Vampirologia

Palestra de Debora Hyde sobre os relatos históricos sobre vampiros e o tipo de possíveis causas e situações – como doenças, anomalias do sono, práticas culturais, desconhecimento sobre os processos naturais de decomposição, mecanismos psicológicos etc – que levaram a essa crença e deram origem a estes relatos. Hyde é editora-chefe da revista The [UK] Skeptic e tem investigado há mais de 20 anos alegações de atividades paranormais, mitos, lendas, folclore e superstições. 

Para pessoas, como eu, que interessam-se pelo tema, uma ótima sugestão é o livro de Mark Collins Jenkins, “Vampire Forensics”.

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Para saber mais:

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A motoserra de Occam e as experiências-de-quase-morte

 

O neurocientista britânico Jason Braithwaite é um dos pesquisadores envolvidos com o estudo de experiências subjetivas comumente associadas a fenômenos paranormais ou mesmo tidas como sobrenaturais. A diferença é que ele junto com vários outros neurocientistas e cientistas cognitivos (como Chris French, Richard Wiseman, Olaf Blanke etc) – procura compreender tais braithwaite-jasonexperiências dentro de uma perspectiva científica convencional e filosoficamente naturalista.

Em 2008 ele havia escrito um ótimo artigo  (‘Towards a Cognitive Neuroscience of the Dying Brain‘) sobre as ‘experiências-de-quase-morte’ (cuja sigla em inglês é NDE) e as ‘experiências-fora-do-corpo’ (OBE) que são, algumas vezes, relatadas por pessoas que sofreram paradas cardíacas e estiveram perto de morrer, mas não só. Nesse artigo, Braithwaite explica o que sabemos sobre o assunto e explicita as limitações da perspectiva não-naturalista, algumas vezes, chamadas de ‘sobrevivencialista’.

As pessoas que advogam a hipótese sobrevivencialista – e que, portanto, adotam uma perspectiva sobrenaturalista para a consciência – defendem que tais fenômenos mostrariam que a consciência pode subsistir quando o cérebro não está ativo e, portanto, segundo eles, provariam a existência de algo como a alma, ou seja, eles propõem que tais experiências seriam evidências que a consciência/mente não é um entidade ou propriedade cujas causas são físicas. Essa visão vai contra a perspectiva científica moderna, ou seja, a de que a consciência e tudo que associamos a ela (nosso senso de identidade pessoal e corporal, nossas memórias, emoções, personalidade etc) é uma propriedade emergente de atividade dinâmica integrada de redes de neurônios ativos em nossos cérebros e que sem isso ela não pode existir.

Porém, como Braithwaite salienta, existe toda sorte de problemas com a visão sobrenaturalista e boa parte das conclusões de seus defensores baseiam-se em um abandono prematuro das explicações naturalistas (inclusive a partir de críticas errôneas sobre a hipótese da desinibição cortical) e com base na distorção das evidencias que sustentam a visão científica mais disseminada. No artigo, publicado na revista The Skeptic, o pesquisador britânico aponta erros fundamentais que os defensores da hipótese sobrevivencialista cometem reiteradamente, a começar por sua interpretação do que ocorre durante as paradas cardiorrespiratórias e, principalmente, sobre o que EEGs (eletroencefalogramas) e monitores de consciência, ligados a pacientes em UTIs ou centros JonesCoverSmallcirúrgicos, realmente mostram.

Agora, em um novo artigo também publicado na revista The Skeptic, Braithwaite e Hayley Dewe (aluna de doutorado de Braithwaite, que investiga os correlatos neurocognitivos de experiências alucinatórias envolvendo o corpo, como as OBEs) continuam a pontuar os dewe-hayley2014problemas com a interpretação das evidencias clínicas e instrumentais, frequentemente, empregadas pelos sobrevivencialistas para endossar sua posição.

A ideia geral apresentada por Dewe e Braithwaite é que, além de anedotas eventuais, não existem boas evidencias que qualquer NDEs e OBEs se deem exatamente quando o cérebro não estaria funcionando. Como os relatos são feitos depois que os pacientes já se recuperaram e podem falar, não há como estabelecer que tais experiências se deram durante a parada cardiorrespiratória e nem quando o EEG estava isoelétrico. Pior do que isso. Mesmo os EEGs isoelétricos – as famosas ‘flat lines’ – não mostram que o cérebro está completamente sem atividade elétrica. Os registros isoelétricos mostram apenas que o cérebro encontra-se sem atividade coerente nas regiões mais externas do córtex. Então, embora um EEG isoelétrico persistente e que não se altera com estimulação dolorosa em indivíduos que não respiram sozinhos possa indicar a morte cerebral, um registro isoelétrico temporário não é prova de um cérebro morto.

