Alguns links interessantes sobre a ‘má’ memória da água.

Pelo jeito ninguém morreu e nem passou mal durante a tentativa de overdose com homeopatia realizada na semana passada por grupos em várias partes do mundo. Continuando o post sobre o programa “fronteiras da ciência“, discutindo a implausibilidade de efeitos específicos das preparações homeopáticas ultra-[hiper-mega-giga]diluídas e a falta de evidências clínicas minimamente robustas que as tornem adequadas para qualquer condição clínica específica, resolvi postar alguns links com  informações interessantes sobre o assunto e fazer mais alguns comentários.

Os artigos do físico Philip Ball, que escreve na revista Nature, são particularmente informativos, sendo tremendamente esclarecedores. Um dos principais interesses de Ball é a água. Sim, nossa famosa e querida H2O, e suas propriedades físicas. Ball, em dois artigos de opinião publicados na revista Nature e em posts em seus blogs (aqui e aqui) pessoais, discute uma série de alegações sobre os resultados de algumas pesquisas que, segundo os simpatizantes da homeopatia, revelariam possíveis pistas para compreendermos os supostos mecanismos para a ação de soluções ultra-[hiper-mega-giga]diluídas em preparações biológicas. Essa linha de investigação e alguns resultados bem estranhos foram apresentados em uma edição especial da revista Homeopathy, da Elsevier.

O primeiro problema é que boa parte dos artigos, simplesmente, parecem ser apenas especulações desvairadas e sem muito apoio experimental. A outra parte deles, que envolve estudos experimentais, concentra-se em supostas anomalias encontradas em soluções ultra-[hiper-mega-giga]diluídas (na realidade, nas quais o ingrediente ativo foi ‘lavado‘ para fora da solução); ou diferenças entre preparações homeopáticas e não homeopáticas descobertas através do uso de uma série de métodos de análise instrumental, como espectroscopia de UV-V ou termoluminescência.

Infelizmente, em nenhum desses estudos são tomados cuidados mínimos que seriam esperados para garantir que as soluções não tenham sido contaminadas. [Por exemplo, realizar o processo de diluição serial e potencialização no próprio laboratório em condições estéreis e certificar-se que não há realmente a presença do soluto original ou contaminantes que possam ser responsáveis pelas diferenças através de análise química das soluções. Sem falar em usar solventes, em todas as preparações, provenientes do mesmo lote] As alegações envolvidas, por serem extraordinárias, demandam este tipo de cuidados experimentais mínimos. Além de precisarem serem estáveis o suficiente para que possam ser reprodutíveis, especialmente por grupos independentes, de forma mais sistemática.

Ball também aponta para o fato de que muitos fenômenos relatados a partir de citação de artigos de outros pesquisadores, frequentemente, não correspondem, de forma fidedigna, aos resultados e conclusões dos autores como apresentados nos trabalhos originais. Tendo pouca relação com as alegações e suposições teóricas dos defensores da homeopatia.

O artigo de Rao et al. (2007) é duramente criticado em um comentário publicado em uma edição posterior da própria revista Homeopathy, no qual são ressaltados os problemas com o tipo de avaliação, a falta de homogeneidade dos procedimentos, além da pouca clareza das figuras e ausência de análise estatística (Kerr et al. 2008). Um dos autores desta carta aos editores, Paul Wilson,  também comenta sobre a questão e tece várias críticas relevantes em seu blog pessoal.

Talvez o pior de tudo seja que boa parte dos resultados empíricos descritos e das especulações teóricas oferecidas não conseguem explicar como as preparações homeopáticas ultra-[hiper-mega-giga]diluídas realmente funcionariam. Isto é, os raciocínios e evidências discutidos nos artigos não se coadunam, e não oferecem uma perspectiva coerente, para o alegado fenômeno. Parece que o que está em discussão não é a ideia da memória da água em si (ou do álcool ou do açúcar), mas, simplesmente, qualquer resultado anômalo inesperado mesmo que seja muito elusivo e esquivo. Porém, isso não é suficiente, principalmente, por que artefatos e resultados espúrios sempre vão existir e não devemos basear um campo de pesquisa inteiro neles. Com diz Ball:

The volume is, in other words, a cabinet of curiosities. There is rarely even a token effort to explain the relevance of these experiments to the supposed workings of homeopathy, with its archaic rituals of shaking (‘succussion’) and ‘magic-number’ dilutions (one must always use factors of ten, and generally only specific ones, such as 100**6, 100**12 and 100**30). The procedures and protocols on display here are often unusual if not bizarre, because it seems the one thing you must not do on any account is the simplest experiment that would probe any alleged ‘memory’ effect: to look for the persistent activity of a single, well-defined agent in a simple reaction – say an enzyme or an inorganic catalyst – as dilution clears the solution of any active ingredient.

