Filosofia das pseudociências

Nesse errático blog, mais uma vez volto a escrever sobre ciências. Desta vez, porém, o foco é em seu avesso: as pseudociências. Este é outro tópico para o qual sempre devoto algum atenção e volto de tempos em tempos. Não poderia ser muito diferente uma vez que ele está fortemente ligado ao meu interesse por divulgação e educação científica de qualidade, atividades constante ameaçadas pela disseminação de ideias pseudocientíficas.

Mas afinal, o que seriam as pseudociências?

Dito da forma mais simples possível, podemos chamar de pseudociências aquelas atividades que apresentam-se enganosamente como ciências – ou pelo menos assemelham-se superficialmente as disciplinas que consideramos científicas -, mas que não exibem as características que consideramos distintivas das ciências. Caso você já tenha lido algumas das minhas postagens sobre este tema e sobre o dito ‘método científico‘ [veja Método Científico?  e A ciência como um jogo de pinball] já deve ter percebido que estabelecer esta distinção nem sempre é uma tarefa fácil, muitas vezes exigindo uma análise mais pormenorizada, que raramente pode se reduzir a fórmulas simples e procedimentos algorítmicos.

A discussão sobre o que diferenciaria as ciências das pseudociências é ainda extremamente pertinente e continua sendo um ponto de pauta fundamental entre divulgadores, educadores e cientistas responsáveis. Infelizmente, nos últimos trinta anos, este tema perdeu tração, literalmente saindo de moda daquela que seria a principal disciplina que lidaria com este tipo de questão metacientífica, a filosofia da ciência.

Existem indícios, felizmente, que esta situação está mudando e uma nova leva de filósofos têm tentado recolocar a questão na pauta da filosofia da ciência contemporânea. Sobre este assunto segue um vídeo de um simpósio realizado na quarta conferência Europeia de Filosofia da Associação de Ciência que ocorreu em agosto de 2013, em Helsinque, na Finlândia.

O simpósio foi organizado pelo jovem filósofo belga Maarten Boudry, da Unversidade de Ghent, e pelo biólogo evolutivo e filósofo italiano, radicado nos EUA, Massimo Pigliucci, da Universidade da Cidade de Nova York. Além das apresentações dos dois filósofos, o simpósio conta com as palestras de outros dois filósofos, Carol Clealand e Sven Ove Hanssom, ambos co-autores (junto com Boudry e Pigliuci, também seus editores) de um livro publicado pela editora da Universidade de Chicago que tem o mesmo titulo do simpósio, “Philosophy of Pseudoscience: Reconsidering the Demarcation Problem” que conta também com outras contribuições de vários outros autores [1].

As palestras do simpósio (que tem suas contrapartidas nos vários artigos do livro) tratam do mesmo tema, o chamado ‘problema da demarcação’ – o problema da distinção entre ciências e pseudociências. Este tema, como Pigliucci deixa bem claro [1], não é somente relevante de uma perspectiva puramente intelectual, já que envolve a compreensão do que torna as ciências o que elas são – um tema tradicionalmente central na filosofia da ciência -, mas também porque tem consequências práticas sérias em nossas vidas.

Nós dependemos dos conhecimentos e das tecnologias produzidas pela investigação científica e, por isso, normalmente, consideramos as ciências as melhores estratégias que dispomos para compreender e manipular o mundo a nossa volta e a nós mesmos. Portanto, separar as alegações, atividades e ideias que se apresentam como sendo ‘científicas’, mas que não são realmente científicas, é uma atividade de importância óbvia, principalmente, quando as vidas humanas e dos animais, bem como nossa sociedade e o meio ambiente dependem destes conhecimentos e tecnologias.

Embora algumas vezes as pseudociências possam ser inofensivas, como é o caso de algumas terapias alternativas (sobretudo quando elas não desviam ou induzem os seus praticantes a abandonarem os métodos convencionais de diagnóstico e tratamento, sendo encaradas como simplesmente ‘complementos’), muitas vezes essas práticas e ideias podem ser bastante perigosas [1]. A disseminação dos vários tipos de ‘negacionismo’ é um desses casos mais emblemáticos. A negação da relação entre AIDS e a infecção pelo vírus HIV ou a negação do aquecimento global causado pela ação humana e, mais recentemente, a negação da eficácia da vacinação são alguns dos principais e mais assustadores exemplos desses movimentos que reivindicam para si a alcunha de ‘científicos’.