De fato, existem algumas evidencias que atividade elétrica cortical coerente mais profunda e mesmo não-cortical aconteça quando EEGs isoelétricos são registrados. Na realidade, temos alguns indícios que alguns desses tipos de atividade podem estar relacionadas com experiência consciente anômala e até formação de memória. Porém, mesmo que esse não seja o caso, boa parte das evidencias nos levam a crer que as experiências subjetivas acontecem e portanto as memórias destes eventos são formadas ou logo antes ou logo depois do período de EEG isoelétrico, como os estudos com o modelo de síncope deixam claro, uma vez que são nesses períodos que as experiências alucinatórias tendem a ocorrer; a despeito das tentativas dos sobrevivencialistas de desqualificarem tal modelo comparativo, deixando de lado as várias similaridades com as NDEs.

Evidências recentes obtidas a partir de estudos em roedores e com pacientes em UTIs também sustentam que, logo após a parada cardíaca, existe um surto de atividade elétrica cerebral coerente que é muito parecida a normalmente atribuída a consciência visual em indivíduos acordados. Então, embora ainda restem muitas questões em aberto e não estejamos perto de uma explicação realmente robusta de como o cérebro ativo produz nossas experiências subjetivas conscientes normais ou anômalas, as evidencias não sustentam a visão sobrevivencialista/sobrenaturalista. Para saber mais sobre o assunto veja as postagens: ‘Ateísmo, Naturalismo e Sobrenaturalismo, ‘Não adianta espernear, não existe uma neurociência não-materialista.‘, ‘Religião, espiritualismo e ciência: Uma relação complicada‘, ‘A Neurologia das Experiências de Quase Morte‘,’ Os últimos suspiros elétricos de um cérebro moribundo.‘, Alucinações vestíbulo-motoras e experiência-fora-do-corpo, Paralisia do sono: Uma perspectiva neurocientífica).

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Referências:

 

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Por que é tão difícil reproduzir certos estudos?

Embora exista um certo consenso indicando que a falha da maioria das tentativas de replicar resultados de estudos experimentais possa ser atribuída a vários problemas metodológicos (incluindo aí baixo poder estatístico, ênfase na publicação apenas de resultados positivos e surpreendentes etc), essa não parece ser a história toda. Nem toda falha de replicação é igual a outra. Muitos trabalhos em áreas como a psicologia social podem ser bastante sensíveis ao contexto particular no qual foram realizados. Portanto, estudos que falham em replicar os resultados de outros estudos podem, simplesmente, serem devidos ao fato de coisas diferentes estarem sendo testadas nos dois estudos.

Bavel e seu grupo realizaram um estudo envolvendo as  tentativas de replicação conduzidas pelo ‘Reproducibility Project’; um grande consórcio que teve por objetivo reproduzir 100 grandes estudos de psicologia social, mas que consegui replicar os resultado de apenas 39% deles. A equipe de Bavel pediu que indivíduos, que não sabiam o resultado das tentativas de replicação, classificassem esses estudos, a partir de seus abstracts, em relação a sensibilidade ao contexto sociocultural de cada estudo. Mesmo depois que os autores ajustaram estatisticamente os dados para compensar para outros fatores (poder estatístico, tamanho do efeito etc), ainda assim, eles observaram que havia uma associação entre a chance de replicação dos estudos e sua sensibilidade ao contexto. Isso quer dizer que estudos classificados como mais sensíveis ao contexto normalmente são aqueles cujos resultados originais não foram reproduzidos nos estudos do reproducibility project. Portanto, nem toda falha de replicação de um estudo é equivalente.

A solução para isso, segundo o próprio Bavel, é, além de corrigir os problemas metodológicos mais óbvios já mencionados, mais diálogo e colaboração entre os autores dos estudos originais e aqueles interessados em reproduzi-los. Compartilhar os detalhes sobre o contexto que cercou o estudo e discutir como re-delineá-los – para que possam compensar eventuais mudanças no contexto sociocultural de cada época e lugar – pode ser essencial. Neste caso, mesmo se os resultados continuarem negativos, eles serão muito mais informativos.


