Carne de laboratório

Há mais de duas décadas a ideia de produzir carne in vitro tem me fascinado e de tempos em tempos retorno à literatura científica (ou esbarro inadvertidamente nela) sobre o tema. Mesmo pondo de lado as questões éticas associadas a criação e abate de animais, especialmente mamíferos de grande porte e aves, para a produção de carne, outras pontos como os referentes aos impactos ecológicos e econômicos tornam mais difícil de nos esquivarmos completamente no problema que é a produção e consumo de carne.

As vastas áreas e recursos, como água e grãos, utilizados na criação de animais como bois, porcos e mesmo aves, não é algo que se mostre muito sustentável, principalmente, frente as pressões demográficas e climáticas iminentes. Podendo serem ainda mais agravadas pelo possível colapso da pescado nas próximas décadas por causa da pesca predatória e não renovação dos estoques naturais.

Embora existam alternativas, inclusive envolvendo a diminuição do consumo de carne e a conversão das estratégias atuais de produção para formas mais sustentáveis, usando-se recursos apropriados e áreas apropriados para a criação de animais adequados de maneira mais eficiente e mais humanitária, a perspectiva de fazer crescer tecido muscular animal em laboratório não pode ser desprezada. Alguns entusiastas como o holandês Willem van Eelen de 88 anos que é citado na matéria da revista Scientific American de Junho de 2011, “Inside the Meat Lab” têm defendido essa abordagem há mais de 50 anos e mesmo antes disso pessoas famosas como o próprio Wiston Churchill em 1932 já haviam sugerido que este seria o melhor caminho a seguir.

No artigo de autoria Jeffrey Bartholet são citados alguns dados e estatísticas que fazem pensar, como o fato dos rebanhos serem responsáveis por cerca de 18% das emissões de gases estufa de natureza antropogênica, o que seria maior do que o montante liberado por todo setor de transportes, de acordo um relatório de 2006 do Food and Agriculture Organization.

Na realidade, a situação seria ainda mais alarmante; a mesma organização do relatório de 2006 fez uma projeção indicando que o consumo de carne deverá quase duplicar até de 2050. No mesmo artigo em que esse relatório e a projeção do grupo são citadas, seu autor, Bartholet, também apresenta as conclusões de outro estudo que afirma que a produção in vitro de carne em biorreatores poderia aliviar esta pressão. Por exemplo se o tecido muscular fosse cultivado em um sistema baseado em nutrientes derivados de microrganismos, demandaria entre 35 à 60% menos energia que a mesma quantidade de carne como é atualmente produzida na Europa e poderia baixar as emissões de gases estufa em até 95% e a área utilizada em até 98%.

Existe, porém, grande incerteza em relação a vários aspectos destas estimativas e ainda que os pesquisadores concluam que mesmo assim os impactos seriam significativamente mais baixos do que os da produção normal de carne precisamos encará-las como uma primeira aproximação. Segundo o mesmo estudo, de acordo com o autor do artigo da Scientific American, 30% das áreas de terras livres de gelo já são usadas para a criação de gado e para o cultivo de alimento para estes animais. Assim, caso 98% dessa área fosse realmente liberada poderia ser muito bem aproveitada para reflorestamento que poderia ajudar no sequestro de carbono e desta maneira na mitigação do aquecimento global. Além do mais, este tipo de abordagem diminuiria os custos e as emissões associadas com o transporte global de carne, uma vez que a carne in vitro poderia ser produzida em qualquer lugar, inclusive perto dos consumidores finais, talvez até, a exemplo de açougues de bairro, em pequenas instalações de produção de carne in vitro que poderiam existir de maneira equivalente.

Outra fonte de preocupação é o uso indiscriminado de antibióticos em animais em sistemas de criação intensiva, o que pode contribuir muito para o surgimento de cepas multirresistentes de bactérias aos antibióticos, além do fato dessas grandes concentrações de animais poderem ser incubadores de doenças e portanto de novas epidemias. Isso sem nos esquecermos também das doenças associadas ao alto consumo de gorduras animais como as metabólicas e cardiovasculares. Por isso como afirma Kenneth W. Krause em seu artigo para o Skeptical Inquirer:

“Em um contraste gritante, a carne crescida em cultura não faz cocô, não arrota, não arrebanham, não come e não superpastorea, não bebe, não sangra ou grita em agonia – e é muito menos provável de nos envenenar, infectar, ou nos matar. Nesses luzes brilhantes práticas e éticas, um número crescente de cientistas está pulando no vagão da carne cultivada.”

