Levando as moscas para passear no jardim:

Nós, seres vivos, possuímos sistemas oscilatórios biomoleculares que são responsáveis pelo controle de nosso metabolismo, nossa fisiologia e mesmo dos nossos comportamentos, os mantendo em sincronia com os ciclos geofísicos de 24 horas, de dia e noite, de nosso planeta, o que tem acontecido por bilhões de anos. Boa parte do que sabemos sobres estes ‘relógios circadianos’ vem de estudos do comportamento locomotor e dos padrões de atividade de moscas da espécie Drosophila melanogaster que tem servido de modelo principal para a identificação dos genes envolvidos com o relógio circadiano dos eucariontes multicelulares mais complexos.

O problema é que muito do que sabemos sobre os ritmos circadianos, a partir de estudos laboratoriais com Drosophila, pode simplesmente estar errado. Novos estudos realizados fora dos laboratórios, em instalações outdoor (um dos pesquisadores adaptou seu próprio quintal para isso. Veja mais sobre isso aqui), na Itália e na Inglaterra, em condições de iluminação e temperatura bem mais próximas às naturais, em que as mosquinhas ficavam abrigadas apenas contra chuva e vento, mostraram muitas diferenças em relação aos resultados encontrados em laboratórios fechados. A começar pelo fato das moscas exibirem um comportamento diurno mais ativo, e não crepuscular como até então havia sido registrado em estudos indoor, além de uma maior dependência da temperatura, associada ao fato de alguns dos mutantes, para genes associados ao controle dos ritmos diários, identificados em laboratórios não apresentarem alterações comportamentais perceptíveis quando mantidos em condições mais próximas as da natureza.

A notícia boa é que, ao replicarem com mais exatidão as condições de alternância de luz e temperatura dos testes realizados na Itália, desta vez em laboratórios fechados, os pesquisadores conseguiram reproduzir muitos dos novos resultados, mostrando que mesmo em condições artificiais de laboratório ainda é possível obter-se um bom compromisso entre o controle garantido por este tipo de experimento e a extrapolabilidade dos resultados para situações mais complexas e próximas a realidade.

Assim, os autores do estudo multicentro enfatizam que seus resultados apontam para a necessidade de uma ampla reavaliação do comportamento circadiano e para a necessidade de avaliar os correlatos moleculares desses ritmos, mas desta vez em contextos que simulem melhor as condições naturais. Além disso, outros pesquisadores, alertam para a constante necessidade de validação de resultados indoor por meio de análises de populações naturais, ainda que isso não seja fácil na maioria das vezes.

Segue um vídeo de um dos autores do trabalho, Charalambos Kyriacou, da Nature falando sobre a importância de D. melanogaster como organismo-modelo na pesquisa biológica.

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Crédito das Figuras:
MEHAU KULYK/SCIENCE PHOTO LIBRARY
SALLY BENSUSEN/SCIENCE PHOTO LIBRARY
DR JEREMY BURGESS/SCIENCE PHOTO LIBRARY

About rodveras

I'm a biologist and science writer who loves philosophy and sciences.
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