Referências:

  1. van Bavel, Jay  ‘Why Do So Many Studies Fail to Replicate?’ Gray Matter/New Yor Times May 27, 2016.
  2. van Bavel JJ, Mende-Siedlecki P, Brady WJ, Reinero DA. Contextual sensitivity in scientific reproducibility. Proc Natl Acad Sci U S A. 2016 May 23. pii: 201521897. doi: 10.1073/pnas.1521897113
  3. Aarts, Alexander A et al. “Reproducibility Project: Psychology.” Open Science Framework, 28 Apr. 2016. Web.
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Estudos científicos e a cobertura da mídia

No vídeo compartilhado neste post, o excelente John Oliver (do ‘Last Week Tonight with John Oliver‘, da HBO) discute a maneira como a mídia reporta os ‘estudos científicos’. Qualquer cientista ou mesmo qualquer um que tenha uma formação científica e/ou trabalhe com divulgação científica sabe do que Oliver está falando.

Costumeiramente, vemos um espetáculo que vai desde a simples cobertura superficial e sensacionalista de certos estudos até a completa adulteração de resultados e das conclusões dos estudos científicos que estão sendo divulgados nas reportagens. Não há qualquer espaço para a cautela que deve caracterizar a pesquisa científica e que, por conseguinte, também deveria refletir-se em sua cobertura. Um dos problemas, para começar, é que muitos estudos apresentados pela grande mídia sofrem de sérias limitações metodológicas, são cercados de incertezas e a sua própria publicação pode não ser representativa, tanto por causa de fatores como o viés de publicação (a tendência de autores e periódicos darem preferência a resultados com achados positivos, ou seja, onde a hipótese de nulidade tenha sido rejeitada) como pelo simples fato de muitos estudos terem baixa qualidade metodológica, o que os faz nem ao menos merecerem tanto alarde e ganharem notoriedade. Essas questões normalmente são deixadas de lado pelo jornalistas e qualquer, eventual ,nuance contida nestes estudos acaba sendo completamente obscurecida, distorcendo nossa percepção do conhecimento científico.

De modo geral, não parece existir muita preocupação em contextualizar os resultados de novos estudos. Nem em termos de sua relevância social (e, eventual, aplicabilidade prática, o que seria de se esperar em algo feito pela imprensa ao abordar um tema técnico para um público mais geral e leigo), nem em termos do resto da literatura científica sobre o tema em questão. Estudos científicos não existem em um limbo. É só através da apreciação e avaliação crítica  de toda a literatura disponível é que podemos tirar quaisquer conclusões mais sólidas, isto é, quando podemos. Essa parte importante da pesquisa científica é perdida completamente na cobertura de ciência, pelo menos naquela tipicamente feita pela grande mídia.

Grande parte disso é realmente culpa dos veículos de comunicação e dos jornalistas que  trabalham neles – muitos dos quais não têm formação, tempo e nem interesse em uma cobertura mais acurada, precisa e realmente crítica. O que, por sinal, é bem diferente do negacionismo e da propagação de teorias conspiratórias, algo que muitos veículos de imprensa não têm qualquer pudor em fazer. Porém, não podemos nos esquecer que muita distorção e vários exageros que vemos por aí originam-se nas próprias universidades, centros e institutos de pesquisa, principalmente, através de releases de imprensa.

Os próprios cientistas infelizmente podem contribuir com este estado de coisas, principalmente, quando inflam a relevância de suas conclusões, simplificam demais seus resultados e minimizam as limitações dos métodos empregados por eles ao relatarem seus trabalhos aos jornalistas e profissionais de relações públicas. Algumas vezes esses releases são feitos antes de os resultados terem sido devidamente publicados em periódicos especializados revisado por pares. Muitas vezes esse tipo de coisa não acontece por má fé, mas porque a posição do pesquisador na instituição  e o financiamento de seu trabalho podem depender muito de sua notoriedade e projeção. Sem falar que, muitas vezes, os cientistas têm realmente dificuldades de explicar uma realidade complexa e cheia de incerteza aos jornalistas, sem que isso pareça chato ou irrelevante.