Os artigos apresentados nesta edição da Homeopathy deixam transparecer um certo desespero por parte dos adeptos da homeopatia, além de deixar clara a confusão conceitual que se reflete nesse campo de investigação que tem todos os sinais de ciência patológica Aparentemente qualquer explicação serve, menos a mais plausível, i.e. não existe um fenômeno específico a ser explicado e qualquer ‘efeito’ é mero artefato ou placebo:

One has to conclude, after reading this special issue, that you can find an ‘explanation’ at this level for water’s memory from just about any physical phenomenon you care to imagine – dissipative non-equilibrium structures, nanobubbles, epitaxial ordering, gel-like thixotropy, oxygen free radical reactions… In each case the argument leaps from vague experiments (if any at all) to sweeping conclusions that typically take no account whatsoever of what is known with confidence about water’s molecular-scale structure, and which rarely address themselves even to any specific aspect of homeopathic practice. The tiresome consequence is that dissecting the idea of the memory of water is like battling the many-headed Hydra, knowing that as soon as you lop off one head, another will sprout.

Além dos comentários de Ball sobre os trabalhos contidos na edição especial da revista Homeopathy de agosto de 2007, um dos artigos da coletânea escrito pelo físico José Teixeira – que assume uma perspectiva mais cética – é de especial relevância. Neste artigo encontra-se uma ótima e rápida revisão sobre o que sabemos sobre água pura e por que esperar qualquer tipo de ‘memória’, nessas condições, é completamente absurdo. Teixeira assume uma posição simpática e se esquiva de entrar nos detalhes, especialmente na questão das evidências clínicas, mas deixa bem claro que qualquer efeito só é esperado em soluções aquosas complexas, mesmo bastante diluídas, mas que, pelo menos, tenham a presença de algum soluto. Isso nos trás de novo a falta de padronização dos estudos e a falta de controles óbvios. Como Teixeira lembra, as propriedades da água pura em temperaturas normais são muito bem conhecidas e a formação de agregados (cluster) estáveis e estruturas de longa extensão e duração foram já experimentalmente descartadas por vários tipos de métodos analíticos. O que existe são regiões de diferentes densidades e arranjos intermoleculares que duram frações de segundo. O tempo de formação e desmantelamento das ligações de hidrogênio está na casa de pico ou nano segundos, no máximo. A  capacidade de rápida re-distribuição de energia da água é uma de suas características mais interessantes e não pode ser desconsiderada, principalmente por que dificulta ainda mais (como se precisasse) a retenção de qualquer tipo de memória por parte da água. O próprio processo de sucussão – a agitação vigorosa após cada diluição – bem como as flutuações térmicas de fundo as quais qualquer líquido está sujeito a temperaturas normais, tornam a permanência de qualquer um desses padrões ou estruturas ainda mais improváveis.

Alguns dos argumentos expostos nos artigos e as respostas aos comentários suscitados em edições posteriores são ainda mais reveladoras. O foco de alguns dos pesquisadores parece ter mudado e passado para os efeitos que as impurezas e a sucussão podem ter na modificação das propriedades da água, como na dissolução de H2O2 e em seus possíveis efeitos biológicos. Só que isso simplesmente deixa de lado toda a ideia de memória e potencialização das soluções, pois não são os compostos originais os responsáveis por este processo e, para começar, todo ato de diluir alguma coisa  não faria mais sentido.

O que parece acontecer é que os pesquisadores dessa área escolhem arbitrariamente quaisquer detalhes e efeitos estranhos o suficiente que possam serem considerados candidatos ao mecanismo de ação, mesmo que guardem pouca semelhança com os princípios da homeopatia e que não sirvam para justificá-los do ponto de vista teórico. Tudo parece um grande exercício de ofuscação e, certamente, não é o que se esperaria de um campo de estudo progressista e crítico. Muito pelo contrário, a crítica e o rigor são jogados fora sempre que estes entram em choque com as especulações mais desvairadas dos defensores da homeopatia.

O journal club que teve lugar na sessão de comentários do blog de Ben Goldacre Bad Science é outra fonte de informação muito interessante, assim como são os comentários sobre o artigo que lida com a espectroscopia de UV-V de soluções alcoólicas e homeopáticas (Rao et al. 2007) que teve lugar no fórum da James Randi Educational Foundation. Uma outra carta ao editor comentando dois dos artigos da edição especial da revista Homeopathy que merece ser lida é a do físico Philip Leick (2008) que evidencia a péssima compreensão da teoria quântica, pouco rigor acadêmico e tendenciosidade dos autores que especulam sobre a questão, como se a MQ fosse relevante para a homeopatia. Esta questão é discutida também por Danny Chrastina em seu blog shpalman, em um post no qual as alegações dos autores destes artigos da Homeopathy são bastante criticadas.

