As bactérias arsênicas que no final não eram tão arsênicas assim:

Nada de ‘biosfera das sombras’ e também nada de termos que reescrever os livros-texto de biologia. Os vários problemas metodológicos do trabalho original realmente interferiram com as conclusões do trabalho original e os resultados eram artefatos e não podiam suportar as conclusões mais fortes do grupo de pesquisadores por trás do artigo da Science. Os diversos métodos que eles usaram para inferir que a GFAJ-1 incorporaria arseniato no lugar do fosfato, simplesmente, não eram indicados para tal tarefa.

Rosie Redfield, uma das mais ativas críticas do trabalho original, foi uma das responsáveis por um dos dois estudos [1,2] que refutaram as conclusões de Wolfe-Simon e colaboradores (2011) [3,4]. Ela e vários colaboradores simplesmente cultivaram as mesmas bactérias em condições ricas em arseniato, isolaram seu DNA, mandando-o para que fosse analisado por cientistas em Princeton por métodos mais sensíveis e precisos, e nada de arseniato foi encontrado nessas biomoléculas. O outro grupo liderado por Julia A. Vorholt testou se essas mesmas bactérias sobreviviam realmente sem fosfato em meios mais cuidadosamente preparados e controlados do que os usados pelo grupo de Ronald S. Oremland, e no trabalho liderado pela geomicrobiologista Felisa Wolfe-Simon, e quando fizeram isso, a GFAJ-1, não cresceu.

Os dois estudos servem para mostrar a ciência em seu melhor, se autocorrigindo e controlando a ‘hype’ criada pela NASA e de certa forma permitida e estimulada pelos autores do artigo original da Science publicado online em 2010 e na versão imprensa em 2011. Este caso também mostra a importância dos blogs como veículos para a crítica em ciência e que possibilitam o rápido acesso, pelo público interessado, a essas críticas, além de deixar claro o problema das expectativas dos cientistas na prática científica e da pressão das agências financiadoras, no caso em particular, a NASA, que organizou a já notória conferência de imprensa que começou com essa história e onde as especulações mais exageradas foram emitidas. O artigo não deveria ter sido publicado com aquelas conclusões sem que outros testes adicionais fossem feitos já que as condições de cultura estavam longe de serem as ideias para que as conclusões pudessem ter um respaldo maior. Além disso, o grupo – especialmente através de seu líder Ronald S. Oremland – há muito tempo já vinha especulando sobre a ‘vida baseada em arsênio’ e sobre a possibilidade de encontrar uma ‘biosfera das sombras’ aqui mesmo na terra, ou seja, organismos com uma bioquímica alternativa e que pudessem servir de modelo para o que poderíamos esperar encontrar em outros mundos. Outro co-autor do estudo, o astrofísico e astrobiólogo  Paul C. Davies (cujo livro ‘O misterioso silêncio‘ já foi comentado aqui no blog), também é outro que tem levado entusiasticamente a sério a ideia de encontrar, aqui mesmo na terra, esses exemplos de bioquímica alternativa, o que ajuda a dar um pano de fundo para a polêmica e, quem sabe, a explicar por que os autores foram tão descuidados em suas conclusões.

Essa situação nos força a nos defrontamos com os aspectos sociais e psicológicos da comunidade científica e nos mostram a importância de compreendermos as ciências como empreitadas coletivas críticas e solidárias e não como o trabalho de pessoas ou grupos isolados e nem de estudos únicos.

____________________________________

  1. Reaves ML, Sinha S, Rabinowitz JD, Kruglyak L, Redfield RJ. Absence of Detectable Arsenate in DNA from Arsenate-Grown GFAJ-1 Cells. Science. 2012 Jul 8. [Published Online July 8 2012] doi: 10.1126/science.1219861

  2. Erb TJ, Kiefer P, Hattendorf B, Günther D, Vorholt JA. GFAJ-1 Is an Arsenate-Resistant, Phosphate-Dependent Organism. Science. 2012 Jul 8. [Published Online July 8 2012] Science doi: 10.1126/science.1218455

  3. Wolfe-Simon, F. et al. A bacterium that can grow by using arsenic instead of phosphorus. Science. Published online Dec 2, 2010. doi:10.1126/science.1197258

  4. Wolfe-Simon F, Switzer Blum J, Kulp TR, Gordon GW, Hoeft SE, Pett-Ridge J,Stolz JF, Webb SM, Weber PK, Davies PC, Anbar AD, Oremland RS. A bacterium that can grow by using arsenic instead of phosphorus. Science. 2011 Jun 3;332(6034):1163-6. doi: 10.1126/science.1197258

  5. Davies, Paul A shadow biosphere Cosmos magazine Issue 32, April 2010.

Créditos das Figuras:

As fotos dos protagonistas foram retiradas de seus sites pessoais ou institucionias.

Mono Lake, California, where the bacteria were found FLICKR CREATIVE COMMONS, JERRY KIRKHART

About rodveras

I'm a biologist and science writer who loves philosophy and sciences.
This entry was posted in Astrobiologia, Ciência, Genetica, Uncategorized and tagged , , . Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s