Essa  forma descuidada e sensacionalista de apresentar resultados científicos (e os próprios cientistas) à sociedade acaba gerando uma percepção enganosa do que é a pesquisa científica e de como a comunidade científica se organiza para levá-la a cabo. Embora a ciência seja realmente muito mais bagunçada do que muitos de nós gostamos de admitir, esse tipo de cobertura pode dar uma impressão muito pior do que ela realmente. Na maioria das matérias, os meios de comunicação não costumam enfatizar a necessidade da constante vigilância e a postura crítica que os próprios cientistas adotam em relação aos novos estudos. Também raramente é explicado que existem estudos (e argumentos) de diferentes qualidades e que não é o simples fato de algo ter sido dito por um cientistas que o torna correto. É por isso que os estudos científicos devem ser apreciados e analisados de maneira cuidadosa e de maneira comparativa aos demais estudos realizados sobre o assunto, além de serem sempre avaliados tendo em vista princípios científicos mais bem estabelecidos. Quando os meios de comunicação não chamam a atenção do publico à importância da avaliação coletiva e temporalmente estendida, realizada pela comunidade científica e tão importante às ciências, a mídia contribui para dar a impressão que os cientistas estão sempre contradizendo uns aos outros.

Esse tipo de cobertura é um prato cheio para os negacionistas e pseudocientistas de plantão.  Infelizmente, para a população geral, por causa desse e de outros fatores, esses picaretas são indistinguíveis de suas contrapartidas sérias, os reais cientistas. Pior ainda: A forma como a mídia divulga os resultados de estudos científicos também contribui para o clima geral de pressão sobre os cientistas. Como o financiamento de boa parte da pesquisa é público, ele também depende da percepção pública e, portanto, da cobertura da mídia. Isso pode provocar distorções na distribuição desse financiamento e tornar os cientistas ainda mais ávidos por chegar a novas descobertas. Desta maneira, são exigidos resultados sempre novos, inusitados e impactantes, Do tipo que podem facilmente virarem manchetes, fechando o circulo vicioso e colocando os cientistas em uma posição ainda mais complicada. Nesses casos pode parecer uma saída mais fácil para muitos pesquisadores apressar a publicação de resultados ainda incipientes, usar amostras menores do que o que se realmente deveria ser usado, escolher desfechos menos importantes, mas mais rápidos e fáceis de medir; ‘escolher seletivamente’ os dados mais convenientes, apenas para conseguir certos resultados, ou seja, ‘pescar’, ‘bisbilhotar’ ou ‘dragar’ os dados, ‘hackeam-os’ em busca de valores-p significativos (‘cherry-picking’, ‘data fishing’, ‘data snooping’, ‘data dredging’ e ‘p-hacking’).

Tudo isso, infelizmente, acaba subvertendo a essência do processo de investigação científica, diminuindo a qualidade da ciência praticada e, assim, minando a confiabilidade nas conclusões que podemos chegar através deste processo.

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A história de uma péssima alternativa

Segue um pequeno vídeo muito revelador. Ele conta um pouco da hype envolvendo a ‘medicina alternativa e complementar‘ que ocorreu nos anos 90. Esta mesma euforia levou ao estrelato gente como Deepak Chopra e outros gurus pseudocientíficos. Nesta atmosfera, a grande cobertura da mídia dedicada a este tópico em conjunto com o lobbie político acabou permitindo a criação do NCCAM, um centro de pesquisa ligado ao National Institute of Health, nos EUA, mesmo contrariando as recomendações da comunidade científica, que via (e vê) boa parte desta indústria como puro e simples charlatanismo. Isso fez com que o estudo destas terapias alternativas começasse a receber verbas federais, mesmo  estas práticas não sendo nada plausíveis e muito menos seu estudo prioritário.

O subsequente fracasso dos estudos em validar essas abordagens (utilizando-se de métodos de pesquisa e estratégias cientificas mais rigorosas) só piorou a situação. Além disso, o simples fato de um centro de pesquisas, com verbas do governo dos EUA, ter sido criado foi suficiente para a dar a falsa sensação de que tais abordagens fossem realmente respaldadas cientificamente, mesmo isso não sendo, nem de perto, verdade.  Para saber um pouco mais sobre o assunto dê uma olhada no meu outro post “Alternativas ao que, exatamente?“.

Talvez a parte mais assustadora do documentário seja assistir ao senador Tom Harkin – após os vários e sistemáticos fracassos dos estudos clínicos patrocinados pelo centro fornecerem evidências positivas – jogando a culpa na condução dos estudos pelo próprio instituto, simplesmente, porque, segundo ele, ao invés de testar criticamente as terapias, o NCCAM* deveria ‘validá-las’ (ou seja, aprová-las, confirmando o que eles já ‘sabiam’) porque era isso que a população (e ele, claro) gostariam. O nível de desconexão com a realidade e de wishfull thinking é simplesmente assustador. Harkin coloca o carro na frente dos bois, estando completamente alheio ao principal objetivo de efetuarmos este tipo de avaliações científicas  – exatamente, descobrir se as práticas, terapias e abordagens em questão funcionam ou não, fazendo isso através de estudos bem delineados e cuidadosamente conduzidos, de maneira rigorosa e justa.