As estimativas citadas no artigo da SciAm baseiam-se nos resultados publicados, no ano passado, no periódico Environment Science Technology [Environ. Sci. Technol., 2011, 45 (14), pp 6117–6123] por Hanna L. Tuomisto e M. Joost Teixeira de Mattos. Para calcular estes valores os autores usaram uma ‘Avaliação do Ciclo de Vida’ (ACV) com base em diretrizes ISO14000 através da comparação de três locais de produção, Espanha, Califórnia, e Tailândia que contem climas e características bem diferentes, assumindo-se que hidrolisados de cianobactérias seriam usados como base das culturas e que os demais nutrientes necessários seriam obtidos por meio de culturas de bactérias E. coli geneticamente manipuladas para este fim, mas como lembra John Timmer do ArsTechnica em seu blog:

“Agora, nós não estamos em um ponto em que podemos fazer essas coisas acontecerem. Não está claro que jamais estaremos, tão pouco, uma vez que pode acabar sendo impossível fazer as bactérias produzirem alguns dos hormônios e fatores de crescimento e acabaríamos necessitando de apoio células-tronco.”

Portanto, seria como contarmos com os ovos antes mesmo de termos as galinhas, o que pode ser bem frustrante conforme as dificuldades forem aparecendo. É compreensível que um estudo como esse dos impactos de uma tecnologia emergente que ainda estamos só começando a desenvolver dependam de várias simplificações, mas isso deve nos deixar em alerta para a natureza ainda especulativa da questão.

Aos olhos dos relativamente leigos pode parecer que produzir carne in vitro não seja uma tarefa das mais difíceis, especialmente por que é pratica corrente em muitos laboratórios pelo mundo todo isolar tecido muscular de organismos vivos e cultivá-los in vitro. Seria portanto apenas o caso de obter amostras de tecido muscular das espécies de interesse e cultivá-las, ao invés de em garrafas de cultura ou placas de petri, em instalações dedicadas a produção em larga escala de produtos de biotecnologia, como os grande biorreatores, usados para a produção em massa de microrganismos como bactérias e leveduras, porém ajustados a replicar as condições que ocorrendo copo de um animal. As coisas infelizmente são mais complicadas e difíceis, entretanto, do que esta primeira abordagem nos faria acreditar.

Além do mais, precisamos ter um pouco de cuidado com os dados apresentados no que concerne aos resultados globais da criação de gado antes de os aceitarmos por inteiro, uma vez que o assunto é altamente polarizado. É importante saber como exatamente as estimativas de uso de área e recursos foram feitas, especialmente saber quais os números que entram nestes cálculos e se alguns não deveriam ter entrado. Por exemplo, seria importante termos bem claramente se a área apresentada como sendo ocupada por os rebanhos de gado (e que portanto poderia ser liberada pela substituição da carne animal pela carne in vitro) envolve ou não também o gado leiteiro que não é destinado ao abate, a menos que se claramente existam planos de também substituir o leite e outros derivados.

Existem também outros produtos derivados desses rebanhos como o couro, para citar só um deles, que teríamos que substituir por fibras sintéticas derivadas de produtos petroquímicos e isso precisaria ser também computado, sem mencionar os empregos e as comunidades que se organizam a partir dessas atividades e que precisariam de alternativas. Outra questão é que sabemos que existe espaço para aumento da eficiência na criação de gado e que diferentes países têm realidades diferentes que precisam ser levadas em conta.

