Disseminação de um novo comportamento entre baleias-corcunda

O aprendizado social ocorre, por exemplo, quando um membro de um grupo aprende ao observar o comportamento de outro membro grupo ou é diretamente ensinado ou tutelado neste processo por um membro mais experiente do grupo [1]. Os pesquisadores esperam que a transmissão de informação cultural, seja de habilidades ou de normas de conduta, aconteça em espécies altamente socializadas e de vida longa, onde o contato e o tempo para aprendizagem é maximizado [2]. Porém, embora este fenômeno tenha sido sistematicamente documentado em várias espécies de animais, tem sido particularmente difícil diferenciá-lo do aprendizado autônimo em animais de vida livre.

Entre as baleis-corcunda, Megaptera novaeangliae, as tradições de cantos já eram bem conhecidas, mas agora, em um novo estudo publicado na revista Science, um grupo de cientistas obteve evidências para a difusão de uma inovação comportamental estilistica, nas técnicas de alimentação, por meio de transmissão cultural, desde que ela teria surgido em um indivíduo em 1980 [2, 3, 4]. Neste novo estudo, os cientistas Jenny Allen, Mason Weinrich, Will Hoppitt e Luke Rendell valerem-se de uma nova abordagem conhecida como ‘análise de difusão baseada em redes‘ (ou NBDA, do inglês, “network-based diffusion analysis”) que foi utilizada em 27 anos de dados coletados sobre o comportamento de baleias corcundas, habitantes do golfo do Maine, que incluiam dezenas de milhares de observações [2].

Esta abordagem, proposta em 2009 por Franz e Nunn [1], analisa a difusão de características através de populações de animais, levando em conta a estrutura das rede sociais dos grupos que eles forma, ao rastrear como estas redes

[Allen, J, Hoppitt, W., Rendell, L. A Trendy Tail: Cultural transmission of an innovative lobtail feeding behaviour in the Gulf of Maine humpback whales, Megaptera novaeangliae. http://www.marinemammalscience.org/smmtampa/Allen_Jennifer_13-4.pdf

[Allen, J, Hoppitt, W., Rendell, L. A Trendy Tail: Cultural transmission of an innovative lobtail feeding behaviour in the Gulf of Maine humpback whales, Megaptera novaeangliae. http://www.marinemammalscience.org/smmtampa/Allen_Jennifer_13-4.pdf

direcionam as oportunidades de aprendizagem social [1]. Nesta estratégia, modelos baseados em agentes de aprendizagem social e associal são ajustados aos dados observados utilizando-se de estimativas da máxima verosimilhança. O mecanismo de aprendizagem, por traz do fenômeno de aprendizagem, pode ser, então, identificado por meio de estratégias de seleção de modelos baseadas no critério de informação de Akaike (AIC).

O modelo foi validado a partir de dados artificialmente criados baseados  em uma rede de coalimentação de macacos verdadeira. Os resultados mostraram que o NBDA se saiu melhor, ao diferenciar entre a aprendizagem social e não social, do que a análise da curva de difusão, que era o principal método anteriormente empregado nestes tipos de casos [1]. Esta foi a primeira vez que esta abordagem foi usada em estudos de populações selvagens.

As baleias-corcunda alimentam-se por meio de uma técnica chamada de ‘rede de bolhas’, em que os animais sopram bolhas de ar de baixo dos cardumes de peixes que, por causa disso, acabam convergindo para evitarem nadar através das bolhas.

As baleias, então, nadando de baixo para cima em direção a superfície, abocanham as grandes porções de peixes concentradas. O novo método de alimentação chamado de “lobtail” (‘cauda alta‘) é uma variação do método tradicional em que os indivíduos que o praticam batem na água com suas nadadeiras caudais logo antes de mergulharem para produzir as redes de bolha. Este método de alimentação foi primeiramente observado em um único indivíduo, em 1980, em uma amostra de 150 eventos de alimentação, e, hoje, após 27 anos, se expandiu para cerca de 37% da população [3]. Este primeiro evento ocorreu logo depois das principais presas destes animais, os arenques, terem escasseado e, mais ou menos, ao mesmo tempo que as populações dos “sandlances”, um peixe da família Ammodytidae, terem aumentando. Este método, aparentemente, é empregado especificamente para este tipo particular de presa que desova na região de Stellwagen, onde os cardumes desta espécie tendem a atingir grandes números [2, 3, 4].

De acordo com as análises derivadas da aplicação da NBDA, os modelos com um componente de transmissão social foram sempre mais bem apoiados (com diferenças de 6 a 23 ordens de magnitude) em relação aos modelos sem um componente de aprendizado social.

Rede social de baleias avistadas pelo menos 20 vezes. Neste diagrama os pontos azuis são indivíduos observados  praticando a alimentação por 'lobtail', enquanto os pontos vermelhos são aqueles que nunca foram observados alimentação por 'lobtail' [Science 26 April 2013: Vol. 340 no. 6131 pp. 485-488 DOI: 10.1126/science.1231976 ].

Rede social de baleias avistadas pelo menos 20 vezes. Neste diagrama os pontos azuis são indivíduos observados praticando a alimentação por ‘lobtail’, enquanto os pontos vermelhos são aqueles que nunca foram observados alimentação por ‘lobtail’ [Science 26 April 2013: Vol. 340 no. 6131 pp. 485-488 DOI: 10.1126/science.1231976 ].

Assim, os pesquisadores demonstraram que o padrão de propagação do comportamento seguia as redes de relações sociais dentro da população [2]. As análises do grupo de cientistas mostram que até 87% das baleias que adotaram a técnica ‘lobtail’ aprenderam-na de outras baleias corcundas [3]. Outro fator que ajudou na análise foi a distribuição espacial e temporal dos ‘sandlances’, pois através destas informações os pesquisadores puderem prever as taxas de aquisição do comportamento [2].

Os autores do artigo afirmam que estes dados, somando-se as muitas informações sobre as canções destes animais, deixam claro que esta espécie pode manter e desenvolver várias tradições independentes em suas populações. Segundo os pesquisadores, estas descobertas reforçam a tese de que os cetáceos representariam um ápice da evolução da cultural não humana, distinta da linhagem dos primatas [2].

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Referências:

  1. Franz M, Nunn CL. Network-based diffusion analysis: a new method for detecting social learning. Proc Biol Sci. 2009 May 22;276(1663):1829-36. doi:10.1098/rspb.2008.1824.

  2. Allen J, Weinrich M, Hoppitt W, Rendell L. Network-Based Diffusion Analysis Reveals Cultural Transmission of Lobtail Feeding in Humpback Whales. Science, 2013; 340 (6131): 485 DOI: 10.1126/science.1231976

  3. Ravn, Karen Humans are not the only copycats Nature News; 25 April 2013 doi:10.1038/nature.2013.12873

  4. Whales able to learn from others‘ University of St Andrews News; Thursday 25 April, 2013.

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