Estudos científicos e a cobertura da mídia

O excelente John Oliver, do ‘Last Week Tonight with John Oliver‘ da HBO, volta sua atenção para a maneira como a mídia reporta os ‘estudos científicos’. Qualquer cientista, ou pelo menos qualquer tenha uma formação científica e/ou trabalhe com divulgação científica sabe do que ele está falando. Vemos desde cobertura superficial e sensacionalista até a completa adulteração das conclusões e resultados do estudos realizados pelos cientistas e que estão sendo divulgados. Não há espaço para a nuance e a cautela que deve caracterizar a pesquisa científica e que normalmente é parte fundamental da forma como a comunidade científica age. As limitações metodológicas, as incertezas e os vários problemas associados ao viés de publicação e a eventual baixa qualidade de muitos destes estudos, que a mídia resolve reportar, fica completamente obscurecida e contribui para produzir um clima de desconfiança ou de simples alienação em relação as ciências.

De modo geral, não parece existir muita preocupação em contextualizar os resultados de novos estudos; tanto em termos de sua relevância social e, eventual, aplicabilidade prática (o que seria de esperar de algo feito pela imprensa ao abordar um tema técnico para um público mais geral e leigo), como também em termos do resto da literatura científica sobre o tema. Estudos científicos não existem em um limbo. É só através da apreciação e avaliação crítica  de toda a literatura disponível é que podemos tirar quaisquer conclusões mais sólidas. Isso se perde completamente na cobertura de ciência tipicamente feita pela grande mídia.

Grande parte disso é realmente culpa dos veículos de comunicação e dos jornalistas que  trabalham neles – muitos dos quais não têm formação, tempo e nem interesse em uma cobertura mais acurada, precisa e realmente crítica, o que é diferente do negacionismo e da propagação de teorias conspiratórias que muitos veículos de imprensa não têm qualquer pudor em embarcar. Porém, não podemos esquecer que muita distorção e vários exageros originam-se nas próprias universidades, centros e institutos de pesquisa, principalmente, através de releases de imprensa, mas também quando os cientistas inflam a relevância de suas conclusões, simplificam demais seus resultados e minimizam as limitações de seus métodos, ao interagirem com jornalistas e profissionais de relações públicas. Muitas vezes, isso acontece não por má fé, mas porque sua posição e financiamento de seu trabalho pode depender de sua notoriedade e projeção.

Essa descuidada e apressada forma de apresentar os e resultados científicos e os próprios cientistas à sociedade acaba gerando uma percepção muito enganosa do que é a pesquisa científica e de como a comunidade científica se organiza para levá-la a cabo. Embora a ciência seja realmente muito mais complicada, nuançada e até bagunçada do que muitos de nós gostamos de admitir, esse tipo de cobertura dá uma impressão muito pior. Ao não informar os leigos sobre a postura crítica, o fato de existirem estudos e argumentos de diferentes qualidades e alertá-lo para a importância da avaliação coletiva e temporalmente estendida realizada pela comunidade científica, a mídia muitas vezes dá a impressão que os cientistas estão sempre contradizendo uns aos outros.

Desta forma, ela joga nas mãos dos negacionistas e pseudocientistas de plantão, que, para a população geral, são indistinguíveis de suas contrapartidas sérias. Pior, ela contribui para o clima de pressão sobre os cientistas – inclusive sobre os órgãos de fomento que passam a exigir novos, inusitados e impactantes resultados, colocando os cientistas em uma posição complicada. Nestes casos apressar a publicação de resultados, usar amostras menores do que o que se deveria, escolher desfechos menos importantes, mas mais rápidos e fáceis de medir, fazer ‘escolhas seletivas’ e enviesadas apenas para conseguir certos resultados, ou seja, ‘pescar’ ‘bisbilhotar’ ou ‘dragar’ os dados, hackeam-os em busca de valores-p significativos (‘cherry-picking’, ‘data fishing’, ‘data snooping’, ‘data dredging’ e ‘p-hacking’) pode parecer a saída mais fácil; o que acaba subvertendo a essência da investigação científica, diminuindo a qualidade da ciência praticada e, portanto, a confiabilidade nas conclusões que chegamos através deste processo.

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A história de uma péssima alternativa

Segue um pequeno vídeo muito revelador. Ele conta um pouco da hype envolvendo a ‘medicina alternativa e complementar‘ que ocorreu nos anos 90. Esta mesma euforia levou ao estrelato gente como Deepak Chopra e outros gurus pseudocientíficos. Nesta atmosfera, a grande cobertura da mídia dedicada a este tópico em conjunto com o lobbie político acabou permitindo a criação do NCCAM, um centro de pesquisa ligado ao National Institute of Health, nos EUA, mesmo contrariando as recomendações da comunidade científica, que via (e vê) boa parte desta indústria como puro e simples charlatanismo. Isso fez com que o estudo destas terapias alternativas começasse a receber verbas federais, mesmo  estas práticas não sendo nada plausíveis e muito menos seu estudo prioritário.

