. Eles descobriram também que circuitos específicos do cérebro eram ativadas durante este processo.” (Clark, 2010)

Este tipo de experimento é completamente legítimo e realmente suporta uma parte das conclusões de Beauregard. Claro, apenas àquelas mais convencionais como o fato da “auto-regulação emocional é normalmente implementada por um circuito neural que inclui várias regiões pré-frontais e subcorticais estruturas límbicas” (Beauregard et al, 2001, p. 1 apud Clark, 2009).

Até aí nada demais, porém, a partir de observações tão simples e incontroversas Beauregard  reivindica de que seus resultados são evidência de que a partir do fato de que estados e conteúdos da mentais comprovadamente afetam estados cerebrais, as mentes não podem totalmente instanciadas no cérebro, nem nas relações deste com o ambiente e nem em nenhum lugar de nosso mundo físico.

Mesmo que ainda saibamos pouco sobre o funcionamento do cérebro e que nossa familiaridade com outros sistemas complexos capazes de se auto-modificar seja muito limitada e, portanto,  nem sempre podemos contar com nossas intuições, ainda assim, certamente, não há nada de especial nos experimentos de Beauregard que nos faça a precisar de suas conclusões não-materialistas (Clark, 2010).

Estamos apenas vendo um caso em que um estado do cérebro influencia outro estado cerebral. No caso em apreço, complacente processar o comando verbal para tentar não se tornar impactos despertou alguns aspectos da atividade neural de modo que em outros aspectos por sua vez o impacto da atividade neural.

O pensamento deliberado que afeta os estados do cérebro e modifica a excitação posterior é ele mesmo instanciado no cérebro, portanto, não a mistério de onde vem o estado mental desencadeador do processo. Isso é exatamente o qualquer materialista esperaria. Estamos lidando com complexas redes causais que estão em ação em um sistema dinâmico completamente funcional, mas mesmo assim, os resultados relatados por  Beauregard não são mais surpreendentes do que o fato de que a ingestão de um produto químico pode afetar a forma como nos sentimos. Influências internas ou externas aos sistemas são igualmente materiais, ou pelo menos, não a há nada nos dados de Beauregard que nos leve a pensar o contrário:

“O fato de que “os seres humanos têm a capacidade para influenciar a dinâmica eletroquímica de seu cérebro, voluntariamente mudando a natureza da mente os processos se desenrolam no espaço psicológico” (op cit p. 1) é tão mundano como o fato de que nós podemos usar um das nossas mãos para tocar o outro. ” (Clark, 2010)

Jeffrey Schwartz trabalhando com PET (tomografia por emissão de positrons) tenta oferecer o mesmo raciocínio torto de Beauregard, mas  desta vez, ao mostrar evidências que a terapia cognitivo-comportamental (TCC) para o transtorno obsessivo compulsivo (TOC) consegue causar mudanças detectáveis nos circuitos do cérebro funcional. De novo, nada além do esperado por qualquer bom e velho naturalista fisicalista.

O problema parece ter sua origem no fato de que tanto Beauregard como Schwartz , simplesmente, definem a mente como imaterial e não-físico, usando isso como premissa básica, e daí usam os seus resultados  para concluir pela imaterialidade da mente e a existência de um espírito não-físico. Porém, isso é uma mera petição de principio. Eles já de cara assumem aquilo que deveriam provar ou concluir.

“É, afinal, uma previsão da  boa e velha neurociência materialista que vários episódios mentais e formas de pensamento deveriam sistematicamente alterar os padrões de atividade neuronal. Eles fazem isso não por serem eles próprios não-neurais (e muito menos não-materiais), mas por ser, no fundo, nada mais do que formas de estados e atividade neuronal: os que sistematicamente alteram outros estados e atividade neuronais.” (Clark, 2010)

Como bem lembra Clark, em toda a história do pensamento e empreendimento intelectual humano, não há um único caso bem documentado e com evidências robustas e replicadas em que algo, verdadeiramente, não-material (ou seja, que não tenha existência física) tenha feito a menor diferença em relação a qualquer coisa, mesmo nos campos mais exóticos como a física quântica em que o próprio Schwartz  já tentou apelar como recurso retórico (Schwartz et al. 2005 apud Clark, 2010).

É bem verdade que algumas coisas que não consideramos possuir uma materialidade típica podem ter grandes resultados emocionais e produzir enormes respostas cerebrais. Pense em descobrir que sua conta de banco está zerada, sem nenhum aviso prévio ou espectativa para tal; ou ainda, pense no caso de vc descobrir que o seu bilhete de loteria é o premiado. Estes  estados de coisas cujos efeitos físicos são bastante reais, mesmo não possuindo uma fisicalidade óbvia, nem por isso são menos impactantes ou mais “espirituais”. As relações físicas por trás do contexto social que dá valor ao bilhete de loteria ou a visão na tela de uma caixa eletrônico que indica um saldo zerado e estas situações e as representações cognitivas instanciadas nos sistemas neurais e sensoriais que carregam estas informações são completamente físicas, portanto, explicáveis sem recorrer ao sobrenatural.

