O misterioso silêncio

O físico Paul Davies lançou recentemente o livro “The Eerie Silence” no qual faz um balanço do programa SETI e das perspectivas da astrobiologia.

Davies, apesar de um entusiasta do programa SETI, propõe-se a oferecer uma visão crítica sobre esta iniciativa, apontando, especialmente, para o certo paroquialismo implícito em muitas das suposições deste programa. O silêncio misterioso é exatamente os cerca de 50 anos de resultados negativos do SETI (talvez, apenas, com uma exceção). Porém a crítica de Davies ao SETI visa torná-lo mais robusto e mais efetivo em sua capacidade de rastrear sinais alienígenas menos cerceadas pela nossa própria auto-imagem.

Os capítulos iniciais que contam a história do SETI, discutem sua cientificidade, limitações e pressuposições são muito bem escritos e de fácil assimilação. A discussão sobre a origem da vida e das peculiaridades e generalidades envolvidas no processo são também bastante interessantes. A busca por novas formas de vida menos dependentes da bioquímica como a conhecemos atualmente tem implicações importantes para os programas de astrobiologia.

O próprio Davies tem uma participação nesse processo ao trabalhar junto como bioquímicos e microbiologistas, inclusive, participando como autor no polêmico artigo  publicado na revista Science em 2010 que relatava a descoberta de uma cepa bacteriana GFAJ-1 altamente tolerante ao arsênio e que (supostamente) incorporava este elemento em seu DNA substituindo o fosfato em seu “esqueleto”. Alegação essa que foi atacada em peso por diversos cientistas e atribuída a artefatos metodológicos.  No livro escrito, antes da publicação do artigo, Davies já comenta sobre a possibilidade de existir microrganismos com “DNA de arsênio”, hipótese já conjecturada e perseguida pela microbiologistas Felisa Wolfe-Simon, a primeira autora do artigo, e colaboradora de Davies. A discussão sobre outras estranhas possibilidades como as nanobactérias, formas de vida baseadas em apenas 2 nucleotídeos (dos quatro conhecidos A, T, C, G) ou, até mesmo, usando nucleotídeos e aminoácidos diferentes ou, pelo menos, isômeros óticos diferentes, é também bastante interessante.

Como não terminei de ler o livro ainda, não posso afirmar se Davies mantem a qualidade no resto do volume, mas até agora tem sido uma leitura rica e tremendamente prazerosa que coloca a crítica e o cuidado em primeiro lugar, mas sem jamais perder a excitação do campo, mesmo que as perspectivas de contato sejam muito, muito, muito, mas muito pequenas mesmo (talvez devesse acrescentar mais alguns “muito”).

O tom de Davies, pelo menos em certos trechos do livro, no entanto, me sugere um leve misticismo. Um maravilhamento com as particularidades dos sistemas biológicos (que eu mesmo partilho), mas que o faz abusar um pouco de termos como “milagre”, mesmo que ele seja bastante avesso a atrelar explicações científicas a ideia de sobrenatural. Talvez a formação de físico de Davies (e, portanto, sua falta de imersão em biologia) seja o maior responsável por esta escolha de palavras, mas o fato dele ser um ganhador do Templeton Prize (em 1995)- que basicamente dá prêmios à cientistas e outros intelectuais que “vejam” “pontes” e afinidades entre as ciências e as religiões – fico na dúvida.

Mas a (quase)simpatia pelo “misticismo” (talvez, nem essa mesma seja a palavra ideal no caso dele) de Davies e até por alguma forma de Teísmo ou Deísmo (como sugere o prêmio Templeton de 1995) não deve espantar os leitores mais céticos, afinal o livro, além de bem escrito, apresenta de forma muito fidedigna as questões de base e distinguem o que é mais concreto do que é mais especulativo e suas digressões fora da ciência são melhor vistas como uma questão de estilo do que algo que comprometa a qualidade do livro. A atitude crítica que esperamos de um cientista permeia o livro e o assunto é deliciosamente interessante.

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  • Davies, P.C. (2010) The Eerie Silence: Are we alone?, Allen Lane (para a Penguin Books) # ISBN-10: 1846141427 ISBN-13: 978-1846141423.

  • Wolfe-Simon, F., Blum, J., Kulp, T., Gordon, G., Hoeft, S., Pett-Ridge, J., Stolz, J., Webb, S., Weber, P., Davies, P., Anbar, A., & Oremland, R. (2010). A Bacterium That Can Grow by Using Arsenic Instead of Phosphorus Science DOI: 10.1126/science.1197258

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