O que parece não ser bem compreendido pelos defensores da homeopatia é que os desafios que se afiguram frente a eles são gigantescos. Há a necessidade de resultados experimentalmente robustos e amplamente replicáveis. Esta demanda é essencial pois o que os homeopatas alegam não é apenas que as soluções ultra-[hiper-mega-giga]diluídas tenham efeitos, mas que as mais diluídas entre elas são mais potentes e que estes efeitos são específicos e estáveis. Portanto, as supostas diferenças têm que ser específicas o suficiente para terem os mesmos efeitos, não apenas diferenças aleatórias entre soluções que passam pelo processo de diluição e sucussão que acrescentam, além de gases atmosféricos, contaminantes microscópicos e micro-fragmentos de silicatos provenientes dos frascos utilizados. Essa diferenças devem comportar-se, assim, de forma estável, consistente e replicável. Então, não basta que coisas estranhas aconteçam com as soluções ultra-[hiper-mega-giga]diluídas, mas sim que essas coisas aconteçam sempre e que produzam padrões específicos e duradouros, pelo menos, um para cada preparação comercializada por aí.

Existe também algumas discussões sobre o assunto em dois artigos um tanto antigos mas ainda bastante interessantes, como os dos físicos Robert ParkVictor Stenger (que divide a co-autoria com outros autores da área médica e veterinária). No gimpy’s blog encontra-se uma boa discussão e crítica de alguns dos argumentos e evidências apresentados por um dos defensores da homeopatia (Alex Turnier), como enfase em como os defensores da homeopatia tratam as evidências e apresentam os artigos do campo. Steve Novella também faz alguns comentários interessantes sobre alguns problemas adicionais com a ideia de homeopatia. Por exemplo, além de manter a sua estabilidade em uma solução aquosa, esta tal ‘memória da água’ deveria ser transferida – através das sucessivas diluições durante o processo de dinamização através dos frascos – também para o açúcar contido nas pílulas ou glóbulos e por ali permanecer por muito tempo e, depois disso tudo, ainda conseguir resistir ao ambiente estomacal após a ingestão.

Outra boa pedida é o site ebm-first, especialmente as páginas sobre a pesquisa clínica relevante na área e a de informações gerais. A conclusão, pelo menos a melhor que podemos chegar no momento, é que nas duas pontas (ou seja, na base física e na eficácia clínica) a homeopatia fracassa e as tentativas de dar-lhe respaldo não parecem nada promissoras.

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  • Ball P. “Here lies one whose name was writ in water…” Published online 8 August 2007 Nature doi:10.1038/news070806-6

  • Ball P. The memory of water Published online 8 October 2004 Nature doi:10.1038/news041004-19
  • Cowan ML, Bruner BD, Huse N, Dwyer JR, Chugh B, Nibbering ET, Elsaesser T, Miller RJ. Ultrafast memory loss and energy redistribution in the hydrogen bond network of liquid H2O. Nature. 2005 Mar 10;434(7030):199-202. PubMed PMID: 15758995.
  • Kerr M, Magrath J, Wilson P, Hebbern C. Comment on “The defining role of structure (including epitaxy) in the plausibility of homeopathy”. Homeopathy. 2008 Jan;97(1):44-5; author reply 45-6. PubMed PMID: 18194769.
  • Leick P. Comment on: “Conspicuous by its absence: the Memory of Water, macro-entanglement, and the possibility of homeopathy” and “The nature of the active ingredient in ultramolecular dilutions”. Homeopathy. 2008 Jan;97(1):50-1. PubMed PMID: 18194775.
  • Rao ML, Roy R, Bell IR, Hoover R. The defining role of structure (including epitaxy) in the plausibility of homeopathy. Homeopathy. 2007 Jul;96(3):175-82. Erratum in: Homeopathy. 2007 Oct;96(4):292. PubMed PMID: 17678814.
  • Wilson P. Comment on “The Memory of Water: an overview”. Homeopathy. 2008 Jan;97(1):42-3; author reply 43-4. PubMed PMID: 18194767.
  • Teixeira J. Can water possibly have a memory? A sceptical view. Homeopathy. 2007 Jul;96(3):158-62. Review. PubMed PMID: 17678811.

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