Animais vão a farmácia?

Não é de hoje que sabemos que animais, como chimpanzés, por exemplo, procuram ativamente por certas plantas para tratarem determinados tipos de problemas de saúde. Porém, novos estudos têm mostrado que a automedicação entre animais pode ser uma prática bem mais disseminada do que imaginávamos. De acordo com o relatado em um rb2_large_grayartigo publicado na revista Science, pelo ecologista Jacobus de Roode, do departamento de biologia da Universidade Emory e dois colegas, Thierry OLYMPUS DIGITAL CAMERALefèvre e Mark D. Hunter, respectivamente, do Institut de Recherche pour le Développement, em Montpellier, na França, e da Universidade de Michigan, não são apenas os animais que exibem altas capacidades cognitivas, como os primatas, isto é, capazes de observar, aprender e tomar decisões conscientes, que se automedicam [1]. Diferentes animais usam ‘medicamentos’ para tratarem suas doenças tanto por mecanismos apreendidos como aparentemente inatos. O mdhunterfato de mariposas, formigas e moscas de frutas fazerem uso de automedicação tem um impacto profundo na ecologia e na evolução dos hospedeiros e parasitas, como afirma Mark Hunter, professorOLYMPUS DIGITAL CAMERA do departamento de ecologia e biologia evolutiva, da universidade de Michigan, em um release de impressa da própria universidade [2]. Por causa disso, segundo os autores do artigo, qualquer conceito de automedicação exclusivamente baseado na aprendizagem torna-se insuficiente. Muitos animais podem usar medicação através inata em vez de respostas aprendidas.

A automedicação animal também está na base de um outro campo de estudo mais aplicado. Assim como existem, a ‘etnofarmacognosia‘ e ‘etnofarmacologia‘ (em que são estudados os conhecimentos sobre plantas e fitoterapia de comunidades tradicionais), também existe o campo da chamada ‘zoofarmacognosia‘ [3]. Nesta área de estudo, os pesquisadores observam de comportamentos ligados a automedicação, por parte de animais, como forma de fazer a prospecção de novos fármacos. Mas o estudo da automedicação animal pode trazer outros benefícios a nossa espécie, especialmente no que tange espécies de interesse econômico, mas deixemos isso para o final.

As primeiras descrições da automedicação foram de vertebrados doentes consumindo compostos secundários de plantas específicos com atividade antiparasitária e por causa destes primeiros relatos é que a automedicação em animais, de acordo com os autores, tem sido definida, muitas vezes, de maneira bem restrita como a utilização de produtos químicos antiparasitários derivados do metabolismo secundário de plantas ou de outras substâncias não nutritivas por herbívoros. Porém, as fronteiras entre nutrientes, medicamentos e toxinas são bastante fluidas e, normalmente, é apenas a quantidade usada de uma dada substância química, que é o ponto mais relevante. Isso faz com que apesar dos exemplos tradicionais de automedicação animal envolver a ingestão de plantas específicas apenas quando os animais estão doentes, vários exemplos mais modernos, incluem animais o aumentam a ingestão de substâncias químicas específicas que já fazem parte da dieta destes animas em certas circunstâncias. Além disso, não é apenas o uso terapêutico destes compostos que é registrado, mas também o uso profilático em que a ingestão de certas substâncias se dá tanto por indivíduos infectados como não infectados, com a automedicação servindo para prevenir a infecção pelo parasita, geralmente, em resposta a condições em que há elevado risco do infecção ou do perigo do parasita [1].

