Ciência e inferência. Parte I: A dúvida de Hume e a solução de Popper.

Publicado no Periódico Bule do Bule Voador em 16 de setembro de 2011: Ciência e inferência. Parte I: A dúvida de Hume e a solução de Popper.

Autor: Rodrigo Véras

Ao imaginar um cientista, muitos ainda devem visualizar um indivíduo que coleta várias dados e faz muitas observações, às vezes ao longo de uma vida inteira, e a partir delas obtém leis gerais sobre algum fenômeno. No cerne desse procedimento está uma forma de inferência de extrema importância, a indução. De uma maneira bem simples, quase caricata, na indução se parte de observações ou casos isolados e se chega à generalizações. Dependemos, o tempo todo, em nosso dia a dia, deste tipo de raciocínio. Ao valermo-nos dele, empregando-o intuitivamente, acreditamos que algo que deu certo antes dará certo de novo, que o dia se seguirá à noite e que efeitos se seguirão às causas. Porém, pelo menos desde Hume, existem pensadores que acreditam que há algo de pernicioso em relação à indução. Algo de intrinsecamente irracional estaria oculto por trás desta inocente forma de inferência, e acabaria por contaminar todos nossos esforços em busca de conhecimento e nem mesmo as ciências estariam imunes.

Uma das limitações da indução origina-se em uma de suas maiores vantagens, o fato dela constituir-se em uma forma ampliativa de raciocínio, i.e. partindo do que temos acesso podemos extrapolar sobre o que não temos acesso. Mas o simples fato de algo ter ocorrido várias vezes antes ou mesmo sempre, até o momento, não estabelece de maneira certa que acontecerá de novo. Isso, em nada, parece ser controverso; e por causa deste detalhe a indução é considerada uma forma de inferência probabilística, através da qual, no máximo, se poderia estabelecer tendências, com a ocorrência prévia de um evento, várias vezes no passado, aumentando nossa confiança que tal acontecimento voltasse a ocorrer. Além disso, não podemos investigar cada lugar ou situação no tempo e no espaço, a menos que nosso universo de interesse seja por demais limitado. Não podemos esperar confirmar que todos os corvos são negros ao analisar todos os corvos presentes, passados e futuros em todos os locais da terra. E mesmo se assim o pudéssemos, perderíamos boa parte da vantagem, passando da inferência a mera constatação.

Outros tipos de generalização, entretanto, são ainda mais frágeis pois supostamente referem-se a estados de coisas em todo o universo e em todos os tempos. Métodos estatísticos elaborados, envolvendo formas de coleta de dados e construção de amostras (aleatorização, estratificação etc) bem específicos e ancorados em princípios teóricos bastante plausíveis são utilizados para reduzir esses problemas, mas, mesmo assim, as limitações da indução não se dissipam tão facilmente, mesmo por que muitas suposições estatísticas são incertas em várias situações importantes.

O “problema da indução[1, 2, 3], como é às vezes referido, entretanto, é bem mais profundo, pois ao tentarmos justificá-la, acabamos por enveredar pela circularidade e/ou pela regressão infinita. Por exemplo, a ideia que múltiplas ocorrências de um evento no passado aumentem a possibilidade que tal evento acontecerá no futuro é ela mesma baseada na suposição que a natureza é regular que, por sua vez, é fruto da indução pois assim, até o momento, tem sido nossa experiência. O que preocupava Hume, e outros filósofos que a ele se seguiram, é que não há como justificar a indução sem utilizar-se dela própria. Neste sentido ela não teria uma base racional, como a dedução, uma outra forma de inferência demonstrativa tida como um ideal argumentativo. Portanto, mesmo sendo praticamente impossível deixar de se orientar pelo raciocínio indutivo, jamais negando sua utilidade passada, em nosso dia a dia e na prática científica, tal inferência careceria de uma base racional clara e seria apenas uma questão de hábito, bem como boa parte dos conceitos baseados neste processo de raciocínio que não pudessem ser eles mesmos justificados de outras maneiras, incluindo nossas suposições sobre causalidade [1, 2, 3].

Muitas explicações e argumentos têm sido propostos visando garantir o lugar de destaque da indução na estrutura racional da investigação científica [1, 4]. Muitos, entretanto, consideram esse como, simplesmente, um pseudoproblema, com pouca ou nenhuma relevância prática. Apesar disso, alguns filósofos, mais notadamente Popper, optaram por outro caminho ainda mais radical, recusando-se complemente a admitir que a inferência científica dependeria da indução, apostando na dedução, como alternativa [4].

A dedução é considerada uma forma de raciocínio demonstrativo, na qual, de maneira ultra simplificada, passamos do geral para o específico. Como nos silogismos clássicos a partir de asserções básicas, as premissas, chega-se a outras asserções que se seguem logicamente das premissas (sendo implicadas por elas), as conclusões. Diferente da indução, a relação entre premissas e conclusões na dedução é bastante direta e determinada pela verdade das premissas e pela própria estrutura lógica (ou forma) do argumento, como mostra o modus ponens aí em baixo.