O subsequente fracasso dos estudos em validar essas abordagens (utilizando-se de métodos de pesquisa e estratégias cientificas mais rigorosas) só piorou a situação. Além disso, o simples fato de um centro de pesquisas, com verbas do governo dos EUA, ter sido criado foi suficiente para a dar a falsa sensação de que tais abordagens fossem realmente respaldadas cientificamente, mesmo isso não sendo, nem de perto, verdade.  Para saber um pouco mais sobre o assunto dê uma olhada no meu outro post “Alternativas ao que, exatamente?“.

Talvez a parte mais assustadora do documentário seja assistir ao senador Tom Harkin – após os vários e sistemáticos fracassos dos estudos clínicos patrocinados pelo centro fornecerem evidências positivas – jogando a culpa na condução dos estudos pelo próprio instituto, simplesmente, porque, segundo ele, ao invés de testar criticamente as terapias, o NCCAM* deveria ‘validá-las’ (ou seja, aprová-las, confirmando o que eles já ‘sabiam’) porque era isso que a população (e ele, claro) gostariam. O nível de desconexão com a realidade e de wishfull thinking é simplesmente assustador. Harkin coloca o carro na frente dos bois, estando completamente alheio ao principal objetivo de efetuarmos este tipo de avaliações científicas  – exatamente, descobrir se as práticas, terapias e abordagens em questão funcionam ou não, fazendo isso através de estudos bem delineados e cuidadosamente conduzidos, de maneira rigorosa e justa.

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*Aliás, este é um dos méritos do NCCAM. Apesar de sua criação ter acontecido por pressões lobísticas desavergonhadas – e até contra o consenso da época da comunidade científica, sem esquecer as tentativas de cercear e até minar as atividades de pesquisadores mais sérios que lá trabalhavam -, mesmo assim, o centro financiou muitos trabalhos clínicos de alta qualidade que, sem surpresa, confirmaram as expectativas originais, já que haviam evidências mais rigorosas que deixavam claro que algumas das terapias não funcionavam e muitas outras eram tão implausíveis (violando princípios científicos muito bem estabelecidos) que não mereceriam nem o gasto com testes mais rigorosos.

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Referências:

  • Bausell RB. Snake Oil Science: The Truth About Complementary and Alternative Medicine. 1st ed. Oxford University Press; 2007.
  • Goldacre, B. Ciência Picareta Civilização Brasileira 1a ed, 2013. 378 p;
  • Singh S, Ernst E. Trick or treatment? : Alternative medicine on trial. Bantam Press; 2008.
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Por que deveríamos confiar nos cientistas?

A questão que dá título a este post (e ao vídeo embebido nele) é extremamente importante em nossa sociedade. Para respondê-la, porém, precisamos voltar a nos debruçar sobre a velha questão do que torna as ciências distintas de outras atividades humanas; principalmente daquelas atividades intelectuais (ou práticas) que aspirem serem fontes de conhecimento confiável. Já discuti este tema em outras postagens deste blog (veja por exemplo:  ‘Método Científico?‘, ‘A ciência como um jogo de pinball‘, ‘Filosofia das pseudociências’) e agora, mais uma vez, volto a ele através. Desta vez a partir da TED talk proferida pela geóloga por formação e historiadora da ciência, por carreira acadêmica, Naomi Oreskes.

Nos últimos anos a historiadora tem investigado o consenso científico sobre o aquecimento global e a recepção deste consenso por parte do público leigo, em geral, mas também ela vem analisando a natureza da oposição a este consenso por parte dos autointitulados ‘céticos do aquecimento global‘, mas melhor descritos como ‘negacionistas‘, grupos de indivíduos que questionam e atacam as conclusões do IPCC (o painel intergovernamental de cientistas organizado pela ONU) sobre o assunto. Em vários artigos e em um livro, Oreskes mostrou como os grupos negacionistas, financiados por grandes grupos de Lobby comercial cheios de interesses escusos, organizaram-se para questionar os modelos, descobertas e conclusões da comunidade científica. Eles agem de uma maneira muito semelhante a feita, anteriormente, por outros lobbies, como o da indústria do Tabaco, inclusive com o financiamento de intelectuais e cientistas específicos para tentar ‘legitimar’ seus ataques, a imensa maioria dos quais não têm qualquer substância e, em alguns casos, são claramente desonestos. Tudo isso é discutido no seu livro de Oreskes, escrito em colaboração com  Erik Conway, ‘Merchants of Doubt‘.