Portanto, estabelecer os limites entre as ciências e o seu avesso é um tópico de alta prioridade, já que precisamos decidir o que ensinar em nossas escolas e universidades; em que áreas ou tipos de pesquisas deveremos investir; ou em que conhecimentos deveremos basear nossas decisões políticas sobre saúde, meio ambiente, economia etc. O que aconteceu, porém, foi que nos últimos trinta anos o problema da demarcação tem sido considerado ultrapassado, defunto mesmo, para muitos filósofos da ciência. Esta postura é bem caracterizada pelos argumentos de um dos mais importantes filósofos da ciência moderno, o norte-americano Larry Laudan, que ajudou a assinar o atestado de óbito do problema da demarcação com um artigo publicado em 1983 [2]. Este simpósio (e principalmente o livro editado por Pigliucci e Boudry) serve portanto como uma (muito adiada) resposta – como afirma o próprio Pigliucci – a Laudan* [1].

Mas vamos voltar um pouco no tempo, ao artigo de Laudan e às suas conclusões, que resumem o debate que ocorreu nos 30 ou 40 anos anteriores. Em seu artigo de 1983 [2], Laudan argumentou que não deveríamos insistir no problema da demarcação por dois motivos principais:

  1. Não haveria como resolvê-lo. Segundo ele, como não podemos produzir critérios precisos que estabeleçam condições necessárias e ao mesmo tempo suficientes (e completamente atemporais) que nos digam sempre o que é ciência e o que não é, não podemos dizer o que é uma pseudociência. Empregar este rótulo, portanto, não acrescentaria nada a discussão.
  2. A demarcação, como compreendida por ele, é, na realidade, completamente desnecessária. O que importa não é dizer o que é ciência e o que não é. Para Laudan, o que realmente importa é avaliar se as alegações, ideias ou teorias são bem suportadas empiricamente e teoricamente bem desenvolvidas – ou seja, o que importa são as ‘garantias epistêmicas’ que nos são fornecidas para as aceitarmos**.

Talvez o principal motivo para o abandono do problema de demarcação seja decorrente das tentativas frustradas de se definir o que seria ‘o método científico’. Estas tentativas que podem ser rastreadas, pelo menos, desde os empiristas lógicos, do circulo de Viena, passando pelo Falsificacionismo de Popper, pela ideia de programas de pesquisa científica degenerados e progressistas de Lakatos e pelo emprego de critérios (ou normas) múltiplos, sugeridos por Kuhn [3]. Porém, a principal dificuldade que essas tentativas enfrentaram é que sempre foi exigido delas que suas definições não fossem nem vagas (ao ponto de abarcar quase todas as áreas da atividade intelectual humana) nem muito restritivas (caso contrário, poderiam deixar de fora áreas consensualmente aceitas como sendo ciências, mas que ou fossem muito jovens ou lidassem com tópicos muito complicados com os quais muitos dos métodos tradicionais das ciências naturais, por exemplo, não fossem aplicáveis). Sem dúvida, esta questão parece ter sido a principal motivadora do obituário do problema da demarcação,  ou seja, já que não eramos capazes de definir ciência com base em seu método, de maneira não ambígua, então, não deveríamos tentar definir as pseudociências também.

Porém, como explica Sven Ove Hansson, em um certo sentido, Laudan apenas transferiu o problema da demarcação para outra instância – ou seja, o da estipulação do que faria uma alegação, ideia ou teoria epistemicamente justificada ou não. Como Hansson comenta na sua apresentação, essa situação é inusitada porque ela parece sugerir que deveríamos nos concentrar na questão epistemológica mais ampla, deixando as ciências de lado, mas, mesmo depois de 30 anos, as ciências são ainda o ponto focal da filosofia da ciência, sendo mesmo consideradas como o tipo de conhecimento exemplar para a epistemologia. Isso parece querer dizer que, pelo menos de maneira tácita, ainda reconhece-se as ciências como peculiares em termos de suas garantias epistêmicas, o que por si só já sugere que haveria mais a discutir sobre o tema.

