As ciências na antiguidade: Até onde chegaram?

Como já comentei em vários posts anteriores ( ‘Método Científico?‘, ‘A ciência como um jogo de pinball‘, ‘Filosofia das pseudociências‘), a definição do que é ‘a ciência‘ (ou do que são ‘as ciências‘, como tendo a preferir) é algo mais complicado do que muitas pessoas costumam admitir. Claro, isso não impede que as diferenciemos de outras empreitadas cognitivas humanas e, principalmente, as demarquemos e as distinguamos de seu avesso, as pseudociências, mesmo que não hajam fórmulas mágicas para este fim. Essas dificuldades, entretanto, que são bem reais, acabam levando a outros problemas, como os relacionados a especificar com precisão quando as ciências teriam surgido em nossa sociedade ao longo da história.

Muitas vezes quando os historiadores das ciências mencionam ‘o surgimento das ciências‘, eles normalmente referem-se a ‘ciência moderna‘ – o resultado da chamada ‘revolução científica‘, ocorrida entre os séculos XVI e XVII. Este episódio da história intelectual de nossa sociedade ocidental envolveu os trabalhos de personagens célebres como Copérnico, Bacon, Descartes, Kepler, Galileu e Newton, além de muitos outros, cujas descobertas empíricas, modelos teóricos e propostas metodológicas ajudaram a criar a face atual do conhecimento científico, principalmente, das ciências naturais, que serviram de modelo às outras ciências.

Neste período, de pouco mais de 100 anos, é que as ciências (mais ou menos como as compreendemos hoje) popularizaram-se a partir de uma abordagem que conjugava teorização matemática e experimentação controlada, realizada de forma mais sistemática e de maneira a ser publicamente replicável. Esse período foi marcado também pelo começo da institucionalização da prática científica, com a formação de várias sociedades científicas (Como a Royal Society, Britânica e Académie des sciences, Francesa) que, assim, levaram a consolidação de verdadeiras comunidades de pesquisa científica.

Porém, a própria ‘revolução científica‘ não esgota tudo aquilo que compreendemos pelo termo ‘ciências‘. Primeiro porque muitos dos métodos e abordagens que hoje consideramos essenciais à prática científica só seriam inventados (e amplamente disseminados e incorporados a várias disciplinas científicas) bem mais tarde, como é o caso de quase todo o ramo da estatística inferencial, por exemplo. Além disso, mesmo muito antes da revolução científica encontramos precedentes de praticamente todas as iniciativas, abordagens, posturas e métodos mais gerais que consideramos como sendo marcas do começo das ciências modernas.

Desde a antiguidade clássica, no mundo greco-romano, já havia esforços sistemáticos voltados a compreensão da natureza nos quais empregavam-se a obervação detalhada e cuidadosa e mesmo formas de experimentação controlada. Também eram construídos e utilizados instrumentos específicos de medida e havia a busca por consenso entre os pares que tentavam convencer-se mutuamente por meio do emprego de argumentação racional rigorosa (a partir de premissas empiricamente verificáveis) e dos uso da abstração matemática, na tentativa de estabelecer leis gerais sobre os fenômenos de interesse. Portanto, em um certo sentido muito relevante, é perfeitamente possível falar em ‘ciências antigas‘, uma vez que muitas das características descritas acima, típicas das ciências modernas, já estavam presentes em muitas investigações ocorridas e documentadas no mundo greco-romano. Além do mais, essas empreitadas intelectuais e práticas tinham como base alguns princípios gerais bem simples e que até hoje estão no cerne da pesquisa científica: a curiosidade, como valor positivo essencial; a crença no progresso, ou seja, na possibilidade de avanço do conhecimento; e uma orientação geral empirista – pelo menos no sentido mais geral de considerar os fatos do mundo (de uma maneira ou de outra) como os árbitros derradeiros do conhecimento. Por fim, para que este tipo de empreitadas cognitivas pudessem ter lugar é necessário uma atmosfera minima que fomente a livre indagação. Todas essas normas e princípios gerais já estavam presentes (mesmo que de maneira mais incipiente) na antiguidade clássica.