Porém, isso ainda não responde à questão principal: Por que deveríamos confiar nos cientistas? Essa resposta é importante porque não podemos esperar que a maioria das pessoas (como fizeram Oreskes e Conway em seu livro e em seus artigos) examine a literatura 9781596916104_000científica da área em profundidade, ou entreviste muitos dos pesquisadores responsáveis pelos estudos para conhecer suas opiniões em detalhe e seus argumentos e, principalmente, identifique, corrija e desminta as diversas objeções e afirmações errôneas feitas pelos negacionistas. Afinal de contas, a maioria de nós não é especialista em qualquer (que dirá nas várias) das disciplinas científicas (geofísica, glaciologia, química atmosférica, climatologia, modelagem e simulação computacional etc) de cujas investigações dependem a conclusão sobre a realidade do aquecimento global antropogênico. De uma maneira ou de outra, temos que confiar nos especialistas, mas para isso, primeiro de tudo, precisamos ser capazes de distinguir os verdadeiros especialistas dos pseudo-especialistas, ou seja, os negacionistas de plantão.

Em sua palestra, Oreskes aborda este tema de maneira mais geral. Como outros historiadores e filósofos das ciências, Oreskes é bastante crítica à visão recebida (e semi-oficial) que justifica a confiabilidade das conclusões das ciências a partir da (suposta) adesão por parte de todos (ou a imensa maioria) os cientistas ao ‘método científico‘. Esse método é, normalmente, equiparado às abordagens hipotético-dedutivas (ou nomológico-dedutivas) para as ciências, que, como já discuti em outras ocasiões, captura apenas parte da história todo do que caracteriza a investigação científica. Esta abordagem porém deixa de lado várias sutilezas e muitos fatores importantes que são partes integrante da pesquisa científica, não sendo crítico o suficiente com relação as próprias limitações destas abordagens [veja por exemplo ‘A Ciência do Erro e o Erro na Ciência, Ciência e inferência. Parte I: A dúvida de Hume e a solução de Popper’, ‘Ciência e inferência. Parte II: Popper e a tese do holismo’, ‘Ciência e inferência. Parte III: O bom e velho reverendo’ e ‘Ciência e Inferência Parte IV: Probabilidades e probabilidades’].

Nessa apresentação, a historiadora destaca a importância da forma como a comunidade científica organiza-se, especialmente aquilo que o sociólogo Robert Merton chamou de ‘ceticismo organizado‘ (ou daquilo que Karl Popper chamava de ‘cooperação amigavelmente hostil’, ou ‘rivalidade amistosa’, como prefiro) – ou seja, o fato dos pesquisadores membros da comunidade de pesquisa colaborarem entre si mantendo uma atitude crítica principalmente com relação a novas ideias e dados, o que demanda que os seus proponentes forneçam evidências rigorosas e argumentos bem estruturados que, por sua vez, serão examinados de maneira crítica, a procura de erros, problemas, fontes de viés, e cujas conclusões serão contrastadas com o esperado por outras hipóteses, modelos, teorias ou possibilidades alternativas. Assim, seria nesta postura crítica coletiva que encontraríamos as melhores razões para confiarmos nos cientistas e, mesmo para reconhecê-los, já que esta confiança demanda que as comunidades de pesquisadores estejam organizadas de uma maneira que esta atitude crítica, metódica e sistemática seja fomentada e implementada.

Portanto, ao confiarmos nas conclusões da comunidade científica realmente dependemos de um reconhecimento tácito da sua autoridade. Esse reconhecimento, entretanto, é motivado pelo histórico de sucessos (ou fracassos) da área em questão e essa aceitação não é nem acrítica (já que sempre que possível devemos tentar seguir os argumentos e evidências. Daí a importância dos esforços de educação e divulgação científica*), como também não dependem da subserviência a autoridades individuais. Desta forma, a confiança depositada nas conclusões das ciências depende de uma autoridade coletiva e distribuída que foi ganha à duras penas, tendo sido historicamente estabelecida, mas que, mesmo assim, está sempre sujeita a revisão e sob o constante escrutínio crítico dos membros desta comunidade.  Essa confiança portanto permeia nossa sociedade, advindo inclusive da dependência (e aceitação tácita por parte de seus membros) por parte dela dos vários produtos das ciências, particularmente a tecnologia.