O que Pigliucci, Boudry e os demais colaboradores do livro defendem simplesmente é que mesmo que jamais possamos entrar em acordo sobre os tais critérios infalíveis, necessários, suficientes e atemporais, ainda assim, existe um incrível acordo entre filósofos e cientistas sobre quais alegações e áreas do conhecimento seriam científicas e quais seriam pseudocientíficas, e isso não seria à toa. Os vários critérios propostos ao longo do últimos cem anos normalmente conseguem identificar a maioria dos mesmos campos e alegações como sendo científicos e, de maneira complementar, também conseguem identificar [outros] dos mesmos campos como sendo pseudocientíficos, mesmo as abordagens sendo bastante diferentes umas das outras.

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(foto – Simon Wardenier)

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Cards by Crispian Jago, Caricatures by Neil Davies

Para os autores, o repudio e o abandono ao problema da demarcação deriva de uma série de confusões envolvendo vários tópicos e sub-tópicos relacionados, mas que deveríamos distinguir com mais cuidado.

De acordo com os autores, um dos problemas na perspectiva tradicional seria insistir que os critérios de demarcação devem ser necessários e ao mesmo tempo suficientes. Segundo Pigliucci, Boudry e Hanssson não haveria problema algum em admitir que existiria, ao invés de uma fronteira clara e bem definida, uma linha contínua entre as alegações, teorias e campos do conhecimento em termos das garantias epistêmicas que eles podem fornecer. Desta maneira, assim como existem exemplos claros de pseudociências, de um lado, e de ciências muito bem estabelecidas, de outro, haveriam também casos menos óbvios e fronteiriços que poderiam, eventualmente, com o tempo, tornarem-se mais claros, indo parar em um lado ou outro.

Outra confusão, de acordo com Boudry, surge do fato de Laudan parecer confundir dois problemas distintos: Aquilo que Boudry chama de ‘demarcação territorial’ e a demarcação de fato, entre ciências e pseudociências. Para Boudry a ‘demarcação territorial’ – entre campos do conhecimento ou áreas da atividade intelectual humana – é bem menos importante do que a demarcação ciências vs pseudociências. Também deveríamos ter cuidado e distinguir outras duas questões. A primeira delas envolvendo a distinção entre a ‘boa ciência’ e ‘má ciência’ (fraudes ou incompetência, por exemplo) e a outra associada ao problema de como lidar com as alegações de campos proto-científicos, porém, legítimos, em contraste com o conhecimento produzido por campos científicos mais maduros e já bem estabelecidos. Esses são todos tópicos também muito importantes, relacionados, mas que devem ser distinguidos da demarcação entre ciências e pseudociências.

Confundir todas essas questões e exigir que os critérios de demarcação deem conta de todas essas situações, todas ao mesmo tempo, também pode levar a problemas ***. Segundo Boudry, deveríamos concentrarmos não em critérios que servissem para diferenciar as ciências naturais da filosofia (ou de outras áreas das humanidades), mas buscar estratégias de distinguir o que tornam diferentes áreas como a astronomia, biologia evolutiva e pesquisa médica e biomédica, de um lado, da astrologia, criacionismo e homeopatia, do outro.

Podemos avançar muito na questão, de acordo com os autores, caso nos dermos conta que, embora nem todas as áreas científicas acima mencionadas compartilhem todas das mesmas características, ainda assim, elas compartilham várias características. O mesmo pode ser dito das áreas no lado das pseudociências e para as diferenças entre os dois grupos. O ponto crucial aqui é que as semelhanças e diferenças não precisam serem sempre as mesmas, em cada um dos casos. Na realidade, não é necessário nem ao menos que alguma semelhança específica, por exemplo, esteja sempre presente em todos os campos de um dos lados e ausente nos do outro lado. Caso existirem semelhanças (ou diferenças) o suficiente poderíamos classificar os campos de maneira bem eficiente. A ideia fundamental aqui é a de ‘semelhanças de família‘ proposta pelo filósofo Ludwig Wittgenstein. As áreas, campos, disciplinas ou programas de pesquisa formariam ‘clusters’ (‘agregados’) baseados em combinações diferentes de similaridades e não seriam classificadas tendo como base uma série de características que todas elas deveriam apresentar e que nenhuma delas deveriam estar presentes nas outras [1, 3].

