A ciência como um jogo de pinball

Por motivos didáticos, frequentemente a ciência (ou ‘as ciências’, como eu mesmo prefiro) é apresentada de forma esquemática e exageradamente simplificada, sugerindo que esta complexa atividade poderia ser definida, e facilmente demarcada de outras disciplinas e empreitadas cognitivas humanas  (isto é, que buscassem o conhecimento), em função de seu método característico, o chamado “método científico”.

Figura_001

A figura acima, traduzida e modificada de How Science Works, ilustra um destes esquemas.

Esta concepção, por mais disseminada que seja, infelizmente é bastante problemática e as tentativas ao longo do tempo, principalmente no último século, de definir este tal ‘método científico’ mostraram-se bastante decepcionantes, com as propostas oscilando entre a generalidade pouco útil, que transforma quase qualquer empreitada cognitiva e técnica em uma ciência, de um lado, e o excesso de rigor, de outro, que faz com que muitas disciplinas e campos do conhecimento tremendamente bem sucedidos, de acordo com múltiplos critérios, simplesmente, não fossem enquadrados como ciências a despeito da tradição dessas disciplinas.

Em virtude destas dificuldades, um certo consenso se formou, entre os historiadores e filósofos das ciências, que considera não haver um ‘método científico’ stricto senso, ou seja, não há um método ou regra (ou conjunto de métodos ou regras) que permita definir o que é ciência de maneira não ambígua e que ao ser aplicado dê sempre os resultados corretos e que ele mesmo não seja passível de crítica, investigação, aprimoramento e eventual abandono e substituição. Não há, portanto, uma receita de bolo ou um algoritmo com passos simples que, ao serem seguidos e somente se eles forem seguidos, no final do processo nos levará a obter um resultado ‘científico’. A busca por critérios de demarcação necessários e suficientes e que se mostrariam ahistóricos e neutros em relação aos tópicos e áreas de investigação foi algo que simplesmente se revelou uma quimera, mesmo que não possamos negar que existam várias estratégias de inferência, além de ferramentas de teste e formulação de hipóteses, que são muito poderosas e bastante difundidas (Veja por exemplo, “Método Científico?” e a série de post sobre Ciência e Inferência: Partes I e II).

Assim, as iniciativas de demarcação modernas [1] acabaram por perder seu caráter genérico e tornaram-se muito mais pontuais e dependentes do contexto do que antes se almejara, empregando-se, por exemplo, comparações com áreas (cujo rigor já é reconhecido e cujos frutos intelectuais e tecnológicos bem apreciados) que sobreponham-se em relação aos alvos da disciplina a ser avaliada. A partir deste ponto enão passa-se dar especial ênfase à análise dos objetivos propriamente ditos do campo, avaliando como eles relacionam-se com os métodos empregados para atingir tais objetivos e as maneiras como as comunidades de investigadores se organizam para tal feito; atentando, principalmente, à forma como lidam com resultados negativos, anomalias e outros tipos de problemas.

Feitas estas ressalvas, que são importantes para evitarmos o ‘cientificismo’ [2], não há, entretanto, como negar que uma apresentação mais esquemática, porém, cuidadosa e que não se pretenda exaustiva, sobre algumas das características principais das diversas formas de investigação científica pode ser muito útil. Este tipo de abordagem pode ser muito importante, especialmente, ao apresentarmos as ciências para alunos do ensino médio e mesmo para os que estejam ingressando nas universidades. Desta maneira não podemos simplesmente nos furtar de apresentar aos estudantes as várias normas epistêmicas, estratégias e heurísticas de investigação, bem como as ferramentas analíticas, teórico-conceituais e de validação que são empregadas por muitas disciplinas científicas.