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*Aliás, este é um dos méritos do NCCAM. Apesar de sua criação ter acontecido por pressões lobísticas desavergonhadas – e até contra o consenso da época da comunidade científica, sem esquecer as tentativas de cercear e até minar as atividades de pesquisadores mais sérios que lá trabalhavam -, mesmo assim, o centro financiou muitos trabalhos clínicos de alta qualidade que, sem surpresa, confirmaram as expectativas originais, já que haviam evidências mais rigorosas que deixavam claro que algumas das terapias não funcionavam e muitas outras eram tão implausíveis (violando princípios científicos muito bem estabelecidos) que não mereceriam nem o gasto com testes mais rigorosos.

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Referências:

  • Bausell RB. Snake Oil Science: The Truth About Complementary and Alternative Medicine. 1st ed. Oxford University Press; 2007.
  • Goldacre, B. Ciência Picareta Civilização Brasileira 1a ed, 2013. 378 p;
  • Singh S, Ernst E. Trick or treatment? : Alternative medicine on trial. Bantam Press; 2008.
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Por que deveríamos confiar nos cientistas?

A questão que dá título a este post (e ao vídeo embebido nele) é extremamente importante em nossa sociedade. Para respondê-la, porém, precisamos voltar a nos debruçarmos sobre a velha questão de o que torna as ciências distintas de outras atividades humanas; principalmente daquelas atividades intelectuais (ou práticas) que aspirem serem fontes de conhecimento confiável. Já discuti este tema em outras postagens deste blog (veja por exemplo:  ‘Método Científico?‘, ‘A ciência como um jogo de pinball‘, ‘Filosofia das pseudociências’) e agora, mais uma vez, volto a ele através. Desta vez a partir da TED talk proferida pela geóloga por formação e historiadora da ciência, por carreira acadêmica, Naomi Oreskes.

Nos últimos anos a historiadora tem investigado o consenso científico sobre o aquecimento global e a recepção deste consenso por parte do público leigo, em geral, mas também ela vem analisando a natureza da oposição a este consenso por parte dos autointitulados ‘céticos do aquecimento global‘, mas melhor descritos como ‘negacionistas‘, grupos de indivíduos que questionam e atacam as conclusões do IPCC (o painel intergovernamental de cientistas organizado pela ONU) sobre o assunto. Em vários artigos e em um livro, Oreskes mostrou como os grupos negacionistas, financiados por grandes grupos de Lobby comercial cheios de interesses escusos, organizaram-se para questionar os modelos, descobertas e conclusões da comunidade científica. Eles agem de uma maneira muito semelhante a feita, anteriormente, por outros lobbies, como o da indústria do Tabaco, inclusive com o financiamento de intelectuais e cientistas específicos para tentar ‘legitimar’ seus ataques, a imensa maioria dos quais não têm qualquer substância e, em alguns casos, são claramente desonestos. Tudo isso é discutido no seu livro de Oreskes, escrito em colaboração com  Erik Conway, ‘Merchants of Doubt‘.

Porém, isso ainda não responde à questão principal: Por que deveríamos confiar nos cientistas? Essa resposta é importante porque não podemos esperar que a maioria das pessoas (como fizeram Oreskes e Conway em seu livro e em seus artigos) examine a literatura 9781596916104_000científica da área em profundidade, ou entreviste muitos dos pesquisadores responsáveis pelos estudos para conhecer suas opiniões em detalhe e seus argumentos e, principalmente, identifique, corrija e desminta as diversas objeções e afirmações errôneas feitas pelos negacionistas. Afinal de contas, a maioria de nós não é especialista em qualquer (que dirá nas várias) das disciplinas científicas (geofísica, glaciologia, química atmosférica, climatologia, modelagem e simulação computacional etc) de cujas investigações dependem a conclusão sobre a realidade do aquecimento global antropogênico. De uma maneira ou de outra, temos que confiar nos especialistas, mas para isso, primeiro de tudo, precisamos ser capazes de distinguir os verdadeiros especialistas dos pseudo-especialistas, ou seja, os negacionistas de plantão.

