Por que deveríamos confiar nos cientistas?

A questão que dá título a este post (e ao vídeo embebido nele) é extremamente importante em nossa sociedade. Para respondê-la, porém, precisamos voltar a nos debruçarmos sobre a velha questão de o que torna as ciências distintas de outras atividades humanas; principalmente daquelas atividades intelectuais (ou práticas) que aspirem serem fontes de conhecimento confiável. Já discuti este tema em outras postagens deste blog (veja por exemplo:  ‘Método Científico?‘, ‘A ciência como um jogo de pinball‘, ‘Filosofia das pseudociências’) e agora, mais uma vez, volto a ele através. Desta vez a partir da TED talk proferida pela geóloga por formação e historiadora da ciência, por carreira acadêmica, Naomi Oreskes.

Nos últimos anos a historiadora tem investigado o consenso científico sobre o aquecimento global e a recepção deste consenso por parte do público leigo, em geral, mas também ela vem analisando a natureza da oposição a este consenso por parte dos autointitulados ‘céticos do aquecimento global‘, mas melhor descritos como ‘negacionistas‘, grupos de indivíduos que questionam e atacam as conclusões do IPCC (o painel intergovernamental de cientistas organizado pela ONU) sobre o assunto. Em vários artigos e em um livro, Oreskes mostrou como os grupos negacionistas, financiados por grandes grupos de Lobby comercial cheios de interesses escusos, organizaram-se para questionar os modelos, descobertas e conclusões da comunidade científica. Eles agem de uma maneira muito semelhante a feita, anteriormente, por outros lobbies, como o da indústria do Tabaco, inclusive com o financiamento de intelectuais e cientistas específicos para tentar ‘legitimar’ seus ataques, a imensa maioria dos quais não têm qualquer substância e, em alguns casos, são claramente desonestos. Tudo isso é discutido no seu livro de Oreskes, escrito em colaboração com  Erik Conway, ‘Merchants of Doubt‘.

Porém, isso ainda não responde à questão principal: Por que deveríamos confiar nos cientistas? Essa resposta é importante porque não podemos esperar que a maioria das pessoas (como fizeram Oreskes e Conway em seu livro e em seus artigos) examine a literatura 9781596916104_000científica da área em profundidade, ou entreviste muitos dos pesquisadores responsáveis pelos estudos para conhecer suas opiniões em detalhe e seus argumentos e, principalmente, identifique, corrija e desminta as diversas objeções e afirmações errôneas feitas pelos negacionistas. Afinal de contas, a maioria de nós não é especialista em qualquer (que dirá nas várias) das disciplinas científicas (geofísica, glaciologia, química atmosférica, climatologia, modelagem e simulação computacional etc) de cujas investigações dependem a conclusão sobre a realidade do aquecimento global antropogênico. De uma maneira ou de outra, temos que confiar nos especialistas, mas para isso, primeiro de tudo, precisamos ser capazes de distinguir os verdadeiros especialistas dos pseudo-especialistas, ou seja, os negacionistas de plantão.

Em sua palestra, Oreskes aborda este tema de maneira mais geral. Como outros historiadores e filósofos das ciências, Oreskes é bastante crítica à visão recebida (e semi-oficial) que justifica a confiabilidade das conclusões das ciências a partir da (suposta) adesão por parte de todos (ou a imensa maioria) os cientistas ao ‘método científico‘. Esse método é, normalmente, equiparado às abordagens hipotético-dedutivas (ou nomológico-dedutivas) para as ciências, que, como já discuti em outras ocasiões, captura apenas parte da história todo do que caracteriza a investigação científica. Esta abordagem porém deixa de lado várias sutilezas e muitos fatores importantes que são partes integrante da pesquisa científica, não sendo crítico o suficiente com relação as próprias limitações destas abordagens [veja por exemplo ‘A Ciência do Erro e o Erro na Ciência, Ciência e inferência. Parte I: A dúvida de Hume e a solução de Popper’, ‘Ciência e inferência. Parte II: Popper e a tese do holismo’, ‘Ciência e inferência. Parte III: O bom e velho reverendo’ e ‘Ciência e Inferência Parte IV: Probabilidades e probabilidades’].