É preciso, por exemplo, tratar da importância e das limitações das diversas estratégias de inferência, que, por sinal, não são exclusivas da prática científica, mas comuns a qualquer forma de investigação crítica e sistemática. Também não podemos deixar de discutir as maneiras como são levantados e escolhidos os problemas empíricos e conceituais a serem investigados e por que devemos formular de maneira clara e precisa nossas hipóteses de trabalho, escolhendo métodos de avaliação apropriados e o mais rigorosos que as circunstâncias permitirem, juntamente com procedimentos de análise e testagem que levem em conta as diversas fontes de erro e distorção que conhecemos.

Além de tudo isso, é essencial que abordemos o fato das ciências serem atividades eminentemente sociais, especialmente por que muitos dos principais valores epistêmicos são implementados pela organização das comunidades científcas que, por sua vez, se inserem em um ambito ainda maior da sociedade, sendo afetadas e afetando outras partes da mesma.

Uma dessas inciativas, desenvolvida pela universidade de Berkeley, “Understanding Science: How Science really works”, procura mostrar por meio de um esquema (não tão simples assim) de maneira mais realistas como funcionam as ciências e mesmo que ainda envolva certa idealização e simplificação parece ser bem mais efetiva e esclarecedora que os velhos esquemas e a adulação ao método cientifico.

Figura_002Normalmente apenas a região central intitulada ‘testando ideias’ é capturada pelos esquemas tradicionais que além de tudo passam uma impressão de linearidade que é bem o oposto do que em geral ocorre durante esta fase do desenvolvimento e testagem de hipóteses. O esquema também pode ser desdobrado em maiores detalhes que nos ajudam a perceber um pouco mais o tipo de coisas com as quais depara-se um cientista. Clique na figura para poder ler as letrinhas miúdas.

Figura_003

O real processo da ciência (‘The real process of Science’):

Acima, um pequeno vídeo que explica os esquemas anteriores, ilustrando, com um exemplo prático o processo de investigação científica advindo de uma de suas muitas áreas, a biologia. Como este vídeo e os esquemas nos permitem vislumbrar, o processo de investigação científica é bem mais rico, dinâmico, interessante e, por vezes, confuso do que nos é apresentando em muitos manuais e discussões introdutórias; e na realidade, como afirmam no vídeo, este processo nunca termina. Muitas vezes este processo  volta-se sobre si mesmo, o que ocorre quando os próprios métodos são escrutinados, melhorados ou substituídos por novos métodos e quando novas ferramentas de investigação são propostas e desenvolvidas.

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* O cientificismo é um termo pejorativo que designa uma certa perspectiva em que só as ciências, principalmente as ciências naturais, seriam abordagens dignas de investigação e busca de conhecimento, geralmente menosprezando outros campos de pesquisa e investigação, como as humanidades, em particular a história e a filosofia (e suas diversas subdisciplinas como a epistemologia, a ética e a metafísica), e mesmo as ciências sociais. Algumas vezes o termo é empregado como equivalente a ideia que a abordagem das ciências naturais não teria qualquer limite e que poderia ser capturada pela camisa de força do tal “método científico”, compreendido, claro, da maneira restritiva e ahistórica que eu havia comentado. É importante ressaltar que, embora muitas pessoas que se intitulam como céticas e mesmo muitos cientistas de primeira realmente possam ser descritos como cientificistas, a palavra também é um termo de abuso, muitas vezes sendo usada de maneira injusta, como simples forma de se esquivar de críticas e de se imunizar de um escrutínio mais metódico e rigoroso, como é comum entre os defensores das pseudociências e de certas práticas místicas e religiosas.

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Referências:

  1. Hansson, Sven Ove, “Science and Pseudo-Science“, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Winter 2012 Edition), Edward N. Zalta (ed.).

  2. Haack, Susan ‘Seis sinais do Cientificismo‘ (tradução de Eli Vieira-Jnr de Haack, Susan ‘Six signs of scientism’ Logos & Episteme, Volume III, Issue 1, pages 75-95) 2012. [PDF do original]

Créditos das Figuras:

As figuras foram traduzidas das figuras originais do site Understanding Science por mim apenas para fins de educação e divulgação científica. Todos os direitos pertencem aos autores das versões em inglês.

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