Se A, então B

A

Logo B

A relação de implicação material e acarretamento não são tão simples e transparentes assim [5], e muitas questões foram levantadas sobre elas; mas por complexidade e ignorância minha serão aqui omitidas. A principal diferença da dedução para indução é que dado premissas verdadeiras e a estruturação correta do argumento (sua validade), a passagem para as conclusões é certa. Assim em argumentos válidos não é possível que a conclusão seja falsa caso as premissas sejam verdadeiras; enquanto na indução, a verdade das premissas e a adequada estruturação do argumento, no máximo, tornariam a conclusão mais provável, isso claro, deixando-se de lado as dúvidas “Humeanas”. Argumentos dedutivamente válidos e com premissas verdadeiras são chamados de sólidos. Desta maneira, inferências científicas que seguissem esta estruturação, como as baseadas no método hipotético-dedutivo, não teriam os mesmos problemas da justificação racional que a indução*. Entretanto, esta alternativa esbarra em outro problema, uma vez que a grande maioria dos testes científicos, seguindo o métodos hipotético-dedutivo, são simplesmente confirmatórios, ou seja, buscam evidencias que mostrem que a hipótese está correta. Do ponto de vista lógico, está forma de proceder seria equivalente a uma falácia formal, muito conhecida, a afirmação do conseqüente:

Se A, então B

B

Logo A

Simplesmente, ao olhar para a estrutura do argumento é fácil objetar: “Espere aí! Quem disse que C, D, E, F etc não possam também implicar B?”. Mas, além do problema lógico, esta simples observação é análoga a tese da subdeterminação das teorias pelos dados, na qual se argumenta que para os mesmos dados, que supostamente corroboram uma determinada hipótese, existiriam um número potencialmente infinito de outras teorias equivalentes e incompatíveis entre si, não havendo, portanto, motivo para crer que qualquer resultado que confirma-se uma teoria não conferisse, na mesma medida, apoio empírico às demais teorias equivalentes.

No entanto, ao analisarmos a própria indução, podemos obter uma pista de como escapar do problema. Sempre que acumulamos um grande número de observações e inferimos a partir daí um padrão geral que vai além dos dados disponíveis (como o que todos os corvos são pretos a partir de séculos de confirmação deste fato), estamos, ao mesmo tempo, sempre a um caso de sermos confrontados com uma evidência que refute tal generalização – encontrar um corvo que não seja preto. Por causa disso, Popper se voltou para outra forma dedutivamente válida de argumentação como base para a inferência científica e para os testes de hipóteses, o modus tollens:

Se A, então B

Não-B

Logo não-A.

Diferente da afirmação do conseqüente, aqui podemos, a partir da não confirmação de um resultado, rejeitar a hipótese a partir do qual ele foi derivado. A falsificação “Popperiana” faz exatamente isso, ao buscar conseqüências empíricas nas teorias que possam, ao serem confrontadas com a realidade, falharem, mostrando-se incompatíveis com o estado de coisas do mundo. Portanto, se não é possível mostrar que a hipótese era verdadeira, poder-se-ia, ainda assim, mostrar que ela seria falsa. Avançaríamos, assim, por conjecturas e refutações e as hipóteses que suportassem mais refutações seriam mantidas ao mesmo tempo que nos livraríamos daquelas atestadamente falsas, sendo esse também um critério demarcatório entre ciências e pseudociências. Infelizmente, estabelecer a falsidade de hipóteses científicas nem sempre é tão fácil, como alguns poderiam imaginar. Desta maneira, a solução de Popper não saiu ilesa do debate científico-filosófico sobre como se conduzir a investigação científica.

Veja a continuação em “Ciência e inferência. Parte II: Popper e a tese do holismo”

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*O problema da justificação epistêmica, entretanto, é ainda mais profundo e geral. Mesmo processos como a dedução dependem de conhecermos as premissas, estabelecendo de antemão sua veracidade, o que poderia ser feito através de outra dedução, cujas premissas, por sua vez, precisariam também serem justificadas e assim por diante. Como os céticos argumentam, entretanto, o problema é que seríamos sempre forçados a parar nossas justificações em um ponto específico, arbitrário, oferecer justificativas circulares ou, simplesmente, continuar regredindo ao infinito [2, 3].

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Referências

[1] Vickers, John, “The Problem of Induction“, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2011 Edition), Edward N. Zalta (ed.)

[2] Baggini, Julian e Fosl, Peter S. As Ferramentas dos Filósofos, São Paulo, Edições Loyola, 2008, 278 pp.

[3] Law, Stephen Guia Ilustrado Zahar de Filosofia Coleção Guia Ilustrado Zahar [Tradução: Maria Luiza X. de A. Borges e Revisão técnica: Danilo Marcondes], Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2008, 352pp.

[4] Chalmers, Alan F. O que é Ciência, afinal? São Paulo: Brasiliense, 1993, 230 pg.

[5] Haack, de Susan Filosofia das Lógicas [Tradução de Cezar Augusto Mortari e Luiz Henrique de Araújo Dutra] São Paulo: Editora UNESP, 2002, 359 pp.

Créditos figuras:

PASCAL GOETGHELUCK/SCIENCE PHOTO LIBRARY
GEORGE BERNARD/SCIENCE PHOTO LIBRARY

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