Em sua palestra, Oreskes aborda este tema de maneira mais geral. Como outros historiadores e filósofos das ciências, Oreskes é bastante crítica à visão recebida (e semi-oficial) que justifica a confiabilidade das conclusões das ciências a partir da (suposta) adesão por parte de todos (ou a imensa maioria) os cientistas ao ‘método científico‘. Esse método é, normalmente, equiparado às abordagens hipotético-dedutivas (ou nomológico-dedutivas) para as ciências, que, como já discuti em outras ocasiões, captura apenas parte da história todo do que caracteriza a investigação científica. Esta abordagem porém deixa de lado várias sutilezas e muitos fatores importantes que são partes integrante da pesquisa científica, não sendo crítico o suficiente com relação as próprias limitações destas abordagens [veja por exemplo ‘A Ciência do Erro e o Erro na Ciência, Ciência e inferência. Parte I: A dúvida de Hume e a solução de Popper’, ‘Ciência e inferência. Parte II: Popper e a tese do holismo’, ‘Ciência e inferência. Parte III: O bom e velho reverendo’ e ‘Ciência e Inferência Parte IV: Probabilidades e probabilidades’].

Nessa apresentação a historiadora destaca a importância da forma como a comunidade científica organiza-se, especialmente aquilo que o sociólogo Robert Merton chamou de ‘ceticismo organizado‘ (ou daquilo que Karl Popper chamava de ‘cooperação amigavelmente hostil’, ou ‘rivalidade amistosa’, como prefiro) – ou seja, o fato dos pesquisadores membros da comunidade de pesquisa colaborarem entre si mantendo uma atitude crítica principalmente com relação a novas ideias e dados, o que demanda que os seus proponentes forneçam evidências rigorosas e argumentos bem estruturados que, por sua vez, serão examinados de maneira crítica, a procura de erros, problemas, fontes de viés, e cujas conclusões serão contrastadas com o esperado por outras hipóteses, modelos, teorias ou possibilidades alternativas. Assim, seria nesta postura crítica coletiva que encontraríamos as melhores razões para confiarmos nos cientistas e, mesmo para reconhecê-los, já que esta confiança demanda que as comunidades de pesquisadores estejam organizadas de uma maneira que esta atitude crítica, metódica e sistemática seja fomentada e implementada.

Portanto, ao confiarmos nas conclusões da comunidade científica realmente dependemos de um reconhecimento tácito da sua autoridade. Esse reconhecimento, entretanto, é motivado pelo histórico de sucessos da área em questão e a aceitação não é nem acrítica (já que sempre que possível devemos tentar seguir os argumentos e evidências. Daí a importância dos esforços de educação e divulgação científica*), como também não depende da subserviência a autoridades individuais. Desta forma, a confiança depositada nas conclusões das ciências depende de uma autoridade coletiva e distribuída que foi ganhou à duras penas, tendo sido historicamente estabelecida. Contudo, mesmo assim, tal autoridade está sempre sujeita a revisão e sob o constante escrutínio crítico dos membros desta comunidade e de quem mais quiser inteira-se de seus procedimentos, métodos, valores epistêmicos e objetivos.  Essa confiança, portanto, permeia nossa sociedade, advindo inclusive de nossa dependência (e aceitação tácita por parte de seus membros) dos vários produtos das ciências, particularmente, aqueles relacionados à tecnologia.

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* Volto a lembrar e a insistir que, mesmo não havendo algo como o ‘método científico‘ (em sentido estrito), ainda assim, existem uma série de métodos, normas, critérios e características gerais que permitem que nós diferenciemos, na imensa maioria dos casos, tanto as ciências das pseudociências, como a boa da má ciência e que nos permitem mesmo termos uma ideia das reais disputas científicas, ou seja, quando seria mais apropriado suspender o juízo, não aquelas ‘pseudodisputas‘ manufaturadas pelos descontentes com as (supostas) implicações sociais, religioso-ideológicas e éticas de algumas das conclusões sobre a história do universo, do nosso planeta e da vida mais bem estabelecidas pela comunidade científica, com as fomentadas pelos diversos negacionistas.

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Referências:

  • Oreskes N. Beyond the ivory tower. The scientific consensus on climate change. Science. 2004 Dec 3;306(5702):1686. Erratum in: Science. 2005 Jan 21;307(5708):355. PubMed PMID: 15576594. [Veja também o excelente post da página Skeptical Science sobre as críticas feitas a este artigo em ‘ What does Naomi Oreskes’ study on consensus show?‘]
  • Oreskes, Naomi, 2007, “The scientific consensus on climate change: How do we know we’re not wrong?” Climate Change: What It Means for Us, Our Children, and Our Grandchildren, edited by Joseph F. C. DiMento and Pamela Doughman, MIT Press, pp. 65-99. [Download file]
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As ciências na antiguidade: Até onde chegaram?