Nessa apresentação a historiadora destaca a importância da forma como a comunidade científica organiza-se, especialmente aquilo que o sociólogo Robert Merton chamou de ‘ceticismo organizado‘ (ou daquilo que Karl Popper chamava de ‘cooperação amigavelmente hostil’, ou ‘rivalidade amistosa’, como prefiro) – ou seja, o fato dos pesquisadores membros da comunidade de pesquisa colaborarem entre si mantendo uma atitude crítica principalmente com relação a novas ideias e dados, o que demanda que os seus proponentes forneçam evidências rigorosas e argumentos bem estruturados que, por sua vez, serão examinados de maneira crítica, a procura de erros, problemas, fontes de viés, e cujas conclusões serão contrastadas com o esperado por outras hipóteses, modelos, teorias ou possibilidades alternativas. Assim, seria nesta postura crítica coletiva que encontraríamos as melhores razões para confiarmos nos cientistas e, mesmo para reconhecê-los, já que esta confiança demanda que as comunidades de pesquisadores estejam organizadas de uma maneira que esta atitude crítica, metódica e sistemática seja fomentada e implementada.

Portanto, ao confiarmos nas conclusões da comunidade científica realmente dependemos de um reconhecimento tácito da sua autoridade. Esse reconhecimento, entretanto, é motivado pelo histórico de sucessos da área em questão e a aceitação não é nem acrítica (já que sempre que possível devemos tentar seguir os argumentos e evidências. Daí a importância dos esforços de educação e divulgação científica*), como também não depende da subserviência a autoridades individuais. Desta forma, a confiança depositada nas conclusões das ciências depende de uma autoridade coletiva e distribuída que foi ganhou à duras penas, tendo sido historicamente estabelecida. Contudo, mesmo assim, tal autoridade está sempre sujeita a revisão e sob o constante escrutínio crítico dos membros desta comunidade e de quem mais quiser inteira-se de seus procedimentos, métodos, valores epistêmicos e objetivos.  Essa confiança, portanto, permeia nossa sociedade, advindo inclusive de nossa dependência (e aceitação tácita por parte de seus membros) dos vários produtos das ciências, particularmente, aqueles relacionados à tecnologia.

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* Volto a lembrar e a insistir que, mesmo não havendo algo como o ‘método científico‘ (em sentido estrito), ainda assim, existem uma série de métodos, normas, critérios e características gerais que permitem que nós diferenciemos, na imensa maioria dos casos, tanto as ciências das pseudociências, como a boa da má ciência e que nos permitem mesmo termos uma ideia das reais disputas científicas, ou seja, quando seria mais apropriado suspender o juízo, não aquelas ‘pseudodisputas‘ manufaturadas pelos descontentes com as (supostas) implicações sociais, religioso-ideológicas e éticas de algumas das conclusões sobre a história do universo, do nosso planeta e da vida mais bem estabelecidas pela comunidade científica, com as fomentadas pelos diversos negacionistas.

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Referências:

  • Oreskes N. Beyond the ivory tower. The scientific consensus on climate change. Science. 2004 Dec 3;306(5702):1686. Erratum in: Science. 2005 Jan 21;307(5708):355. PubMed PMID: 15576594. [Veja também o excelente post da página Skeptical Science sobre as críticas feitas a este artigo em ‘ What does Naomi Oreskes’ study on consensus show?‘]
  • Oreskes, Naomi, 2007, “The scientific consensus on climate change: How do we know we’re not wrong?” Climate Change: What It Means for Us, Our Children, and Our Grandchildren, edited by Joseph F. C. DiMento and Pamela Doughman, MIT Press, pp. 65-99. [Download file]

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