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* Volto a lembrar e a insistir que, mesmo não havendo algo como o ‘método científico‘ (em sentido estrito), ainda assim, existem uma série de métodos, normas, critérios e características gerais que permitem que nós diferenciemos, na imensa maioria dos casos, tanto as ciências das pseudociências, como a boa da má ciência e que nos permitem mesmo termos uma ideia das reais disputas científicas, ou seja, quando seria mais apropriado suspender o juízo, não aquelas ‘pseudodisputas‘ manufaturadas pelos descontentes com as (supostas) implicações sociais, religioso-ideológicas e éticas de algumas das conclusões sobre a história do universo, do nosso planeta e da vida mais bem estabelecidas pela comunidade científica, com as fomentadas pelos diversos negacionistas.

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Referências:

  • Oreskes N. Beyond the ivory tower. The scientific consensus on climate change. Science. 2004 Dec 3;306(5702):1686. Erratum in: Science. 2005 Jan 21;307(5708):355. PubMed PMID: 15576594. [Veja também o excelente post da página Skeptical Science sobre as críticas feitas a este artigo em ‘ What does Naomi Oreskes’ study on consensus show?‘]
  • Oreskes, Naomi, 2007, “The scientific consensus on climate change: How do we know we’re not wrong?” Climate Change: What It Means for Us, Our Children, and Our Grandchildren, edited by Joseph F. C. DiMento and Pamela Doughman, MIT Press, pp. 65-99. [Download file]
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As ciências na antiguidade: Até onde chegaram?

Como já comentei em vários posts anteriores ( ‘Método Científico?‘, ‘A ciência como um jogo de pinball‘, ‘Filosofia das pseudociências‘), a definição do que é ‘a ciência‘ (ou do que são ‘as ciências‘, como tendo a preferir) é algo mais complicado do que muitas pessoas costumam admitir. Claro, isso não impede que as diferenciemos de outras empreitadas cognitivas humanas e, principalmente, as demarquemos e as distinguamos de seu avesso, as pseudociências, mesmo que não hajam fórmulas mágicas para este fim. Essas dificuldades, entretanto, que são bem reais, acabam levando a outros problemas, como os relacionados a especificar com precisão quando as ciências teriam surgido em nossa sociedade ao longo da história.

Muitas vezes quando os historiadores das ciências mencionam ‘o surgimento das ciências‘, eles normalmente referem-se a ‘ciência moderna‘ – o resultado da chamada ‘revolução científica‘, ocorrida entre os séculos XVI e XVII. Este episódio da história intelectual de nossa sociedade ocidental envolveu os trabalhos de personagens célebres como Copérnico, Bacon, Descartes, Kepler, Galileu e Newton, além de muitos outros, cujas descobertas empíricas, modelos teóricos e propostas metodológicas ajudaram a criar a face atual do conhecimento científico, principalmente, das ciências naturais, que serviram de modelo às outras ciências.

Neste período, de pouco mais de 100 anos, é que as ciências (mais ou menos como as compreendemos hoje) popularizaram-se a partir de uma abordagem que conjugava teorização matemática e experimentação controlada, realizada de forma mais sistemática e de maneira a ser publicamente replicável. Esse período foi marcado também pelo começo da institucionalização da prática científica, com a formação de várias sociedades científicas (Como a Royal Society, Britânica e Académie des sciences, Francesa) que, assim, levaram a consolidação de verdadeiras comunidades de pesquisa científica.

Porém, a própria ‘revolução científica‘ não esgota tudo aquilo que compreendemos pelo termo ‘ciências‘. Primeiro porque muitos dos métodos e abordagens que hoje consideramos essenciais à prática científica só seriam inventados (e amplamente disseminados e incorporados a várias disciplinas científicas) bem mais tarde, como é o caso de quase todo o ramo da estatística inferencial, por exemplo. Além disso, mesmo muito antes da revolução científica encontramos precedentes de praticamente todas as iniciativas, abordagens, posturas e métodos mais gerais que consideramos como sendo marcas do começo das ciências modernas.

