Entre a acomodação e a predição: Duas maneiras de se testarem hipóteses

Publicado no Periódico Bule do Bule Voador em 9 de setembro de 2011: Entre a acomodação e a predição: Duas maneiras de se testarem hipóteses

Autor: Rodrigo Véras

Qualquer um interessado em saber se uma ideia está correta deveria, pelo menos, tentar confrontá-la com a realidade. Os cientistas empregam esta estratégia de maneira sistemática através de duas formas básicas:

  1. Deduzir consequências a partir das hipóteses, determinando possíveis resultados empíricos e, só então, procurando evidências através de observações ou experimentos;

  2. Comparar as consequências destas ideias com fatos já conhecidos – por exemplo resultados de investigações anteriores – e verificar sua adequação aos mesmos. Em muitos casos as hipóteses são constantemente ajustadas para dar conta de dados novos ou discrepantes.

Porém, este segundo modo é considerado inferior a primeira forma no que configura a chamada “tese da vantagem” (TdV). Mas o que exatamente tornaria a primeira abordagem preferível à segunda?

Peter Lipton (1954-2007) publicou na prestigiada revista Science, uma interessante reflexão sobre o assunto [1], ressaltando, entretanto, que “acomodação” e “previsão” não precisam excluir-se mutuamente. A maioria das grandes teorias bem sucedidas possuem elementos de ambas. Entretanto, pode ser muito difícil estabelecer argumentos satisfatórios que apóiem a visão de que predições seriam sempre preferíveis. Ainda assim, parece haver um acordo tácito que as predições são mais desejáveis e poderosas do que as acomodações. Veja o caso de Halley e a passagem do cometa que viria a levar seu nome [1].

Elementos cruciais nos testes de hipóteses – como seu conteúdo, suposições necessárias para ligar a hipótese à observação e os próprios dados – podem não serem afetados pelo fato de terem sido acomodados ou previstos. Imagine dois gêmeos que construíram a mesma hipótese, desenvolvida de maneira independente um do outro, apenas um deles construiu acomodando observações já conhecidas enquanto o outro as teria previsto, sendo posteriormente confirmadas, pelas mesmas observações acomodadas pelo outro irmão [1]. Ao discutirem seus resultados em um congresso, foi levantada a questão de como eles deveriam revisar sua confiança em suas hipóteses. O irmão preditor deveria perder confiança em sua hipótese e o acomodador aumentar? Deveriam manter um nível intermediário ou adotar o nível de confiança anterior de apenas um deles? Mas qual, então? Essa situação é em principio a mesma para qualquer hipótese predita, pois alguém poderia tê-la produzido através da acomodação a posteriori de dados, sem que o autor da predição assim o soubesse.

Três são as justificativas mais comuns empregadas na defesa da TdV: (i) Hipóteses acomodadas seriam ad hoc, portanto, menos bem corroboradas; (ii) as acomodações não seriam exemplos de testes reais já que os cientistas não se arriscariam a estar errados, como acontece ao preverem um desfecho inédito a partir de suas hipóteses; e, por fim, (iii) existiria uma assimetria entre hipóteses acomodadas e previstas em relação ao tipo de explicação para o seu sucesso. No caso, das acomodações estas poderiam ter sido bem sucedidas, basicamente, por duas maneiras. A primeira, por que elas estariam realmente corretas e a segunda que elas teriam sido feitas especificamente para acomodarem os fatos. Todos esses argumentos têm um certo apelo, mas possuem, como revela Lipton, algumas falhas bem importantes.

ResearchBlogging.orgAs duas primeiras encontram ressonância na enfase Popperiana no falseamento (ii) e sua crítica às explicações ad hoc (i). O problema é que não é exatamente claro por que o falseamento só pode ocorrer com as hipóteses preditas. No caso dos gêmeos, a hipótese seria a mesma e os mesmos dados que refutassem a proposta do preditor refutariam a do acomodador. O simples fato de, caso isso ocorre-se, o acomodador não proporia uma hipótese ou proporia uma diferente mais adequada aos fatos não cria uma assimetria claramente justificável. Há algo faltando aí. A questão do ad hoc é ainda mais problemática. O termo ad hoc significa “para isto”, sendo um simplesmente sinônimo para “acomodação”, usado pejorativamente, muitas vezes, como sinônimo de hipótese não bem corroborada, tornando o argumento circular. A terceira justificativa esbarra no problema de não ser óbvio por que a existência de duas possibilidades deporia contra a acomodação. Por que as duas possibilidades seriam excludentes? Isto é, por que o fato de uma hipótese poder ser explicada por que foi feita especificamente para dar conta de determinadas observações a tornaria menos confiável? Mais uma vez, falta algo neste argumento.

Lipton, propõe duas outras justificativas, “escolha” e “ajeitamento” (“fudging”). Ambas dependem da aceitação que certos fatores são importantes na determinação do nível de suporte empírico que dados conferem a uma hipótese, assim, como de virtudes teóricas utilizadas no processo de avaliação das hipóteses, também consensuais entre os especialistas.