Outro ponto de muito interessante é que embora, muitos casos estudados, envolvam a automedicação propriamente dita, existem outros casos em que os animais medicam sua prole,como é o caso das moscas de futa, sobre as quais foi mostrado que elas colocam seus ovos preferencialmente em alimentos com alto teor de etanol quando detectam a presença de vespas parasitoide. Isso reduz o risco de infecção de sua prole e é um exemplo do que os autores chamam de ‘profilaxia transgeracional‘. De maneira semelhante, as borboletas monarca infectadas por parasitas podem proteger sua prole, contra os altos níveis de crescimento do parasita e virulência, ao depositarem seus ovos em serralha antiparasitária, a chamada ‘medicação terapêutica transgeracional‘. Enquanto isso, formigas da madeira incorporam resina antimicrobiana de árvores coníferas em seus ninhos e isso impede o crescimento de micróbios em suas colônias, é o um exemplo do que os pesquisadores chamam de ‘profilaxia social’ [1].

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Fotos: Babuíno:wikimedia commons; Lagarta urso lanosa: Michael Singer; Mosca de frutas: animals animals/superstock; Formiga madeira: Hugo Darras; borboleta Monarca: Jacobus c. de Roode

Por causa deste novos estudos, os três cientistas propõem tirarem a ênfase do ‘auto’ na automedicação, aceitando um quadro conceitual mais amplo que leve em conta a aptidão conferida por estas estratégias sejam elas voltadas para os próprios indivíduos, suas colônias ou sua prole.

Os autores fazem um alerta, embora existam muitos exemplos de comportamentos muito sugestivos de automedicação, nem sempre as supostas vantagens em termos de aptidão são facilmente demonstráveis. Um exemplo, é o fato de muito comumente primatas ingerirem material vegetal sem qualquer valor nutricional claro, mas com propriedades antiparasitárias conhecidas, como no caso em que mastigam o mesocarpo da Vernonia amygdalina e engolem plantas ásperas inteiras. Porém, ainda não sabemos se a infecção por parasitas é o gatilho deste comportamento e se este comportamento realmente aumentam a aptidão dos indivíduos que praticam. Outro exemplo vem da observação que pardais e tentilhões adicionam em seus ninhos bitucas de cigarros, que são ricas em nicotina, aos seus ninhos. Os pesquisadores responsáveis por este artigo sugeriram que esta prática reduziria a infestação dos ninhos por ácaros, mas como chamam a atenção, Roode, Lefèvre e Hunter [1], ainda não sabemos se esta pratica aumentam a aptidão

Um chimpanzé adulto mastigando o mesocrpo da planta Vernonia amygdalina enquanto está muito infectado pelo nematode, Oesophogostomum stephanostomum. Foto: M.A. Huffman

Um chimpanzé adulto mastigando o mesocrpo da planta Vernonia amygdalina enquanto está muito infectado pelo nematode, Oesophogostomum stephanostomum. Foto: M.A. Huffman

desses pássaros.

Os autores, então, listam uma série de condições que precisam ser satisfeitas para que possamos concluir definitivamente que um comportamento é uma forma adaptativa de medicação terapêutica:

1) O comportamento deve envolver a ingestão ou a aplicação externa de uma terceira espécie ou composto químico.

2) O comportamento deve ser iniciado por infecção parasitária. Infelizmente, segundo os autores isso nem sempre é fácil de estabelecer, especialmente a partir de estudos de campo, o que demanda estudos experimentais mais bem delineados e controlados.

3) O comportamento deve aumentar a aptidão do indivíduo infectado ou de seu parente genético (aptidão inclusiva).

4) O comportamento é caro para indivíduos não infectados, se assim não fosse, todos os indivíduos iram exibi-lo

5) O comportamento é relevante no ambiente natural do hospedeiro. Por isso demostrar a existência de medicamentos por meio de dietas artificiais, por si só, não demonstra a relevância das mesmas na natureza.

Condições semelhantes deverão ser satisfeitas para que possamos concluir sobre a profilaxia adaptativa, com exceção do fato desta classe de comportamentos serem exibidos quando ao risco de infecção e não a infecção propriamente dita.