“Os sistemas físicos em que estados materiais codificam ou “servem como” informação podem, como as abordagens computacionais têm nos mostrado mais de uma vez, se comportarem de maneiras que são sistematicamente sensíveis às informações assim codificadas. Nestas cascatas mundanas de causa e efeito, nenhum impulso espiritual é necessário ou provido. ” (Clark, 2010)

Por fim, o desespero que acomete os anti-materialistas faz com que só lhes reste a segunda via argumentativa, isto é, questionar diretamente a base física da experiência consciente em si, mas como resume muito bem Clark:

“Como, simplesmente, (alguns) alguns sistemas materiais vem experienciar seus mundos? Como é que eles vêm a ser os tipos de sistema que podem sentir dor, apreciar uma sinfonia, ou provar uma margarita? Apesar de algumas pistas e uma série de progressos reais, nós ainda não sabemos. Mas note que não há absolutamente nada de novo e produtivo que o “neurocientista não-materialista ” traga à mesa aqui. Uma vez que se vai além dos laivos de pseudo-argumentos esboçados acima, tudo o que resta é a esperança ingênua de que se a ciência materialista não tenha feito ainda, talvez alguma possa ser feita de alguma forma pela “ciência não-materialista”. O problema é que quando você olha para os artigos, não há “neurociência não materialista” realmente a oferecer: não há novas previsões, nem resultados inesperados obtidos.  Não há neurociência não-materialista. Apenas a neurociência que já tínhamos.” (Clark, 2010)

Imagino que para os familiarizados com o assunto, os argumentos lançados por gente com O’Leary, Schwartz e Beauregard assemelham-se muito aos utilizados pelos Criacionistas do Design Inteligente (CDI), talvez, com a diferença de que a mente humana vem sendo investigada de forma sistemática a bem menos tempo, do que a evolução biológica, e só nas últimas décadas é que as neurociências, as ciências cognitivas e a filosofia da mente assumiram sua orientação naturalista, a muito já implícita.

Não há substância alguma nas críticas dos anti-materialistas (anti-fisicalistas ou anti-naturalistas, se preferir) e não existe nenhum programa de pesquisa científico claro que possa ser chamado de “neurociência não-materialista”, assim como não há nada semelhante em relação ao Design Inteligente. O que existe são apenas falácias  e distorções dos resultados científicos que quando examinados de perto são completamente compatíveis com a tradição naturalista metodológica que tem sido tão importante na investigação científica. Portanto, a chamada neurociência não-materialista e o Criacionismo do Design Inteligente são simplesmente tentativas patéticas e desesperadas de disseminar a ignorância e a confusão.

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Referências:

Créditos das Imagens:

3D4MEDICAL.COM / SCIENCE PHOTO LIBRARY
CENTRE JEAN PERRIN, ISM / SCIENCE PHOTO LIBRARY
SHEILA TERRY / SCIENCE PHOTO LIBRARY
HANNAH GAL / SCIENCE PHOTO LIBRARY
CAROL & MIKE WERNER, VISUALS UNLIMITED /SCIENCE PHOTO LIBRARY
ALEXANDER TSIARAS / SCIENCE PHOTO LIBRARY
JACOPIN / SCIENCE PHOTO LIBRARY
WELLCOME DEPT. OF COGNITIVE NEUROLOGY / , SCIENCE PHOTO LIBRARY

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3 Responses to Não adianta espernear, não existe uma neurociência não-materialista.

  1. Eli Vieira says:

    Muito bom. Faz tempo que estou planejando adentrar as ciências cognitivas e ler Andy Clark, este foi um ótimo aperitivo.

    Grande abraço! Feliz 2011!

    • rodveras says:

      Valeu, Eli. Esta abordagem situada, ou sensório-motora (e que tem outros tantos nomes), para as ciências cognitivas é muito interessante e Andy Clark é um dos seus principais divulgadores. Deriva, em parte, das idéias de Maturana e Varela, entre outros. Principalmente do conceito de acoplamento estrutural e de fechamento (clousure) cognitivo dos seres vivos. As chamadas versões estendidas, como a de Clark, divergem bastante em relação as conclusões de Varela e Maturana (que não acreditam na idéia de “representação” ), mas são muito interessantes e, em muitos sentidos, mais intuitivas. O campo é bem dinâmico e produtivo. Gosto muito da idéia de encarar a cognição como um processo incorporado e ativo que ocorre no mundo. Os Behavioristas chegaram perto disso, como os comentários do Marcos no Bule mostram, mas ao excluírem o cérebro e a dinâmica interna espontânea dele, na minha opinião, simplesmente deram um tiro no pé e foram soterrados pelos funcionalistas cognitivistas. Hoje as coisas mudaram e as abordagens computacionalistas clássicas estão se esgotando e os Behavioristas estão voltando a reclamar parte do terreno (com toda a razão), mas insistem em algumas coisas que considero contra-produtivas e, sem falar no fato de usarem de compararem o cognitivismo com o criacionismo, o que acho despropositado. É só ver a quantidade de trabalhos e experimentos, desde os anos 50 e 60, que esta corrente inspirou e propiciou para se ter uma idéia da diferença brutal do cognitivismo computacionalista para qualquer pseudociência. A metáfora computacional serial pode até ser bem falha, mas ajudou (e ajuda até hoje) bastante. Portanto, como heurística foi genial, ainda que ter ostracizado o behaviorismo tenha sido uma conseqüência ruim. Infelizmente a psicologia ainda tem muito o que amadurecer, mas ainda é um dos campos mais interessantes de pesquisa científica que temos.

      Abraços e feliz ano novo.

      Rodrigo

  2. Pingback: A motoserra de Occam e as experiências-de-quase-morte | calmaria&tempestade's Blog

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