Desde a antiguidade clássica, no mundo greco-romano, já havia esforços sistemáticos voltados a compreensão da natureza nos quais empregavam-se a obervação detalhada e cuidadosa e mesmo formas de experimentação controlada. Também eram construídos e utilizados instrumentos específicos de medida e havia a busca por consenso entre os pares que tentavam convencer-se mutuamente por meio do emprego de argumentação racional rigorosa (a partir de premissas empiricamente verificáveis) e dos uso da abstração matemática, na tentativa de estabelecer leis gerais sobre os fenômenos de interesse. Portanto, em um certo sentido muito relevante, é perfeitamente possível falar em ‘ciências antigas‘, uma vez que muitas das características descritas acima, típicas das ciências modernas, já estavam presentes em muitas investigações ocorridas e documentadas no mundo greco-romano. Além do mais, essas empreitadas intelectuais e práticas tinham como base alguns princípios gerais bem simples e que até hoje estão no cerne da pesquisa científica: a curiosidade, como valor positivo essencial; a crença no progresso, ou seja, na possibilidade de avanço do conhecimento; e uma orientação geral empirista – pelo menos no sentido mais geral de considerar os fatos do mundo (de uma maneira ou de outra) como os árbitros derradeiros do conhecimento. Por fim, para que este tipo de empreitadas cognitivas pudessem ter lugar é necessário uma atmosfera minima que fomente a livre indagação. Todas essas normas e princípios gerais já estavam presentes (mesmo que de maneira mais incipiente) na antiguidade clássica.

Claro, isso não quer dizer que as ciências antigas fossem iguais ao que compreendemos hoje como ciências. Segundo o historiador Richard Carrier, especializado na história intelectual (ciência, tecnologia e filosofia) greco-romana, a principal diferença entre as ciências da antiguidade e nossa versão contemporânea, além da escala, conhecimento acumulado e do nível de institucionalização, era o fato de, na antiguidade, não haver uma clara apreciação da importância da qualidade metodológica. De acordo com Carrier, não havia uma distinção muito precisa (e amplamente compartilhada pelos pesquisadores) entre os métodos realmente confiáveis, rigorosos, críticos (que eram capazes de, em geral, promover avanços no conhecimento) daqueles métodos e abordagens inadequados e altamente duvidosos. As ciências antigas, desta maneira, eram muito mais erráticas e desiguais em termos metodológicos e, portanto, da confiabilidade de suas conclusões do que observamos hoje em dia.

A qualidade variável dos métodos e a menor massa crítica e organização da comunidade científica daquela época, entretanto, não impediram que alguns avanços fossem alcançados, Assim, de acordo com Carrier, um senso de progresso pode ser discernido entre os cientistas da antiguidade, inclusive com o refinamento e correção de muitas das ideias que surgiram nos primórdios das ciências da antiguidade. Muitas das ideias de personagens seminais da história intelectual das sociedades ocidentais, como algumas ideias sobre fisiologia de Aristóteles*, foram superadas por pesquisadores Gregos e Romanos, em séculos posteriores, tendo sido, mais tarde, esquecidas durante a idade das trevas, que marca o final do império Romano e os primeiros 500 anos da idade média**.

Em mais uma brilhante palestra, Carrier conta um pouco desta história esquecida a partir do que os historiadores puderam reconstruir a partir dos textos técnico-científico (ou, muitas vezes, apenas por menções indiretas e comentários sobre outros textos perdidos) e da descobertas de artefatos arqueológicos, que restaram deste período da história da civilização  ocidental.

Carrier, nesta palestra realizada durante o  Wonderfest Science,  em 2015, mostra alguns dos avanços que ocorreram neste período em várias áreas do conhecimento básico e aplicado, em disciplinas que hoje chamaríamos de ‘ótica‘, ‘cartografia‘, ‘geografia‘, ‘astronomia‘, ‘anatomia‘, ‘fisiologia experimental‘ (e ‘farmacologia‘), ‘mecânica‘, ‘hidráulica‘, ‘robótica‘ etc.

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* É interessante notar que muitas das ideias de Aristóteles ou inspiradas em seus escritos – especialmente sobre física e, principalmente, sobre como as ciências deveriam ser levadas à cabo – acabaram por tornarem-se dogmas, quando re-descobertas no final da idade média na Europa. Algumas dessas ideias, de fato, tornaram-se obstáculos intelectuais e tiveram que ser superadas, ou pelo menos afrouxadas, durante (e após) a revolução científica, de modo que pudéssemos avançar na prática das ciências.

** Aqui creio ser importante enfatizar que nem toda a idade média pode ser considerada um período de trevas, no sentido intelectual da expressão. A partir do ano 1000 (e especialmente a partir do ano 1200) muitos dos ensinamentos da antiguidade clássica foram redescobertos e retomados pelos próprios intelectuais cristãos, embora uma parte significante das autoridades Cristãs continuasse bastante refratária aos valores intelectuais e métodos científicos que discutimos e, principalmente, a certas conclusões que desviavam de alguns de seus dogmas mais arraigados.

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  • Hentry, John.  A Revolução Científica e as origens da ciência moderna. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998.

  • Carrier, R. Christianity Was Not Responsible for Modern Science in The Christian Delusion: Why Faith Fails, Loftus, John W. (edited), Prometheus Books, 2010.