Como já comentei em vários posts anteriores ( ‘Método Científico?‘, ‘A ciência como um jogo de pinball‘, ‘Filosofia das pseudociências‘), a definição do que é ‘a ciência‘ (ou do que são ‘as ciências‘, como tendo a preferir) é algo mais complicado do que muitas pessoas costumam admitir. Claro, isso não impede que as diferenciemos de outras empreitadas cognitivas humanas e, principalmente, as demarquemos e as distinguamos de seu avesso, as pseudociências, mesmo que não hajam fórmulas mágicas para este fim. Essas dificuldades, entretanto, que são bem reais, acabam levando a outros problemas, como os relacionados a especificar com precisão quando as ciências teriam surgido em nossa sociedade ao longo da história.

Muitas vezes quando os historiadores das ciências mencionam ‘o surgimento das ciências‘, eles normalmente referem-se a ‘ciência moderna‘ – o resultado da chamada ‘revolução científica‘, ocorrida entre os séculos XVI e XVII. Este episódio da história intelectual de nossa sociedade ocidental envolveu os trabalhos de personagens célebres como Copérnico, Bacon, Descartes, Kepler, Galileu e Newton, além de muitos outros, cujas descobertas empíricas, modelos teóricos e propostas metodológicas ajudaram a criar a face atual do conhecimento científico, principalmente, das ciências naturais, que serviram de modelo às outras ciências.

Neste período, de pouco mais de 100 anos, é que as ciências (mais ou menos como as compreendemos hoje) popularizaram-se a partir de uma abordagem que conjugava teorização matemática e experimentação controlada, realizada de forma mais sistemática e de maneira a ser publicamente replicável. Esse período foi marcado também pelo começo da institucionalização da prática científica, com a formação de várias sociedades científicas (Como a Royal Society, Britânica e Académie des sciences, Francesa) que, assim, levaram a consolidação de verdadeiras comunidades de pesquisa científica.

Porém, a própria ‘revolução científica‘ não esgota tudo aquilo que compreendemos pelo termo ‘ciências‘. Primeiro porque muitos dos métodos e abordagens que hoje consideramos essenciais à prática científica só seriam inventados (e amplamente disseminados e incorporados a várias disciplinas científicas) bem mais tarde, como é o caso de quase todo o ramo da estatística inferencial, por exemplo. Além disso, mesmo muito antes da revolução científica encontramos precedentes de praticamente todas as iniciativas, abordagens, posturas e métodos mais gerais que consideramos como sendo marcas do começo das ciências modernas.

Desde a antiguidade clássica, no mundo greco-romano, já havia esforços sistemáticos voltados a compreensão da natureza nos quais empregavam-se a obervação detalhada e cuidadosa e mesmo formas de experimentação controlada. Também eram construídos e utilizados instrumentos específicos de medida e havia a busca por consenso entre os pares que tentavam convencer-se mutuamente por meio do emprego de argumentação racional rigorosa (a partir de premissas empiricamente verificáveis) e dos uso da abstração matemática, na tentativa de estabelecer leis gerais sobre os fenômenos de interesse. Portanto, em um certo sentido muito relevante, é perfeitamente possível falar em ‘ciências antigas‘, uma vez que muitas das características descritas acima, típicas das ciências modernas, já estavam presentes em muitas investigações ocorridas e documentadas no mundo greco-romano. Além do mais, essas empreitadas intelectuais e práticas tinham como base alguns princípios gerais bem simples e que até hoje estão no cerne da pesquisa científica: a curiosidade, como valor positivo essencial; a crença no progresso, ou seja, na possibilidade de avanço do conhecimento; e uma orientação geral empirista – pelo menos no sentido mais geral de considerar os fatos do mundo (de uma maneira ou de outra) como os árbitros derradeiros do conhecimento. Por fim, para que este tipo de empreitadas cognitivas pudessem ter lugar é necessário uma atmosfera minima que fomente a livre indagação. Todas essas normas e princípios gerais já estavam presentes (mesmo que de maneira mais incipiente) na antiguidade clássica.

