A história de uma péssima alternativa

Segue um pequeno vídeo muito revelador. Ele conta um pouco da hype envolvendo a ‘medicina alternativa e complementar‘ que ocorreu nos anos 90. Esta mesma euforia levou ao estrelato gente como Deepak Chopra e outros gurus pseudocientíficos. Nesta atmosfera, a grande cobertura da mídia dedicada a este tópico em conjunto com o lobbie político acabou permitindo a criação do NCCAM, um centro de pesquisa ligado ao National Institute of Health, nos EUA, mesmo contrariando as recomendações da comunidade científica, que via (e vê) boa parte desta indústria como puro e simples charlatanismo. Isso fez com que o estudo destas terapias alternativas começasse a receber verbas federais, mesmo  estas práticas não sendo nada plausíveis e muito menos seu estudo prioritário.

O subsequente fracasso dos estudos em validar essas abordagens (utilizando-se de métodos de pesquisa e estratégias cientificas mais rigorosas) só piorou a situação. Além disso, o simples fato de um centro de pesquisas, com verbas do governo dos EUA, ter sido criado foi suficiente para a dar a falsa sensação de que tais abordagens fossem realmente respaldadas cientificamente, mesmo isso não sendo, nem de perto, verdade.  Para saber um pouco mais sobre o assunto dê uma olhada no meu outro post “Alternativas ao que, exatamente?“.

Talvez a parte mais assustadora do documentário seja assistir ao senador Tom Harkin – após os vários e sistemáticos fracassos dos estudos clínicos patrocinados pelo centro fornecerem evidências positivas – jogando a culpa na condução dos estudos pelo próprio instituto, simplesmente, porque, segundo ele, ao invés de testar criticamente as terapias, o NCCAM* deveria ‘validá-las’ (ou seja, aprová-las, confirmando o que eles já ‘sabiam’) porque era isso que a população (e ele, claro) gostariam. O nível de desconexão com a realidade e de wishfull thinking é simplesmente assustador. Harkin coloca o carro na frente dos bois, estando completamente alheio ao principal objetivo de efetuarmos este tipo de avaliações científicas  – exatamente, descobrir se as práticas, terapias e abordagens em questão funcionam ou não, fazendo isso através de estudos bem delineados e cuidadosamente conduzidos, de maneira rigorosa e justa.

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*Aliás, este é um dos méritos do NCCAM. Apesar de sua criação ter acontecido por pressões lobísticas desavergonhadas – e até contra o consenso da época da comunidade científica, sem esquecer as tentativas de cercear e até minar as atividades de pesquisadores mais sérios que lá trabalhavam -, mesmo assim, o centro financiou muitos trabalhos clínicos de alta qualidade que, sem surpresa, confirmaram as expectativas originais, já que haviam evidências mais rigorosas que deixavam claro que algumas das terapias não funcionavam e muitas outras eram tão implausíveis (violando princípios científicos muito bem estabelecidos) que não mereceriam nem o gasto com testes mais rigorosos.

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Referências:

  • Bausell RB. Snake Oil Science: The Truth About Complementary and Alternative Medicine. 1st ed. Oxford University Press; 2007.
  • Goldacre, B. Ciência Picareta Civilização Brasileira 1a ed, 2013. 378 p;
  • Singh S, Ernst E. Trick or treatment? : Alternative medicine on trial. Bantam Press; 2008.

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