  • Braga, Marco, Guerra, Andreia e Cláudio, José Reis Breve história da ciência moderna Volume 1: Convergência de saberes (Idade Média) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. 101 páginas

  • Braga, Marco, Guerra, Andreia e Cláudio, José Reis Breve história da ciência moderna – Volume 2: Das máquinas do mundo ao Universo-máquina (séc. XV a XVII) Reis Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004. 136 páginas

  • Braga, Marco, Guerra, Andreia e Claudio, José Reis  Breve história da ciência moderna – Volume 3: Das Luzes ao sonho do doutor Frankenstein (séc. XVIII) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005. 160 páginas

  • Braga, Marco, Guerra, Andreia e Claudio, José Reis Breve história da ciência moderna Volume 4 – A Belle-époque da Ciência (séc XIX) Jorge Zahar: Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2007. 188 páginas

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Será que Jesus realmente existiu?

Segue outro ótimo vídeo do historiador, filósofo naturalista, blogueiro e palestrante Richard Carrier. Neste vídeo Carrier apresenta seu trabalho técnico dos últimos 6 anos sobre a historicidade de Jesus Cristo, que resultou em dois livros, ‘Proving History‘ e ‘On the Historicity of Jesus Christ [veja aqui] Neles Carrier, além de uma impressionante pesquisa historiográfica e de revisão da literatura relevante sobre o tema, explica e aplica a inferência Bayesiana na avaliação dos argumentos e evidências disponíveis e argumentos acadêmicos dos historiadores. Carrier conclui que o consenso sobre a historicidade de Jesus simplesmente não é sólido, sendo muitas vezes mantido e a alardeado sem qualquer avaliação crítica dos argumentos e evidências disponíveis por parte de muitos dos acadêmicos da área. O tema é bem polêmico, mas a apresentação vale muito a pena.

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Filosofia das pseudociências

Nesse errático blog, mais uma vez volto a escrever sobre ciências. Desta vez, porém, o foco é em seu avesso: as pseudociências. Este é outro tópico para o qual sempre devoto algum atenção e volto de tempos em tempos. Não poderia ser muito diferente uma vez que ele está fortemente ligado ao meu interesse por divulgação e educação científica de qualidade, atividades constante ameaçadas pela disseminação de ideias pseudocientíficas.

Mas afinal, o que seriam as pseudociências?

Dito da forma mais simples possível, podemos chamar de pseudociências aquelas atividades que apresentam-se enganosamente como ciências – ou pelo menos assemelham-se superficialmente as disciplinas que consideramos científicas -, mas que não exibem as características que consideramos distintivas das ciências. Caso você já tenha lido algumas das minhas postagens sobre este tema e sobre o dito ‘método científico‘ [veja Método Científico?  e A ciência como um jogo de pinball] já deve ter percebido que estabelecer esta distinção nem sempre é uma tarefa fácil, muitas vezes exigindo uma análise mais pormenorizada, que raramente pode se reduzir a fórmulas simples e procedimentos algorítmicos.

A discussão sobre o que diferenciaria as ciências das pseudociências é ainda extremamente pertinente e continua sendo um ponto de pauta fundamental entre divulgadores, educadores e cientistas responsáveis. Infelizmente, nos últimos trinta anos, este tema perdeu tração, literalmente saindo de moda daquela que seria a principal disciplina que lidaria com este tipo de questão metacientífica, a filosofia da ciência.

Existem indícios, felizmente, que esta situação está mudando e uma nova leva de filósofos têm tentado recolocar a questão na pauta da filosofia da ciência contemporânea. Sobre este assunto segue um vídeo de um simpósio realizado na quarta conferência Europeia de Filosofia da Associação de Ciência que ocorreu em agosto de 2013, em Helsinque, na Finlândia.

O simpósio foi organizado pelo jovem filósofo belga Maarten Boudry, da Unversidade de Ghent, e pelo biólogo evolutivo e filósofo italiano, radicado nos EUA, Massimo Pigliucci, da Universidade da Cidade de Nova York. Além das apresentações dos dois filósofos, o simpósio conta com as palestras de outros dois filósofos, Carol Clealand e Sven Ove Hanssom, ambos co-autores (junto com Boudry e Pigliuci, também seus editores) de um livro publicado pela editora da Universidade de Chicago que tem o mesmo titulo do simpósio, “Philosophy of Pseudoscience: Reconsidering the Demarcation Problem” que conta também com outras contribuições de vários outros autores [1].

