Felicidade, natureza e estresse:

Discussões sobre moralidade parecem estar em voga, em parte, impulsionadas pelo lançamento do livro, The Moral Landscape, de Sam Harris.

Esse livro tem incitado discussões sobre as perspectivas do estabelecimento de um programa de pesquisa científico (eu diria um programa híbrido científico-filosófico) sobre a questão. Um programa assim seria orientando de forma utilitarista/consequencialista, tendo o bem-estar (ou outro análogo da felicidade) como pressuposto principal. A vantagem dessa abordagem é que por mais difícil que seja entrar em acordo e quantificar ‘o bem estar’, ‘o sofrimento’ ou ‘a felicidade’, mesmo assim, estes conceitos parecem ser bem menos alienígenas e mais palpáveis do que outros como “valor intrínseco” e  o “imperativo categórico”.

A discussão não é nova; apenas re-emerge de tempos em tempos, em geral, engatilhada por um evento novo, como foi o caso do lançamento do livro de Harris e, em termos mais amplos, o ganho de notoriedade das neurociência cognitivas.

O autor do blog Common Sense Atheism, Luke Muehlhauser, proferiu uma palestra exatamente sobre este assunto que considero extremamente informativa e que merece ser vista:

Outro ponto importante em relação a essa abordagem é que podemos estendê-la a outras criaturas sencientes possuidoras de um sistema nervoso e de repertórios comportamentais mais vastos e flexíveis. Um post recente, no blog da Sciam, escrito por Christie Wilcox, traz uma interessante discussão sobre a felicidade animal e contrasta o ‘bem estar’ de animais domesticados com o de criaturas selvagens.

O problema é que, quando colocamos os animais na equação, a situação torna-se ainda mais complicada, já que, no caso humano, ainda podemos perguntar (pelo menos em muitos casos) para os indivíduos como eles se sentem e o que acham de alguma de alguma forma de tratamento ou do que pensam sobre uma questão. Em animais não-humanos, entretanto, estamos limitados a abordagens mais indiretas e, principalmente, àquelas que dependem de medidas fisiológicas de estresse, além das que avaliam as respostas comportamentais. O estresse crônico, inclusive o de origem psicossocial, como o que nós experimentamos em nossa sociedade competitiva ao anteciparmos consequências negativas de nossas ações, influencia a saúde tanto humana como a animal (como mostram os estudos psiconeuroendocrinológicos de Robert Sapolsky em Babuínos selvagens) e pode ser uma medida bastante importante de comparação, podendo orientar nossos julgamentos éticos, tornando-os menos impressionistas e menos dependentes de intuições, muitas vezes, enganosas.    Desta forma,  definindo operacionalmente o ‘bem estar’ ou a ‘felicidade’ como a ausência de estresse crônico podemos medi-lo através de uma série de parâmetros bioquímicos, como a concentração e a variação de hormônios ligados ao estresse, especialmente o cortisol, mas também outros como a adrenalina e a noradrenalina. A palestra a seguir de Sapolsky ilustra muito bem as ligações entre o estresse crônico e doenças neurodegenerativas, por exemplo.

A partir desta perspectiva, Christie Wilcox desenvolve uma análise bastante interessante da ideia – muito comum por trás de alguns esforços de liberação animal e de abolição do uso de produtos derivados de animais – de que os animais livres, em seu ambiente natural, seriam mais felizes do que os mantidos em cativeiro. Essa ideia, no entanto, quando avaliada pelos instrumentos científicos modernos, usando o estresse como parâmetro de comparação, não parece encontrar muito respaldo, já que as medidas de estresse em animais domesticados e selvagens mostram uma realidade diferente.

Claro, existem questões metodológicas mais sutis aí envolvidas, como a dificuldade de se traçar boas linhas de base de estresse em animais selvagens, especialmente por que para isso, em geral, é necessário capturar e retirar amostras de sangue, o que por si só já é estressante. Porém, novas técnicas de medição de hormônios de estresse a partir de amostras de urina e outros dejetos têm ajudado a resolver este problema.  Um dos pontos principais de preferir este tipo de abordagem é que não existem evidências de que a maioria desses animais tenham uma consciência de futuro suficientemente apurada ou que possam, pelo menos, se estressar por causa desta perda de controle de autonomia associada ao seu destino final, o abate ou a utilização instrumental.

Os estudos dos níveis de estresse indicam que – desde que sejam fornecidos aos animais comida e água suficiente, condições ambientais confortáveis (temperatura, umidade, densidade populacional, espaço, luz etc) e seja permitido a eles expressar seu comportamento natural – não há motivos para acharmos que os animais domesticados em cativeiro sejam menos ‘felizes’ do que os em estado selvagem, onde muitas vezes estas condições mínimas são difíceis de serem alcançadas e estão sujeitas a toda forma de contingências. Obviamente, a produção animal ultraconfinada e em escala industrial certamente não é parâmetro a ser seguido e, na maioria das vezes, desvia dessas condições mínimas que julgamos serem essenciais para a manutenção dos animais de forma adequada.