Na verdade, esta proposta é muito próxima ao que se faz na prática. Muitos dos critérios mais versáteis e efetivos de demarcação que têm sido propostos desde os anos de 1970 e de 1980, a começar pelos sugeridos por filósofos como Paul Thagard e Mário Bunge, seguem nesta direção. De fato, eles produziram ou inspiraram muitas listas de verificação utilizadas, informalmente, por muitos dos profissionais envolvidos na divulgação científica e no combate às pseudociências [3]. Outras propostas, que seguem uma linha parecida, contrastam as supostas pseudociências a exemplos de ciências particulares, bem consolidadas, que sobreponham-se em relação aos seus alvos de investigação ou objetivos de estudo [3]. Desta maneira, práticas como a astrologia deveriam ser contrastadas com a astronomia, psicologia e biologia, já que muitas de suas alegações envolvem fenômenos estudados por estes campos. Esta abordagem coaduna-se com a ideia defendida por Alan Chalmers [4, 5]. O filósofo sugere que a diferenciação entre ciências e pseudociências devem começar pela identificação dos objetivos ou alvos das alegações (ideias, campos etc) e dos métodos pelos quais tais objetivos deveriam se alcançados, avaliando-os em termos de sua efetividade, clareza e exequibilidade, rigor etc em alcançar estes objetivos. Outras sugestões também concentram-se nas práticas efetivas das comunidades de investigadores, ou seja, como essas comunidades (quando existem) organizam-se, avaliam as alegações, ideias e evidências uns dos outros, se fazem isso criticamente ou não e, especialmente, como se comportam frente aos resultados negativos e críticas externas [1, 3, 4, 5].

Estas abordagens claramente não são infalíveis, mas são flexíveis o suficiente, de um lado, e rigorosas o bastante, de outro, para servirem de base para análises e esforços de demarcação efetivos e ao mesmo tempo justos, uma vez que não desprezam uma alegação, ideia, teoria ou campo simplesmente porque ela não se conforma com um critério específico atemporal.

Pigliucci também sugere que poderíamos avançar ainda mais neste projeto caso, além do conceito de semelhanças de família, empregássemos as ferramentas da lógica difusa para melhor caracterizar a ideia de um contínuo em relação as garantias epistêmicas das alegações e dos casos limítrofes, trazendo mais rigor ao projeto de demarcação [1].

Ainda no simpósio temos  a filósofa Carol Cleland, da Universidade do Clorado, em Boulder, que traz um enfoque diferente. Ela debruça-se sobre uma outra questão que é, contudo, também relacionada ao que comentei anteriormente. Cleland interessa-se pelas diferenças entre duas abordagens distintas da investigação científica que distinguiriam o que ela  chama de ‘ciências histórias’ (astronomia, geologia, paleontologia etc) e, em contraste, aquilo que ela chama de ‘ciências experimentais’ (física, química, genética, bioquímica etc); essas ultima, normalmente, tidas como ‘modelo’ de cientificidade nas ciências naturais. Essa diferenciação, inclusive, é utilizada por criacionistas como forma de rebaixar o status de campos e teorias que vão contra seus dogmas mais entranhados, como a cosmologia, astronomia, geologia, paleontologia e a biologia evolutiva. Não obstante, Cleland insiste que essa diferença de status epistêmico não se justifica. Para ela, o emprego de protocolos experimentais nas ciências natura não advêm, necessariamente, do maior rigor desses campos e, portanto, de maiores garantias epistêmicas intrínsecas das alegações destas disciplinas. De forma complementar, o emprego do raciocínio abdutivo (inferências pela melhor explicação), característico das ditas ‘ciências históricas’, não significaria falta de rigor e, portanto, menor confiabilidade das suas conclusões. Segundo a filósofa, essas diferenças nas estratégias de investigação e de testagem de hipóteses cientificas devem-se a diferenças entre o presente e passado e entre presente e futuro que caracterizam, respectivamente, os dois tipos de estratégias de investigação e as conclusões dos campos que empregam essas diferentes estratégias.