As palestras do simpósio (que tem suas contrapartidas nos vários artigos do livro) tratam do mesmo tema, o chamado ‘problema da demarcação’ – o problema da distinção entre ciências e pseudociências. Este tema, como Pigliucci deixa bem claro [1], não é somente relevante de uma perspectiva puramente intelectual, já que envolve a compreensão do que torna as ciências o que elas são – um tema tradicionalmente central na filosofia da ciência -, mas também porque tem consequências práticas sérias em nossas vidas.

Nós dependemos dos conhecimentos e das tecnologias produzidas pela investigação científica e, por isso, normalmente, consideramos as ciências as melhores estratégias que dispomos para compreender e manipular o mundo a nossa volta e a nós mesmos. Portanto, separar as alegações, atividades e ideias que se apresentam como sendo ‘científicas’, mas que não são realmente científicas, é uma atividade de importância óbvia, principalmente, quando as vidas humanas e dos animais, bem como nossa sociedade e o meio ambiente dependem destes conhecimentos e tecnologias.

Embora algumas vezes as pseudociências possam ser inofensivas, como é o caso de algumas terapias alternativas (sobretudo quando elas não desviam ou induzem os seus praticantes a abandonarem os métodos convencionais de diagnóstico e tratamento, sendo encaradas como simplesmente ‘complementos’), muitas vezes essas práticas e ideias podem ser bastante perigosas [1]. A disseminação dos vários tipos de ‘negacionismo’ é um desses casos mais emblemáticos. A negação da relação entre AIDS e a infecção pelo vírus HIV ou a negação do aquecimento global causado pela ação humana e, mais recentemente, a negação da eficácia da vacinação são alguns dos principais e mais assustadores exemplos desses movimentos que reivindicam para si a alcunha de ‘científicos’.

Portanto, estabelecer os limites entre as ciências e o seu avesso é um tópico de alta prioridade, já que precisamos decidir o que ensinar em nossas escolas e universidades; em que áreas ou tipos de pesquisas deveremos investir; ou em que conhecimentos deveremos basear nossas decisões políticas sobre saúde, meio ambiente, economia etc. O que aconteceu, porém, foi que nos últimos trinta anos o problema da demarcação tem sido considerado ultrapassado, defunto mesmo, para muitos filósofos da ciência. Esta postura é bem caracterizada pelos argumentos de um dos mais importantes filósofos da ciência moderno, o norte-americano Larry Laudan, que ajudou a assinar o atestado de óbito do problema da demarcação com um artigo publicado em 1983 [2]. Este simpósio (e principalmente o livro editado por Pigliucci e Boudry) serve portanto como uma (muito adiada) resposta – como afirma o próprio Pigliucci – a Laudan* [1].

Mas vamos voltar um pouco no tempo, ao artigo de Laudan e às suas conclusões, que resumem o debate que ocorreu nos 30 ou 40 anos anteriores. Em seu artigo de 1983 [2], Laudan argumentou que não deveríamos insistir no problema da demarcação por dois motivos principais:

  1. Não haveria como resolvê-lo. Segundo ele, como não podemos produzir critérios precisos que estabeleçam condições necessárias e ao mesmo tempo suficientes (e completamente atemporais) que nos digam sempre o que é ciência e o que não é, não podemos dizer o que é uma pseudociência. Empregar este rótulo, portanto, não acrescentaria nada a discussão.
  2. A demarcação, como compreendida por ele, é, na realidade, completamente desnecessária. O que importa não é dizer o que é ciência e o que não é. Para Laudan, o que realmente importa é avaliar se as alegações, ideias ou teorias são bem suportadas empiricamente e teoricamente bem desenvolvidas – ou seja, o que importa são as ‘garantias epistêmicas’ que nos são fornecidas para as aceitarmos**.

Talvez o principal motivo para o abandono do problema de demarcação seja decorrente das tentativas frustradas de se definir o que seria ‘o método científico’. Estas tentativas que podem ser rastreadas, pelo menos, desde os empiristas lógicos, do circulo de Viena, passando pelo Falsificacionismo de Popper, pela ideia de programas de pesquisa científica degenerados e progressistas de Lakatos e pelo emprego de critérios (ou normas) múltiplos, sugeridos por Kuhn [3]. Porém, a principal dificuldade que essas tentativas enfrentaram é que sempre foi exigido delas que suas definições não fossem nem vagas (ao ponto de abarcar quase todas as áreas da atividade intelectual humana) nem muito restritivas (caso contrário, poderiam deixar de fora áreas consensualmente aceitas como sendo ciências, mas que ou fossem muito jovens ou lidassem com tópicos muito complicados com os quais muitos dos métodos tradicionais das ciências naturais, por exemplo, não fossem aplicáveis). Sem dúvida, esta questão parece ter sido a principal motivadora do obituário do problema da demarcação,  ou seja, já que não eramos capazes de definir ciência com base em seu método, de maneira não ambígua, então, não deveríamos tentar definir as pseudociências também.