Ano passado um livro escrito por Simon Fairlie, chamado ‘Meat: a Benign Extravagance‘, provocou várias entrevistas e um interessante artigo do jornalistas George Monbiot, em que alguns dos números usados nessas estimativas são questionados. Por exemplo, os 18% das emissões de gases estufa geralmente creditadas pela ONU ao  gado são calculados aparentemente incluindo-se toda a área desmatada como se esta fosse toda para a produção de gado, enquanto na realidade parte dela é resultado da expansão e desenvolvimento comercial e urbano e pela indústria madeireira, confundindo as fontes. A área de produção de alimentos vegetais para sustentar esses rebanhos também entra nesse tipo de conta, mas geralmente só seria relevante quando as plantas cultivadas pudessem ser também usadas na nossa alimentação, mas esses animais alimentam-se também de espécies que nós não consumimos, convertendo grama em proteína animal. Portanto, os cálculos para animais alimentados através de pastagem devem produzir resultados diferentes. O que mostra que boa parte do problema vem do modo que a carne é produzida atualmente. Segundo Monbiot, baseado no livro de Fairlie, enquanto o gado é um ótimo conversor de grama em biomassa ele, entretanto, é péssimo ao converter comida concentrada como as das rações em carne, como ocorre em muitas regiões do mundo em que o gado é criado confinado e em regime intensivo, quando na realidade são os porcos os maiores conversores deste tipo de comida, podendo usar subprodutos da alimentação humana. Isso sem falar na ideia de alimentar gado bovino com rações a base de ossos e carne animal que inclusive podem estar por trás de epidemias de doenças priônicas, como a da vaca louca.

Portanto, existiria muito espaço para reestruturação das cadeias produtivas, ainda que provavelmente será necessário diminuir o consumo para níveis mais aceitáveis conforme a população crescer, o que não pode ser negado mesmo pelo carnívoro mais fervoroso.

Mas mesmo com esses potenciais alertas em mente, não me parece que caso tudo isso fosse levado em conta, as vantagens ecológicas e econômicas da mudanças para sistemas de cultivo in vitro de carne desapareceriam por completo. Sem esquecer que, além de tudo isso, ainda teríamos as motivações éticas que nos levariam a gravitar nesta direção e mesmo que não ocorresse a substituição total, uma redução substancial já seria um feito e tanto.

A questão é que tudo isso depende primeiro da viabilidade da produção da carne in vitro e o artigo chama a atenção para alguns dos problemas que surgem neste processo. Eu destaco três pontos que mais me chamaram a atenção e sobre os quais tenho tentado me informar nos últimos anos

O primeiro grande problema é que para que o processo seja viável e passamos a não mais depender dos animais é preciso que as células retiradas deles possam se proliferar in vivo e por isso não podermos trabalhar imediatamente com células musculares esqueléticas adultas já completamente diferenciadas. Precisamos de células progenitoras não diferenciadas as chamadas células tronco que possam ao mesmo tempo multiplicar-se renovando nossos estoques delas e diferenciarem em tecidos muscular quando acharmos apropriado e em quantidades adequadas. Então, caso a maioria das células se diferenciem em células musculares podemos perder as matrizes pluripotentes e caso poucas delas se diferenciem, o processo simplesmente não vale a pena.

Normalmente, isso ocorre nos animais durante o seu processo de desenvolvimento e crescimento e a passagem de cultura se dá através da reprodução dos mesmos que seria análoga ao processo de ‘repicação’ das células tronco indiferenciadas para manter os estoques de maneira permanente. O alvo ideal deste tipo de iniciativa seriam as células tronco embrionárias que podem replicarem-se continuamente e dar origem, em tese, a qualquer tipo de tecido. Na realidade, nas últimas décadas foram isoladas várias dessas linhagens que podem ser mantidas in vitro virtualmente para sempre, obtidas a partir de vários mamíferos entre os quais roedores e mesmo seres humanos, com algumas dessas linhagens obtidas aqui mesmo no Brasil.

Infelizmente, nenhuma dessas linhagens foi obtida de animais como bois, porcos e carneiros e por enquanto temos que nos consolar com as células tronco adultas ou progenitoras embrionárias ou pós-natais pluripotentes, isto é, com bem menos flexibilidade e potencialidade do que os tipos embrionários totipotentes. Contudo, mesmo se conseguíssemos isolar e manter células tronco embrionárias desses animais de interesse, ainda teríamos o mesmo problema que temos com as células progenitoras musculares dos adultos (ainda que seja mais complicado fazer isso com as embrionárias totipotentes) que é como afinal controlar sua proliferação e diferenciação de modo que o processo seja confiável, nos permitindo obter tecido muscular suficiente e de modo rápido e econômico de modo que os objetivos de produção em larga escala sejam exequíveis.