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Portrait by Theo Stroomer

No caso das ciências históricas o presente já está causalmente determinado pelo passado, que já aconteceu. Porém, este não é o caso das ciências experimentais. Nelas os resultados dos experimentos estão no futuro que ainda é indeterminado e pode sofrer a influência de vários fatores, caso eles não sejam bem controlados e devidamente antecipados. Esta assimetria é o que faria com que pesquisadores no presente possam contar com múltiplas linhas de evidências distintas que, porém, convergem, levando-os a uma mesma conclusão. Porém, isso não ocorre no caso das ciências experimentais nas quais as hipóteses devem ser testadas através de arranjos experimentais precisos que controlem e isolem as muitas variáveis intervenientes e confundidoras que poderiam levar a resultados espúrios. Assim, de acordo com Cleland, os pesquisadores empregam métodos experimentais precisos, cheios de controles rigorosos (e sempre que possível tentam replicar seus dados) não porque querem simplesmente confirmar hipóteses ou refutá-las, mas porque desejam evitar tanto os resultados falsos positivos como os falsos negativos [1]. Para Cleland são essas diferenças intrínsecas a dimensão temporal do que está sendo investigado que demandam estratégias de investigação e avaliação de hipóteses tão diferentes e não o suposto fato de uma área ser menos ou mais ‘científica’ do que a outra:

As hipóteses da ciência naturais históricas preocupam-se tipicamente com passado remoto, eventos  e processos singulares, por exemplo, o que teria causado a extinção em massa do final do Cretáceo. A evidência para tais ocorrências é adquirida através de estudos de campo no caótico, incontrolável mundo natural. Como as hipóteses sobre o passado remoto não podem ser testadas diretamente da forma clássica da ciência experimental, a ciência histórica é, por vezes julgada inferior. […] Versões tradicionais do método científico (indutivismo e falsificacionismo) são baseados em um a análise – ‘tamanho único- serve para tudo’ – profundamente lógica falha da relação avaliativa entre hipótese e observação. As metodologias distintas das ciências históricas e experimentais, no entanto, refletem diferenças causais disseminadas em suas situações evidenciais. O raciocínio evidencial dos cientistas históricos é fundado sobre o princípio da causa comum, que afirma que as associações aparentemente improváveis ​​entre os traços atuais do passado são melhor explicadas em termos de uma causa comum. A verdade do princípio da causa comum repousa sobre uma fisicamente difundida assimetria do tempo de causalidade: Em resumo, o presente contém registros do passado, mas não do futuro. Visto por este prisma cientistas históricos realmente tem uma vantagem evidencial sobre experimentalistas clássicos. [do abstract, 6]

O trabalho de Cleland é revelador porque lança luz em uma outra questão importante e frequentemente ignorada. Algumas disciplinas científicas cujas conclusões não agradam a certos segmentos da sociedade são atacadas e acusadas de pseudocientíficas empregando-se uma perspectiva muito simplista como deveriam ser as ciências; uma perspectiva que privilegia apenas os testes experimentais. Isso é exatamente o que fazem os criacionistas que são basicamente defensores de um dos tipos mais característicos de pseudociência, não estando eles mesmos envolvidos em nenhum programa experimental que vise testar suas próprias ideias. Eles aproveitam-se de certas concepções simplistas sobre o ‘método científico’ para atacar a legitimidade da biologia evolutiva, da paleontologia e das geociências. Esse simples motivo já torna a discussão filosófica sobre as pseudociências e sobre o problema de demarcação extremamente útil, já que pode nos ajudar a compreendermos melhor as diversas estratégias utilizadas pelos pseudocientistas (especialmente os negacionistas), sugerindo, inclusive, maneiras de lidar com essas táticas de desinformação e assim explicarmos melhor a força das evidências e das abordagens científicas à população leiga.

O livro, além dos textos equivalentes as apresentações dos autores mencionados, traz também outras contribuições que vão além de discussões filosóficas em sentido mais restrito e adentram nas ‘ciências das pseudociências’, ou seja, na sociologia e na psicologia das pseudociências, além de também oferecerem algumas discussões mais práticas sobre o tema.