Claro, isso não quer dizer que as ciências antigas fossem iguais ao que compreendemos hoje como ciências. Segundo o historiador Richard Carrier, especializado na história intelectual (ciência, tecnologia e filosofia) greco-romana, a principal diferença entre as ciências da antiguidade e nossa versão contemporânea, além da escala, conhecimento acumulado e do nível de institucionalização, era o fato de, na antiguidade, não haver uma clara apreciação da importância da qualidade metodológica. De acordo com Carrier, não havia uma distinção muito precisa (e amplamente compartilhada pelos pesquisadores) entre os métodos realmente confiáveis, rigorosos, críticos (que eram capazes de, em geral, promover avanços no conhecimento) daqueles métodos e abordagens inadequados e altamente duvidosos. As ciências antigas, desta maneira, eram muito mais erráticas e desiguais em termos metodológicos e, portanto, da confiabilidade de suas conclusões do que observamos hoje em dia.

A qualidade variável dos métodos e a menor massa crítica e organização da comunidade científica daquela época, entretanto, não impediram que alguns avanços fossem alcançados, Assim, de acordo com Carrier, um senso de progresso pode ser discernido entre os cientistas da antiguidade, inclusive com o refinamento e correção de muitas das ideias que surgiram nos primórdios das ciências da antiguidade. Muitas das ideias de personagens seminais da história intelectual das sociedades ocidentais, como algumas ideias sobre fisiologia de Aristóteles*, foram superadas por pesquisadores Gregos e Romanos, em séculos posteriores, tendo sido, mais tarde, esquecidas durante a idade das trevas, que marca o final do império Romano e os primeiros 500 anos da idade média**.

Em mais uma brilhante palestra, Carrier conta um pouco desta história esquecida a partir do que os historiadores puderam reconstruir a partir dos textos técnico-científico (ou, muitas vezes, apenas por menções indiretas e comentários sobre outros textos perdidos) e da descobertas de artefatos arqueológicos, que restaram deste período da história da civilização  ocidental.

Carrier, nesta palestra realizada durante o  Wonderfest Science,  em 2015, mostra alguns dos avanços que ocorreram neste período em várias áreas do conhecimento básico e aplicado, em disciplinas que hoje chamaríamos de ‘ótica‘, ‘cartografia‘, ‘geografia‘, ‘astronomia‘, ‘anatomia‘, ‘fisiologia experimental‘ (e ‘farmacologia‘), ‘mecânica‘, ‘hidráulica‘, ‘robótica‘ etc.

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* É interessante notar que muitas das ideias de Aristóteles ou inspiradas em seus escritos – especialmente sobre física e, principalmente, sobre como as ciências deveriam ser levadas à cabo – acabaram por tornarem-se dogmas, quando re-descobertas no final da idade média na Europa. Algumas dessas ideias, de fato, tornaram-se obstáculos intelectuais e tiveram que ser superadas, ou pelo menos afrouxadas, durante (e após) a revolução científica, de modo que pudéssemos avançar na prática das ciências.

** Aqui creio ser importante enfatizar que nem toda a idade média pode ser considerada um período de trevas, no sentido intelectual da expressão. A partir do ano 1000 (e especialmente a partir do ano 1200) muitos dos ensinamentos da antiguidade clássica foram redescobertos e retomados pelos próprios intelectuais cristãos, embora uma parte significante das autoridades Cristãs continuasse bastante refratária aos valores intelectuais e métodos científicos que discutimos e, principalmente, a certas conclusões que desviavam de alguns de seus dogmas mais arraigados.

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  • Hentry, John.  A Revolução Científica e as origens da ciência moderna. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998.

  • Carrier, R. Christianity Was Not Responsible for Modern Science in The Christian Delusion: Why Faith Fails, Loftus, John W. (edited), Prometheus Books, 2010.

  • Braga, Marco, Guerra, Andreia e Cláudio, José Reis Breve história da ciência moderna Volume 1: Convergência de saberes (Idade Média) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. 101 páginas

  • Braga, Marco, Guerra, Andreia e Cláudio, José Reis Breve história da ciência moderna – Volume 2: Das máquinas do mundo ao Universo-máquina (séc. XV a XVII) Reis Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004. 136 páginas

  • Braga, Marco, Guerra, Andreia e Claudio, José Reis  Breve história da ciência moderna – Volume 3: Das Luzes ao sonho do doutor Frankenstein (séc. XVIII) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005. 160 páginas

  • Braga, Marco, Guerra, Andreia e Claudio, José Reis Breve história da ciência moderna Volume 4 – A Belle-époque da Ciência (séc XIX) Jorge Zahar: Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2007. 188 páginas

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2 Responses to As ciências na antiguidade: Até onde chegaram?

  1. Letty says:

    Ótimo post, obrigada por postar!

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