Os pesquisadores, entretanto, ressaltam que uma condição muito citada como necessária para demonstrar a automedicação adaptativa, na realidade, não é tão importante assim. A ideia que comportamento deve reduzir a infecção por parasita ou ou a sua aptidão não é essencial por que comportamento de automedicação pode melhorar a aptidão hospedeiro sem reduzir a infecção ou a aptidão do parasita, por exemplo, ao aumentar sua tolerância a infecção, reduzindo os efeitos adversos da parasita no hospedeiro[1].

Apesar de muitos dos casos publicados não satisfazem todas estas condições, automedicação animal parece ser muito mais difundida do que se pensava inicialmente, isso leva os autores a defendem a importância de compreendermos melhor com este fenômeno afeta a ecologia e evolução das interações hospedeiro-parasita, o que pode ser feito por meio de investigação de quatro grandes consequências da automedicação animal:

Caso a medicação de animais reduza a aptidão dos parasitas, os autores afirma, esperaríamos observar efeitos na transmissão do parasita ou na sua virulência. Já existem alguns estudos que indicam que este parece ser o caso, com a automedicação realmente influenciando as interações entre os hospedeiros e seus parasitas [1].

Este fenômeno de medicação animal deve influenciar a evolução do sistema imunológico dos animais. Como a resposta imune é onerosa para os organismos vivos, os pesquisadores sugerem que os animais podem não lançar mão da mesma, caso mediquem-se. Investigar a potencial perda de tipos de resposta imune específicas em animais que valem-se da automedicação é um campo muito interessante e promissor para ser investigado [1].

Interações hospedeiro-parasita são alvos frequentes de estudos sobre a adaptação local dos organismos envolvidos nesta relação, mas, segundo os autores, poucos estudos fornecem evidências para a adaptação dos parasitas aos seus anfitriões locais ou vice-versa. Como a maioria destes estudos são executados por meio de experiências nas quais hospedeiros e parasitas de várias populações são expostos uns aos outros, sem que os hospedeiros possam medicar-se (na verdade sem saber se em condições naturais eles o fazem), uma parte importante da informação ambiental pode estar sendo perdida. Afinal de contas, a automedicação enquadra-se perfeitamente como uma estratégia de adaptação local do hospedeiro ao parasita. Isso demanda delineamentos experimentais mais complexos e realistas [1].

Por fim, os autores enfatizam que o estudo da automedicação animal é relevante também para a produção de alimentação para os seres humanos, uma vez que certas doenças em organismos agrícolas podem piorar quando os seres humanos interferem com a capacidade dos animais de se automedicarem. Como exemplo, eles teorizam que aumento no parasitismo e em doença nas abelhas pode estar ligado a seleção, por parte dos apicultores, de abelhas com menor deposição de resina. Neste caso, a reintrodução de tal comportamento nas colônias de abelhas poderiam trazer grandes benefícios para o manejo das doenças, pelo menos segundo os autores do estudo [1].

Este estudo é um lembrete de como alguns de nossos comportamentos que consideramos extremamente humanos e, por isso, únicos, podem ser, de fato, muito disseminados entre os animais. Além disso, mostram o quanto podemos aprender ao observar a natureza e como os animais adaptam-se ao longo da evolução ao seu contexto ecológico local que muitas vezes inclui outros animas que os parasitam ou são parasitados por eles.

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Referências:

  1. de Roode JC, Lefèvre T, & Hunter MD (2013). Ecology. Self-medication in animals. Science (New York, N.Y.), 340 (6129), 150-1 PMID: 23580516

  2. Ericson, Jim “Self-medication in animals much more widespread than believed” University of Michigan News Service Published on Apr 11, 2013

  3. Costa-neto, Eraldo Medeiros. Zoopharmacognosy, the self-medication behavior of animals. Interfaces Científicas – Saúde e Ambiente, [S.l.], v. 1, n. 1, p. 61-72, set. 2012. ISSN 2316-3798. Acesso em: 21 Abr. 2013.

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