Por causa das dificuldades de se controlar precisamente a diferenciação das células tronco embrionárias em tecido muscular adulto, a maioria dos estudos sugere que a fonte principal inicialmente seriam mesmo células progenitoras musculares, como mioblastos embrionários ou pós-natais/pós-nascimento, chamadas ‘células satélite’. A forma mais simples de fazer esses cultivos seria usando estes tipos de células derivados a partir de uma  única linhagem original ou cocultivá-las com células adiposas, para depois serem coletadas e usadas na preparação de carne processada como salsichas, nuggets, hamburgeres etc, pois criar carne de verdade, demandaria o crescimento de vasos sanguíneos e a formação de tecido conjuntivo de maneira a imitar o sabor, densidade e texturas características da carne; e disso ainda estamos bem longe.

As metodologias em que são usados estruturas de suporte, onde é aplicada tensão nas células em cultura, são adequadas para estas formas mais sem graça de produção in vitro de carne, destinadas ao processamento. Elas provavelmente também precisariam ser aromatizadas e ‘saborizadas’.

Já para criar tecidos mais completos e complexos, uma boa dose de imaginação e tecnologia deverão entrar em jogo e isso nos leva ao próximo problema.

Um terceiro problema associado com o anterior, vem do fato que, nos animais, o tecido muscular esquelético é o que é por causa da contínua manutenção de tônus muscular que por sua vez vem da interação do arranjo dos músculos, dos tendões e ligamentos que os unem uns aos outros e aos ossos, com a  gravidade e com o contínuo input de atividade neural que mantém padrões de contração mínimos, isso sem falar no próprio exercício que esses animais fazem ao andar e pastar. Portanto, além de se proliferarem (via divisão das suas formas progenitoras) as células musculares precisariam crescer de verdade e para isso seria preciso mais do que um simples biorreator, mas uma plataforma tecnológica capaz de simular o tipo de interações eletroquímicas e mecânicas que causam a hipertrofia muscular, pois não se quer apenas uma fonte de proteína animal, mas sim carne e carne tem textura e densidade, como havia comentado, além de uma série outras peculiaridades que a fazem o que ela é, e que variam de acordo com a linhagem genética e a forma de criação de cada tipo de animal de rebanho.

Nada disso parece impossível e soluções inteligentes e até simples podem ser propostas a qualquer hora, mas são fatores importantes de serem levados em conta quando nos voltamos a esta alternativa. Compreender os desafios técnicos que nos aguardam e quanto de dinheiro precisa ser desembolsado e o quanto de criatividade empregada, nos prepara melhor para os revezes e permite discutir com mais consciência as possíveis soluções.

Por exemplo, um grupo de pesquisadores interessado em estudar a perda de músculo esquelético em seres humanos, resolveu criar um sistema para analisar melhor a situação in vitro e, em um estudo de prova de princípio, conseguiu construir uma cultura de várias camadas de células musculares esqueléticas, derivadas de células satélites neonatais, que se distribuíram em um padrão de organização 3D que imita muitas das características do tecido intacto. As culturas em multicamadas eram compostas de miotubos multinucleadas alongadas que expressão o gene MyoD e os estudos histológicos realizados mostraram quer era possível distinguir múltiplas camadas de miotubos. Vários marcadores bioquímicos e genéticos forma detectados como sendo expressos nas amostras celulares em níveis semelhantes ao da musculatura esquelética de adultos e medições fisiológicas destes músculos esqueléticos ‘engenheirados’ mostraram que eles ‘tetanizam’ e exibem um comportamento fisiológico de comprimento-força, ainda que as forças desenvolvidas por área da seção transversal tenham sido inferiores ao do músculo esquelético nativo de ratos. De novo, o problema é viabilizar isso em grande escala e verificar se não existe nenhum problema bem pior aguardando pelos pesquisadores logo alí na esquina.