SELO: a xícara no anel aromático, também conhecido como "Benzeno o Chá"A disponibilidade prévia de hipóteses permitiria aos cientistas maior “escolha” dos tipos dados e delineamentos mais apropriados. Desta forma, poderiam implementar testes mais precisos e variados, cujas suposições de base e hipóteses auxiliares fossem mais consensuais e a plausibilidade a priori maior, além de serem mais coerentes com conhecimentos prévios mais bem estabelecidos. O autor admite, entretanto, que o nível de escolha mesmo no caso das predições é geralmente bem aquém do ideal, impedindo uma defesa mais forte da TdV.

O “ajeitamento” parte do princípio que cientistas ao avaliar hipóteses buscam conciliar virtudes teóricas por vezes conflitantes, como o caso da simplicidade e de múltiplas evidências. A assimetria entre previsão e acomodação viria da tentação dos cientistas em acomodar o máximo de dados, visando obter cada vez mais apoio empírico, incluindo elementos extras as suas hipóteses, ou seja, ajeitando-a de modo a sacrificar virtudes teóricas como a simplicidade. Isso tornaria mais difícil encontrar um balanço adequado entre as virtudes teóricas e a corroboração empírica, como no caso dos astrônomos Ptolomaicos que acrescentavam mais e mais epiciclos ao tentarem dar conta de cada vez mais dados e corrigir discrepâncias.

Como muito desse “ajeitamento” não é óbvio e, na maioria das vezes, inconsciente, seria importante ter em mente estas diferenças, na medida que nem sempre é possível esmiuçar o que ocorreu durante o processo de acomodação, impedindo o “ajeitamento”, garantindo o equilíbrio entre virtudes teóricos e adequação empírica. Desta maneira, a ignorância do cientista preditor, o imunizaria da tentação de “ajeitar” sua hipótese de modo a ganhar cada vez mais apoio empírico. Essa tese lança nova luz às três justificativas anteriores, fornecendo um critério claro e independente do que estaria errado em manobras ad hoc (i.e. o “ajeitamento”); explicando por que os cientistas deveriam colocar-se em posição em que pudessem falhar, já que a ignorância prévia os impediria de introduzir muitos “ajeitamentos”, tornando suas hipóteses mais confiáveis e parcimoniosas; e, por fim, explicando por que uma hipótese construída especificamente para dar conta dos dados seria menos confiável, ao revelar maior possibilidade de “ajeitamento”.

A análise crítica das justificativas correntes utilizadas em defesa da TdV não encontrou objeções, mas, por outro lado, foi apontado que o “ajeitamento” é também problema para as hipóteses preditivas – com o que Lipton concorda, enfatizando que isso ocorreria mais aos dados e não as hipóteses, caso ocorressem seriam formas de acomodação veladas [3,7]. Um ponto importante é que a argumentação de Lipton destina-se a um caso bem particular, aquele em que os cientistas que formulam as hipótese não são os mesmos que as testam e isso pode limitar a análise [7]. O tipo de corroboração por múltiplas fontes independentes (produzidas por vários pesquisadores independentes) é típica da acomodação, fazendo esta forma de avaliação, além de mais difundida, mais resistente ao efeito do “ajeitamento” [7]. A própria TdV parece não ser tão bem historiograficamente sustentada [5] e, alguns defendem que realmente não hajam diferenças substanciais entre acomodação e previsão [4]. Mais do que complementares, seriam passos necessários no processo natural de investigação cientifica [2,6] e ferramentas analíticas e estatísticas modernas poderiam facilmente detectar o “ajeitamento” em qualquer tipo de dado, acomodado ou predito [4] e o impacto de testes adicionais seria tanto menor (mesmo que preditos) quanto maior o suporte anterior à hipótese. Por fim, as acomodações parecem mais características de hipóteses (ou teorias) bem mais abrangentes, colocando-as em nível distinto das predições, levantando dúvidas sobre a adequação das comparações, do diagnóstico e da solução proposta por Lipton.

A discussão, as críticas por parte de outros autores e a réplica de Lipton, nos permitem vislumbrar o que é importante na avaliação de hipóteses e teorias e o que pode torná-las menos confiáveis.

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Referências

[1] Lipton P (2005). Testing hypotheses: prediction and prejudice. Science (New York, N.Y.), 307 (5707), 219-21 PMID: 15653494

[2] Stanger-Hall K (2005). Accommodation or prediction? Science (New York, N.Y.), 308 (5727) PMID: 15933181

[3] Allchin D (2005). Accommodation or prediction? Science (New York, N.Y.), 308 (5727) PMID: 15938020

[4] Aach J, & Church GM (2005). Accommodation or prediction? Science (New York, N.Y.), 308 (5727) PMID: 15938023

[5] Brush SG (2005). Accommodation or prediction? Science (New York, N.Y.), 308 (5727) PMID: 15938022

[6] Aviv A (2005). Accommodation or prediction? Science (New York, N.Y.), 308 (5727) PMID: 15938021

[7] Gregory, T.R (Mar 21, 2009) Flaws of the fudge factor Pyrenaemata.

Créditos das figuras:
ONEYL JAY/SCIENCE PHOTO LIBRARY
PATRICK DUMAS/LOOK AT SCIENCES/SCIENCE PHOTO LIBRARY
IAN BODDY/SCIENCE PHOTO LIBRARY

About rodveras

I'm a biologist and science writer who loves philosophy and sciences.
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