A guilhotina e a “onda da morte”!

Pense em Danton e Robespierre. Pense em Maria Antonieta e Luís XVI. Todos eles tiveram um fim trágico durante o período que se seguiu a revolução Francesa e em que a guilhotina era o instrumento básico das execuções, principalmente, durante o chamado período do Terror que durou de 1793 a 1794 em que mais de 30 000 pessoas podem ter tido seu fim desta forma. A guilhotina só foi abolida como instrumento de execução no final do século passado junto com a abolição da pena de morte em 1981, com a última execução deste tipo tendo ocorrido em 1977.

Quem nunca se perguntou como seria este processo ou já não ouviu histórias de que os carrascos catavam as cabeças nos cestos e verificavam se os olhos ainda moviam-se ou se a cabeça dos indivíduos ainda tentava esboçar algum movimento? Quem nunca se imaginou sendo decapitado e cogitou como seriam os instantes subseqüentes e meditou sobre o tipo de sofrimento, e o tempo do mesmo, a que estaria sujeito? Tá, talvez você não tenha se perguntado isso, mas muita gente deve tê-lo feito. Eu sei que eu fiz.

A decapitação é uma das práticas de eutanásia adotadas para roedores (particularmente ratos, gênero Ratus) em muitos laboratórios de biociências espalhados pelo mundo todo, e com a crescente preocupação com o bem estar animal, especialmente nas últimas décadas, torna-se cada vez mais necessário investigarmos o quão eficientes e humanos são este e outros métodos. Estudos destes tópicos podem soar e até parecerem bizarros, mas são tremendamente importantes. Sem dados reais e robustos, coletados de forma sistemática, qualquer discussão está sujeita a, simplesmente, tornar-se uma disputa de meras opiniões entre facções divergentes.

“Decapitação em ratos: Latência até a inconsciência e a ‘onda da morte'”. [Se esse não é o melhor título de paper, em anos, eu não sei mais o que é um bom título.]

O artigo da revista PloS One analisa o tempo de latência e a perda de consciência em ratos anestesiados e não anestesiados, e trás alguns resultados bastante interessantes.

Existem muitas suposições que podem ser contestáveis por trás dos experimentos, ainda que tenham certo respaldo experimental e pareçam bastante plausíveis.

Os próprios autores levantam a possibilidade das medidas de EEG utilizada não serem bons indicadores de consciência, sobretudo por que  os perfis de EEG pós-decapitação em ambos os grupos de animais (despertos e anestesiados) se assemelham muito uns aos outros – perdendo metade de sua potência na bandas entre 1 e 100 e 13 e 100Hz (considerada indicativa de funções cognitivas) em cerca de 4 segundos.  Contudo, os padrões pós-decapitação em animais anestesiados podem, na realidade, indicar que eles readquirem consciência, por um breve período, logo após a decapitação.

Entretanto, o filé-mignon do artigo é que “surpreendentemente, depois de 50 segundos (grupo acordado) ou 80 segundos (grupo anestesiado), após a decapitação, uma alta amplitude de ondas lentas foi observada. O EEG antes dessa onda tinha mais potência do que o sinal após a onda.

Os autores sugerem que essa onda pode ser resultado da “perda maciça simultânea  de potenciais de membrana dos neurônios“. Talvez, os canais iônicos – as pequenas proteínas transmembrana que permitem o influxo e efluxo de íons entre os meios intra e extra-celular que mantêm o potencial de membrana intacto antes da onda – que estejam ainda em funcionamento poderiam explicar a diferença de potência que os pesquisadores relataram.

Caso as suposições por trás da correlação entre as medidas de EEG utilizadas e a “consciência desperta” estejam corretas, os resultados podem indicar que consciência declina exponencialmente, desaparecendo poucos segundos após a decapitação. Isso indicaria que a decapitação é uma estratégia rápida e relativamente eficiente, portanto, não sendo um método cruel de eutanásia. Outra das conclusões propostas no estudo é que a onda registrada, aproximadamente um minuto após a decapitação, poderia indicar a fronteira definitiva, uma espécie de ponto de não retorno, entre a vida e a morte. Isso por si só pode ter implicações ainda mais vastas inclusive nos protocolos de determinação da morte encefálica em seres humanos.

Esse estudo também ajuda pessoas como eu a tentar imaginar melhor como seria a vida, na realidade o fim dela, na França revolucionária a caminho da guilhotina ou, na verdade, logo que a lâmina baixasse.

___________________________

  • Rijn CMv, Krijnen H, Menting-Hermeling S, Coenen AML, 2011 Decapitation in Rats: Latency to Unconsciousness and the ‘Wave of Death’. PLoS ONE 6(1): e16514. doi:10.1371/journal.pone.0016514

About rodveras

I'm a biologist and science writer who loves philosophy and sciences.
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6 Responses to A guilhotina e a “onda da morte”!

  1. peeeeeeee says:

    Isso pode acabar servindo de base para a questão de abate “humanitário” quanto a bois, galinhas, porcos entre outros animais “comestíveis”. Apesar que decapitá-los seriam aparentemente mais cruel.

    • rodveras says:

      Sem dúvida. Alguns anos foi publicado um estudo sobre eutanásia com CO2, antes tido como um dos métodos mais humanitários e dos mais rápidos, mas ele provocava um grande desconforto em camundongos quando medido usando certos protocolos.Nem sempre aquilo que nos parece menos chocante é de fato menos sofrido.
      Estou atrás de uma publicação sobre eutanásia com sangria por degola com o animal de cabeça para baixo. Li há muitos anos, mas não consigo encontrar a referência. Mas essa é outra técnica que parece ser muito rápida. Apesar de ser visualmente muito chocante e o ato de pendurar o animal de cabeça para baixo, aparentemente, causar muito desconforto e estresse. O EEG também tinha uma queda abrupta em poucos segundos.

      Abraços,

  2. Eli Vieira says:

    Nossa! Seu blog tá cada vez melhor, Rodrigo. Quando eu crescer quero ser igualzinho a você. Vou ler agora o post sobre o método científico, deve estar ótimo como este.

    Abração

  3. Esse estudo é bem interessante, Rodrigo, não conhecia. Reforço o elogio que o Eli fez ao teu blog, pois além de me interessar mt pelos mesmos temas que tu aborda acho que vc escreve mt bem! Parabéns pelo ótimo trabalho que tu desenvolve aqui!

    Por sinal, vc conhece o Projeto Livres Pensadores? É um projeto que reúne vários blogs de ciência, ceticismo e humanismo, ai a cada atualização que vc fizer o texto é divulgada no twitter e facebook para os seguidores do projeto. Acho que o teu blog seria mt bem vindo, se vc ficar interessado entra nesse link abaixo:

    http://projeto.livrespensadores.org/

    um abraço,
    André

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