Alguns dos entusiastas da produção de carne in vitro não parecem compreender isso, como mostra o artigo da SciAm preferem culpar a falta de interesse e motivação, mas apesar do foco ser um dos fatores que atrasam o desenvolvimento deste tipo de tecnologia, muitas outras coisas sobre as quais temos muito menos controle também se afiguram em nossos horizontes mais próximos.

Embora a captação de recursos para as pesquisas nessa área tenha sido algo particularmente complicado, e alguns pessoas como Eelen tenham atribuído a falta de interesse e seriedade dos cientistas e agências financiadoras, não é possível negar que vários desafios técnicos precisam ser encarados e para todos eles é necessário tempo e dinheiro além de mentes muito argutas e críticas. Isso tem causado frustração em muitos dos que defendem estas iniciativas e devem servir para nos preparar para o fato de podermos estar bem longe de viabilizar esta tecnologia.

O primeiro hamburguer cultivado em laboratório, deverá ser produzido ainda este ano e custará algo em torno de $345.000, pelo menos, de acordo com o biocientista Mark Post, da Universidade de Maastricht, na Holanda, que espera produzir esta pequena iguaria ainda este ano. Se compararmos ao um milhão de dólares prometido pela organização PETA já dá para perceber como estamos longe de transformar esta empreitada em uma atividade de escala e esta é realmente a maior preocupação, como lembram alguns pesquisadores que escreveram em seus blogs sobre o assunto. Como diz a bióloga de sistemas, Christina Agapakis:

Sempre que eu ouço sobre o escalonamento industrial como uma cura para tudo, meu alarme cético começar a disparar porque escala é o deus ex machina de tantas propostas científicas, muitas vezes minimizada pelos cientistas (eu incluída) simplesmente como um “problema de engenharia.” Mas quando estamos falando de alimentos e sustentabilidade, a escala é exatamente o que alimenta uma população grande e crescente. Escalonamento não é apenas um pensamento para depois, muitas vezes é o fator chave que determina se uma tecnologia comprovada em laboratório torna-se uma realidade econômica e ambientalmente sustentável. Olhando para além do hype da carne “sustentável” e “livre de crueldade”, para os detalhes de como funcionam as culturas de células expõe-se o quão difícil esta escalonamento seria.

A cultura de células é uma das técnicas mais caras e de maior uso intensivo de recursos da biologia moderna. Manter as células quentes, saudáveis, bem alimentadas, e livre de contaminação exige um trabalho incrível e energia, mesmo quando escalonado para os recipientes de 10.000 litros que as companhias de biotecnologia usam. Além disso, mesmo naqueles recipientes sofisticados, as técnicas tridimensionais que seriam necessárias para crescer bifes reais com uma mistura de músculo e gordura não foram ainda inventadas, embora não por falta de tentativa. (Esta tecnologia poderia beneficiar principalmente nossa capacidade de fazer as substituições de órgãos artificiais.) Adicione a isso o fato de que esses espetos tridimensionais de carne teriam que ser exercitados regularmente, com máquinas de alongamento, essencialmente ginásios de carne elaborados, e você pode começar a compreender o incrível desafio de escalar carne in vitro.

Lembro que ainda na graduação, li outro artigo sobre as perspectivas de produção in vitro de carne e na época o principal desafio era não existir nenhuma forma simples e viável de nos livrarmos da dependência direta de animais de rebanho para produzir carne in vitro. Entre os diversos ingrediente dos meios de cultura celular, o soro fetal era na época insubstituível e como ele é obtido de abatedouros simplesmente não fazia sentido produzir carne in vitro. Anos depois já existem receitas que dispensam o soro fetal bovino e em tese é possível cultivar células sem uma dependência tão direta de insumos animais, ainda que os custo seja completamente proibitivos especialmente para a produção em larga escala. Segundo John Timmer, o meio isento de soro que ajuda essas células-tronco a crescerem custa atualmente por volta de $250 cada meio litro e a empresa que comercializa este meio de cultura estima que são necessários pelo menos nove litros para expandir uma população de células-tronco até um ponto onde seja possível trabalhar com elas. E nesta gasto ainda não estão incluídos os custos dos vários fatores de crescimento que são necessários para a maioria dos tipos de células crescerem em cultura. Mas claro isso não precisa continuar assim para sempre e mostra como alguns problemas vem sendo superados, mesmo que muito lentamente.