Claro, isso não quer dizer que as ciências antigas fossem iguais ao que compreendemos hoje como ciências. Segundo o historiador Richard Carrier, especializado na história intelectual (ciência, tecnologia e filosofia) greco-romana, a principal diferença entre as ciências da antiguidade e nossa versão contemporânea, além da escala, conhecimento acumulado e do nível de institucionalização, era o fato de, na antiguidade, não haver uma clara apreciação da importância da qualidade metodológica. De acordo com Carrier, não havia uma distinção muito precisa (e amplamente compartilhada pelos pesquisadores) entre os métodos realmente confiáveis, rigorosos, críticos (que eram capazes de, em geral, promover avanços no conhecimento) daqueles métodos e abordagens inadequados e altamente duvidosos. As ciências antigas, desta maneira, eram muito mais erráticas e desiguais em termos metodológicos e, portanto, da confiabilidade de suas conclusões do que observamos hoje em dia.

A qualidade variável dos métodos e a menor massa crítica e organização da comunidade científica daquela época, entretanto, não impediram que alguns avanços fossem alcançados, Assim, de acordo com Carrier, um senso de progresso pode ser discernido entre os cientistas da antiguidade, inclusive com o refinamento e correção de muitas das ideias que surgiram nos primórdios das ciências da antiguidade. Muitas das ideias de personagens seminais da história intelectual das sociedades ocidentais, como algumas ideias sobre fisiologia de Aristóteles*, foram superadas por pesquisadores Gregos e Romanos, em séculos posteriores, tendo sido, mais tarde, esquecidas durante a idade das trevas, que marca o final do império Romano e os primeiros 500 anos da idade média**.

Em mais uma brilhante palestra, Carrier conta um pouco desta história esquecida a partir do que os historiadores puderam reconstruir a partir dos textos técnico-científico (ou, muitas vezes, apenas por menções indiretas e comentários sobre outros textos perdidos) e da descobertas de artefatos arqueológicos, que restaram deste período da história da civilização  ocidental.

Carrier, nesta palestra realizada durante o  Wonderfest Science,  em 2015, mostra alguns dos avanços que ocorreram neste período em várias áreas do conhecimento básico e aplicado, em disciplinas que hoje chamaríamos de ‘ótica‘, ‘cartografia‘, ‘geografia‘, ‘astronomia‘, ‘anatomia‘, ‘fisiologia experimental‘ (e ‘farmacologia‘), ‘mecânica‘, ‘hidráulica‘, ‘robótica‘ etc.

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* É interessante notar que muitas das ideias de Aristóteles ou inspiradas em seus escritos – especialmente sobre física e, principalmente, sobre como as ciências deveriam ser levadas à cabo – acabaram por tornarem-se dogmas, quando re-descobertas no final da idade média na Europa. Algumas dessas ideias, de fato, tornaram-se obstáculos intelectuais e tiveram que ser superadas, ou pelo menos afrouxadas, durante (e após) a revolução científica, de modo que pudéssemos avançar na prática das ciências.

** Aqui creio ser importante enfatizar que nem toda a idade média pode ser considerada um período de trevas, no sentido intelectual da expressão. A partir do ano 1000 (e especialmente a partir do ano 1200) muitos dos ensinamentos da antiguidade clássica foram redescobertos e retomados pelos próprios intelectuais cristãos, embora uma parte significante das autoridades Cristãs continuasse bastante refratária aos valores intelectuais e métodos científicos que discutimos e, principalmente, a certas conclusões que desviavam de alguns de seus dogmas mais arraigados.

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  • Hentry, John.  A Revolução Científica e as origens da ciência moderna. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998.

  • Carrier, R. Christianity Was Not Responsible for Modern Science in The Christian Delusion: Why Faith Fails, Loftus, John W. (edited), Prometheus Books, 2010.

  • Braga, Marco, Guerra, Andreia e Cláudio, José Reis Breve história da ciência moderna Volume 1: Convergência de saberes (Idade Média) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. 101 páginas

  • Braga, Marco, Guerra, Andreia e Cláudio, José Reis Breve história da ciência moderna – Volume 2: Das máquinas do mundo ao Universo-máquina (séc. XV a XVII) Reis Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004. 136 páginas

  • Braga, Marco, Guerra, Andreia e Claudio, José Reis  Breve história da ciência moderna – Volume 3: Das Luzes ao sonho do doutor Frankenstein (séc. XVIII) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005. 160 páginas

  • Braga, Marco, Guerra, Andreia e Claudio, José Reis Breve história da ciência moderna Volume 4 – A Belle-époque da Ciência (séc XIX) Jorge Zahar: Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2007. 188 páginas

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