O fato de que muitas espécies domesticadas tenham passado por um longo processo de cruzamentos controlados e tenham sido submetidas a intensa seleção artificial, certamente alterou permanentemente não só seus níveis basais de estresse (sistematicamente mais baixo), como também diminuiu a capacidade de elevação desses níveis frente a perturbações, especialmente, a perigos em potencial. Resultados como este indicam que muitas dessas espécies talvez não possuam uma capacidade de resposta fisiológica satisfatória mínima para a sobrevivência fora de cativeiro. Estas diferenças ficam claras quando comparamos estes animais domesticados com seus parentes selvagens mais próximos, mas mantidos em cativeiro. Estudos mostram que os padrões de resposta fisiológica ao estresse mantiveram-se bem mais altos nos selvagens em cativeiro, quando comparados a suas contrapartidas domesticadas, mesmo quando os animais selvagens eram mantidos e reproduzidos em cativeiro por 30 gerações. Portanto, não é apenas a forma como esses animais são criados, mas sim a própria fisiologia desses animais domesticados que foi permanentemente alterada.

Os estudos com animais selvagens em cativeiro sugerem também que esses animais não são necessariamente mais ‘infelizes’ do que se estivessem em seu ambiente selvagem, de novo, desde que certas condições  mínimas sejam atendidas, como a oferta de água e comida, a existência de espaço suficiente e a possibilidade de interação com coespecíficos. De fato, estudos mostram que é possível melhorar os perfis de estresse desses animais com estratégias como enriquecimento ambiental. Além disso, animais em zoológicos de excelência vivem mais e comem melhor do que animais da mesma espécie em ambiente selvagem, tendo menos doenças e parasitas (que quando ocorrem podem ser tratadas), além de exibirem perfis hormonais semelhantes ao dos seus coespecíficos selvagens.

Wilcox lembra que existem outras questões éticas (sem mencionar as ambientais e pragmáticas) envolvidas na captura, manutenção e exibição de animais em cativeiro. Ela não defende, portanto, que devamos, simplesmente, abolir os ambientes selvagens ou mesmo continuar essas inciativas de confinamento sem levar em  conta outras considerações. Sugere, contudo, que parte dessa visão romântica (e que turva algumas de nossas decisões) é devida ao que ela chama de “viés natural” e não se sustenta em uma análise mais pormenorizada e cientificamente orientada da questão.

Ao nos vermos como alheios ao resto da natureza e como intrinsecamente diferentes, ao invés de parte dela, criamos uma ideia idílica de que a natureza é, encarando-a, por definição, como um ente benevolente e incapaz de produzir coisas aviltantes e qualquer tipo de sofrimento. A autora cita o exemplo da rotenona, um pesticida natural muito tóxico usado em sistemas de cultivo ditos ‘orgânicos’ que contrasta com a política de evitar a qualquer custo pesticidas industrializados (simplesmente por serem artificiais) mantida pelos mesmos agricultores ‘orgânicos’.

Algo semelhante pode ser dito do chorume de porco, potencial poluente de mananciais de água, e de outras práticas agrícolas que, apesar de uma aparência inofensiva (oriunda possivelmente do fato de serem consideradas ‘naturais’), têm elas mesmas os seus próprios riscos ambientais e sanitários que precisam ser pesados. Essa situação infelizmente leva a potenciais problemas já que o que deveria pautar essas estratégias de agricultura alternativas seria a segurança, o impacto ecológico e social dos produtos e insumos utilizados e não o fato de serem oriundos de manipulação industrial ou retirados diretamente da natureza. Esse ‘viés natural’ também tem implicações sociais mais abrangentes, como ao ditar o que é certo ou errado do ponto de vista do comportamento sexual e/ou do que seria ou não seria apropriado em termos de cuidados médicos.

Embora toda essa questão esteja imbricada em outras considerações de ordem social e filosófica, a perspectiva de encararmos parte dela de forma mais metódica e diligente não pode ser subestimada, principalmente se for conduzida com o cuidado e a crítica necessária.

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  • WILCOX, C. (Apr 12, 2011 09:00 AM) Bambi or Bessie: Are wild animals happier? Scientific American Blog; acessado em 12/04/2011.

  • SAPOLSKY, R. Sick of poverty. Sci Am. 2005 Dec;293(6):92-9. PubMed PMID: 16323696

  • SHWARTZ, M. (March 7, 2007) Robert Sapolsky discusses physiological effects of stress Stanford Report; acessado em 12/04/2011.

  • VOLPATO, G.L. Challenges in assessing fish welfare. ILAR J. 2009;50(4):329-37. PubMed PMID: 19949249.

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I'm a biologist and science writer who loves philosophy and sciences.
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