Algumas soluções podem ajudar a disseminar mais esses esforços e focá-los mais em certos problemas. Uma forma óbvia vem da colaboração mais estreita com os cientistas mais preocupados com resolver problemas médico especialmente na área da medicina regenerativa e das biopróteses. Mas, infelizmente, a solução que talvez fosse a mais direta (e que não vejo sendo discutida) e que poderia facilmente juntar essas duas áreas, claramente esbarrar em tabus muito arraigados em nossa sociedade.

A utilização das linhagens de células tronco embrionárias humanas seria um saída pois os entusiastas poderiam valer-se da larga experiência destes pesquisadores, e muitos dos esforços poderiam desembocar em soluções comuns, pois, por exemplo, além das terapias com células-tronco, existe a perspectiva da produção de tecidos biológicos humanos in vitro para transplantes, especialmente pele e órgãos como coração, fígados, rins e pulmões. Em todos os casos precisam ser desenvolvidos sistemas e matrizes de cultura tridimensionais que permitam que esses tecidos e órgãos adquiram suas características in vitro, mas que normalmente depende destes tecidos e órgãos estarem integrados em um organismo em desenvolvimento.

Talvez fosse necessário algumas salvaguardas técnicas extras em função de eventuais doenças priônicas e virais que poderiam ser transmitidas pelo consumo de carne humana produzida in vitro (tomando-se especial cuidado com a fonte original das células) por que não haveria a necessidade das partículas infecciosas ‘pularem’ de hospedeiro, pois já estaríamos trabalhando com o mesmo hospedeiro, nós, além de ser algo em escala muito maior do que a envolvida na fabricação de órgãos para transplantes e enxertos. Nada, entretanto, aí me parece que não possa ser equacionado.

Até lá um consumo mais consciente e menos intenso de carne, associado a luta pela melhora das condições técnicas e humanitárias de sua produção – e, quem sabe, também caiba um maior incentivo àqueles que já objetam conscientemente ao consumo de animais mas que ainda não tornaram-se vegetarianos  para que sigam este caminho – é o que podemos fazer.

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  • Bartholet J. Inside the meat lab. Sci Am. 2011 Jun;304(6):64-9. Erratum in: Sci Am. 2011 Oct;305(4):10. PubMed PMID: 21608405.

  • Krause, Kenneth W. In vitro meat: an imminent revolution in food production? Skeptical Inquirer, Jan-Feb, 2012, Vol.36(1), p.28(4) 

  • Post, M.J., Cultured meat from stem cells: Challenges and prospects, Meat Science (2012), doi:10.1016/
    j.meatsci.2012.04.008

  • Tuomisto HL, de Mattos MJ. Environmental impacts of cultured meat production.  Environ Sci Technol. 2011 Jul 15;45(14):6117-23. Epub 2011 Jun 17. PubMed PMID: 21682287. [Link]

  • Edelman PD, McFarland DC, Mironov VA, Matheny JG. Commentary: In vitro-cultured meat production. Tissue Eng. 2005 May-Jun;11(5-6):659-62. PubMed PMID: 15998207.

  • Yan W, George S, Fotadar U, Tyhovych N, Kamer A, Yost MJ, Price RL, Haggart CR, Holmes JW, Terracio L. Tissue engineering of skeletal muscle. Tissue Eng. 2007 Nov;13(11):2781-90. PubMed PMID: 17880268.

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One Response to Carne de laboratório

  1. Anderson Fernandes says:

    Coloquem dinheiro nessas pesquisas, e incentivos financeiros para quem encontrar as soluções, que tudo será resolvido. Quando realmente existe interesse em resolver os problemas, e se preocupar com o fator do sofrimento animal e a degradação ambiental, as soluções aparecem. O projeto Manhatan e o projeto Apolo também eram vistos com muito ceticismo. Diante da emergência,os interesses colocaram somas enormes de recursos humanos e financeiros para conseguir seus objetivos (não importando se para bem ou para mal). O ceticismo e a falta de dinheiro atrapalham a imaginação.

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