Estudos científicos e a cobertura da mídia

No vídeo compartilhado neste post, o excelente John Oliver (do ‘Last Week Tonight with John Oliver‘, da HBO) discute a maneira como a mídia reporta os ‘estudos científicos’. Qualquer cientista ou mesmo qualquer um que tenha uma formação científica e/ou trabalhe com divulgação científica sabe do que Oliver está falando.

Costumeiramente, vemos um espetáculo que vai desde a simples cobertura superficial e sensacionalista de certos estudos até a completa adulteração de resultados e das conclusões dos estudos científicos que estão sendo divulgados nas reportagens. Não há qualquer espaço para a cautela que deve caracterizar a pesquisa científica e que, por conseguinte, também deveria refletir-se em sua cobertura. Um dos problemas, para começar, é que muitos estudos apresentados pela grande mídia sofrem de sérias limitações metodológicas, são cercados de incertezas e a sua própria publicação pode não ser representativa, tanto por causa de fatores como o viés de publicação (a tendência de autores e periódicos darem preferência a resultados com achados positivos, ou seja, onde a hipótese de nulidade tenha sido rejeitada) como pelo simples fato de muitos estudos terem baixa qualidade metodológica, o que os faz nem ao menos merecerem tanto alarde e ganharem notoriedade. Essas questões normalmente são deixadas de lado pelo jornalistas e qualquer, eventual ,nuance contida nestes estudos acaba sendo completamente obscurecida, distorcendo nossa percepção do conhecimento científico.

De modo geral, não parece existir muita preocupação em contextualizar os resultados de novos estudos. Nem em termos de sua relevância social (e, eventual, aplicabilidade prática, o que seria de se esperar em algo feito pela imprensa ao abordar um tema técnico para um público mais geral e leigo), nem em termos do resto da literatura científica sobre o tema em questão. Estudos científicos não existem em um limbo. É só através da apreciação e avaliação crítica  de toda a literatura disponível é que podemos tirar quaisquer conclusões mais sólidas, isto é, quando podemos. Essa parte importante da pesquisa científica é perdida completamente na cobertura de ciência, pelo menos naquela tipicamente feita pela grande mídia.

Grande parte disso é realmente culpa dos veículos de comunicação e dos jornalistas que  trabalham neles – muitos dos quais não têm formação, tempo e nem interesse em uma cobertura mais acurada, precisa e realmente crítica. O que, por sinal, é bem diferente do negacionismo e da propagação de teorias conspiratórias, algo que muitos veículos de imprensa não têm qualquer pudor em fazer. Porém, não podemos nos esquecer que muita distorção e vários exageros que vemos por aí originam-se nas próprias universidades, centros e institutos de pesquisa, principalmente, através de releases de imprensa.

Os próprios cientistas infelizmente podem contribuir com este estado de coisas, principalmente, quando inflam a relevância de suas conclusões, simplificam demais seus resultados e minimizam as limitações dos métodos empregados por eles ao relatarem seus trabalhos aos jornalistas e profissionais de relações públicas. Algumas vezes esses releases são feitos antes de os resultados terem sido devidamente publicados em periódicos especializados revisado por pares. Muitas vezes esse tipo de coisa não acontece por má fé, mas porque a posição do pesquisador na instituição  e o financiamento de seu trabalho podem depender muito de sua notoriedade e projeção. Sem falar que, muitas vezes, os cientistas têm realmente dificuldades de explicar uma realidade complexa e cheia de incerteza aos jornalistas, sem que isso pareça chato ou irrelevante.

Essa  forma descuidada e sensacionalista de apresentar resultados científicos (e os próprios cientistas) à sociedade acaba gerando uma percepção enganosa do que é a pesquisa científica e de como a comunidade científica se organiza para levá-la a cabo. Embora a ciência seja realmente muito mais bagunçada do que muitos de nós gostamos de admitir, esse tipo de cobertura pode dar uma impressão muito pior do que ela realmente. Na maioria das matérias, os meios de comunicação não costumam enfatizar a necessidade da constante vigilância e a postura crítica que os próprios cientistas adotam em relação aos novos estudos. Também raramente é explicado que existem estudos (e argumentos) de diferentes qualidades e que não é o simples fato de algo ter sido dito por um cientistas que o torna correto. É por isso que os estudos científicos devem ser apreciados e analisados de maneira cuidadosa e de maneira comparativa aos demais estudos realizados sobre o assunto, além de serem sempre avaliados tendo em vista princípios científicos mais bem estabelecidos. Quando os meios de comunicação não chamam a atenção do publico à importância da avaliação coletiva e temporalmente estendida, realizada pela comunidade científica e tão importante às ciências, a mídia contribui para dar a impressão que os cientistas estão sempre contradizendo uns aos outros.

Esse tipo de cobertura é um prato cheio para os negacionistas e pseudocientistas de plantão.  Infelizmente, para a população geral, por causa desse e de outros fatores, esses picaretas são indistinguíveis de suas contrapartidas sérias, os reais cientistas. Pior ainda: A forma como a mídia divulga os resultados de estudos científicos também contribui para o clima geral de pressão sobre os cientistas. Como o financiamento de boa parte da pesquisa é público, ele também depende da percepção pública e, portanto, da cobertura da mídia. Isso pode provocar distorções na distribuição desse financiamento e tornar os cientistas ainda mais ávidos por chegar a novas descobertas. Desta maneira, são exigidos resultados sempre novos, inusitados e impactantes, Do tipo que podem facilmente virarem manchetes, fechando o circulo vicioso e colocando os cientistas em uma posição ainda mais complicada. Nesses casos pode parecer uma saída mais fácil para muitos pesquisadores apressar a publicação de resultados ainda incipientes, usar amostras menores do que o que se realmente deveria ser usado, escolher desfechos menos importantes, mas mais rápidos e fáceis de medir; ‘escolher seletivamente’ os dados mais convenientes, apenas para conseguir certos resultados, ou seja, ‘pescar’, ‘bisbilhotar’ ou ‘dragar’ os dados, ‘hackeam-os’ em busca de valores-p significativos (‘cherry-picking’, ‘data fishing’, ‘data snooping’, ‘data dredging’ e ‘p-hacking’).

Tudo isso, infelizmente, acaba subvertendo a essência do processo de investigação científica, diminuindo a qualidade da ciência praticada e, assim, minando a confiabilidade nas conclusões que podemos chegar através deste processo.

—————————–

About rodveras

I'm a biologist and science writer who loves philosophy and sciences.
This entry was posted in Uncategorized. Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s