O vídeo e o livro são materiais de reflexão muito interessantes e espero que ajudem a revigorar as discussões sobre o tema e nos permitam enfrentar o problema do combate as pseudociências de maneira mais efetiva e rigorosa.

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* Não, esta não é a primeira resposta dada por filósofos aos argumentos de Laudan. Na realidade, há bem pouco tempo (2009), antes da publicação deste livro portanto, outro filósofo da ciência, Robert Pennock, da Universidade Estadual de Michigan, tomou as dores dos críticos de Laudan e escreveu um longo artigo sobre o mesmo tema. Isso sem mencionar outras respostas e artigos que nunca deixaram de aparecer na literatura técnica que apontaram para os problemas da postura de Laudan. Porém, este livro, destinado a um publico mais amplo, representa um esforço mais focado e, ao mesmo tempo, mais diversificado que acho que merece  muito a nossa atenção e que, talvez, consiga colocar a questão em pauta, mais uma vez, mas em bases diferentes das que têm servido de apoio a forma como problema tem sido tradicionalmente concebido.

**Note, contudo, que Laudan, apesar de não gostar do termo ‘pseudociência’ e de considerar o problema de demarcação insolúvel, não era, ele mesmo, contra o exercício de demarcação das atividades investigativas humanas, pelo menos quando isso era compreendido em um sentido mais amplo. Ele apenas insistia que não existiam critérios gerais, precisos e atemporais que pudessem ser empregados de maneira direta e infalível na tarefa de avaliar se algum tipo de ideia (alegação, hipótese, área ou campo do conhecimento) é ou não epistemicamente justificada, portanto, esta tarefa deveria ser levada a cabo caso a caso e, de preferência, sem o emprego de rótulos ‘derrogatórios’ [Veja o comentário crítico publicado por ele sobre uma conhecida decisão judicial contra o ensino do criacionismo [“Science at the Bar—Causes for Concern“] por causa do apelo a critérios de demarcação].

***As várias atividades intelectuais e investigativas humanas são bastante heterogêneas entre si, principalmente em termos dos métodos por elas empregados, dos tipos de fenômenos que elas têm como alvo e, por consequência, em relação aos seus objetivos. Apesar dessas diferenças existe um agrande interdependência entre essas diversas áreas e separá-las pode ser muito mais uma questão de organização administrativa do que de qualquer outra coisa. Porém, essas áreas também têm algumas coisas muito importantes em comum, além de certos padrões gerais de argumentação racional das quais não podem fugir, qualquer atividade séria desse tipo que tenham um real compromisso com a compreensão dos seus objetos de estudo deve manter uma orientação geral para honestidade intelectual, a precisão e o rigor crítico na avaliação das ideias, além de uma comunidade crítica e colaborativa que implemente essas orientações e valores.

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Referências:

  1. Pigliucci, Massimo & Boudry, Maarten (ed) Philosophy of Pseudoscience: Reconsidering the Demarcation Problem University of Chicago Press 2013.
  2. Laudan, Larry (1983), “The Demise of the Demarcation Problem”, in Cohen, R.S.; Laudan, L., Physics, Philosophy and Psychoanalysis: Essays in Honor of Adolf Grünbaum, Boston Studies in the Philosophy of Science 76, Dordrecht: D. Reidel, pp. 111–127, ISBN 90-277-1533-5
  3. Hansson, Sven Ove, “Science and Pseudo-Science”, in Edward N. Zalta (ed.). The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Spring 2015 Edition)
  4. Chalmers, Alan F. O que é Ciência, afinal? São Paulo: Brasiliense 1ª ed, 1993, 230 pg.
  5. Chalmers, A. F. Fabricação da ciência, A (tradução: Sidou, Beatriz) São Paulo: UNESP  1ª ed, 1994.185 pg
  6. Cleland, C. E. “Common cause explanation and the search for a smoking gun”, in Baker. V. (ed.) 125th Anniversary Volume of the Geological Society of America: Rethinking the Fabric of Geology, Special Paper 502 (2013), pp. 1-9.

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