O quão confiáveis são os métodos forenses?

Se você é fã de seriados como ‘CSI’ ou ‘NCIS’, onde agentes da polícia (ou das forças armadas) alternam-se entre suas algemas e revolveres e seus guarda-pós e microscópios, talvez, você tenha adquirido uma visão um tanto distorcida da investigação forense. Isso não seria tão problemático se essa visão não se refletisse sobre os juízes, promotores e júris, enviesando sua percepção das limitações das técnicas forenses e contribuindo para a perpetuação de injustiças e da ignorância científica.

Segue um episódio do Last Week with John Oliver onde os problemas das ciências forenses e de vários de seus métodos são discutidos.

Esse tipo de fenômeno, em que os resultados (mesmo ciência especulativa e até de má qualidade) são aceitos, sem muitos questionamentos, quando, convenientemente, vão ao encontro de nossos preconceitos, está tanto na gênese do cientificismo como das pseudociências.

As ciências estão entre as empreitadas intelectuais humanas mais impressionantes. Sem dúvida, são admiráveis e socialmente indispensáveis, mas, ainda assim, são atividades levadas à cabo por seres humanos. Por isso são falíveis e sempre incompletas. Em seu melhor, personificam algumas das maiores virtudes epistêmicas, sociais e éticas que os seres humanos são capazes de exibir. Nessas circunstâncias, elas mostram como sua organização comunitária e a aplicação de uma gama enorme de princípios, métodos, protocolos, ferramentas, instrumentos, heurísticas de coleta, análise, crítica e compartilhamento de evidências empíricas e de inferência e teste de ideias, hipóteses, modelos e teorias podem produzir conhecimento genuíno e imprescindível. Porém, como empreitadas sociais – que dependem do financiamento do resto da sociedade (e cujos indivíduos participantes podem sofrer pressões de toda sorte, que vão desde de seus pares até de outras partes interessadas da sociedade) – é preciso que tenhamos consciência de suas limitações, especialmente caso queiramos aprimorá-las, mantendo uma postura crítica, colaborativa e intelectualmente honesta. Reconhecer as limitações de cada abordagem, procedimento ou ciência particular é essencial e a única forma de garantir a integridade científica é mantermo-nos sempre vigilantes e muito bem informados.

É por causa disso que é preciso que os métodos utilizados na investigação criminal sejam rigorosamente validados e que suas limitações e incertezas (uma vez considerados realmente consistentes e úteis por meio de uma avaliação independente) sejam sempre apresentadas e explicadas para os júris, promotores, advogados de defesa e juízes. É também essencial que os investigadores mantenham-se independentes da promotoria, evitando a contaminação de interesses e o viés de confirmação e, possivelmente, seria importante a adoção de protocolos duplo-cegos e outras salvaguardas para garantir que o processo seja realmente isento e justo.


Para saber mais sobre o assunto e sobre as limitações e incertezas associadas a vários dos métodos forenses:

Inoccentproject


Sobre ciência:

  • Chalmers, Alan F. What Is This Thing Called Science? 4th Edition Hackett Publishing Company September, 2013. 304 pp.

  • Haack, Susan Defending Science – Within Reason: Between Scientism and Cynicism Prometheus Books, 2007. 411 pp.

 

 

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About rodveras

I'm a biologist and science writer who loves philosophy and sciences.
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