Porém, como explica Sven Ove Hansson, em um certo sentido, Laudan apenas transferiu o problema da demarcação para outra instância – ou seja, o da estipulação do que faria uma alegação, ideia ou teoria epistemicamente justificada ou não. Como Hansson comenta na sua apresentação, essa situação é inusitada porque ela parece sugerir que deveríamos nos concentrar na questão epistemológica mais ampla, deixando as ciências de lado, mas, mesmo depois de 30 anos, as ciências são ainda o ponto focal da filosofia da ciência, sendo mesmo consideradas como o tipo de conhecimento exemplar para a epistemologia. Isso parece querer dizer que, pelo menos de maneira tácita, ainda reconhece-se as ciências como peculiares em termos de suas garantias epistêmicas, o que por si só já sugere que haveria mais a discutir sobre o tema.

O que Pigliucci, Boudry e os demais colaboradores do livro defendem simplesmente é que mesmo que jamais possamos entrar em acordo sobre os tais critérios infalíveis, necessários, suficientes e atemporais, ainda assim, existe um incrível acordo entre filósofos e cientistas sobre quais alegações e áreas do conhecimento seriam científicas e quais seriam pseudocientíficas, e isso não seria à toa. Os vários critérios propostos ao longo do últimos cem anos normalmente conseguem identificar a maioria dos mesmos campos e alegações como sendo científicos e, de maneira complementar, também conseguem identificar [outros] dos mesmos campos como sendo pseudocientíficos, mesmo as abordagens sendo bastante diferentes umas das outras.

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(foto – Simon Wardenier)

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Cards by Crispian Jago, Caricatures by Neil Davies

Para os autores, o repudio e o abandono ao problema da demarcação deriva de uma série de confusões envolvendo vários tópicos e sub-tópicos relacionados, mas que deveríamos distinguir com mais cuidado.

De acordo com os autores, um dos problemas na perspectiva tradicional seria insistir que os critérios de demarcação devem ser necessários e ao mesmo tempo suficientes. Segundo Pigliucci, Boudry e Hanssson não haveria problema algum em admitir que existiria, ao invés de uma fronteira clara e bem definida, uma linha contínua entre as alegações, teorias e campos do conhecimento em termos das garantias epistêmicas que eles podem fornecer. Desta maneira, assim como existem exemplos claros de pseudociências, de um lado, e de ciências muito bem estabelecidas, de outro, haveriam também casos menos óbvios e fronteiriços que poderiam, eventualmente, com o tempo, tornarem-se mais claros, indo parar em um lado ou outro.

Outra confusão, de acordo com Boudry, surge do fato de Laudan parecer confundir dois problemas distintos: Aquilo que Boudry chama de ‘demarcação territorial’ e a demarcação de fato, entre ciências e pseudociências. Para Boudry a ‘demarcação territorial’ – entre campos do conhecimento ou áreas da atividade intelectual humana – é bem menos importante do que a demarcação ciências vs pseudociências. Também deveríamos ter cuidado e distinguir outras duas questões. A primeira delas envolvendo a distinção entre a ‘boa ciência’ e ‘má ciência’ (fraudes ou incompetência, por exemplo) e a outra associada ao problema de como lidar com as alegações de campos proto-científicos, porém, legítimos, em contraste com o conhecimento produzido por campos científicos mais maduros e já bem estabelecidos. Esses são todos tópicos também muito importantes, relacionados, mas que devem ser distinguidos da demarcação entre ciências e pseudociências.

Confundir todas essas questões e exigir que os critérios de demarcação deem conta de todas essas situações, todas ao mesmo tempo, também pode levar a problemas ***. Segundo Boudry, deveríamos concentrarmos não em critérios que servissem para diferenciar as ciências naturais da filosofia (ou de outras áreas das humanidades), mas buscar estratégias de distinguir o que tornam diferentes áreas como a astronomia, biologia evolutiva e pesquisa médica e biomédica, de um lado, da astrologia, criacionismo e homeopatia, do outro.

Podemos avançar muito na questão, de acordo com os autores, caso nos dermos conta que, embora nem todas as áreas científicas acima mencionadas compartilhem todas das mesmas características, ainda assim, elas compartilham várias características. O mesmo pode ser dito das áreas no lado das pseudociências e para as diferenças entre os dois grupos. O ponto crucial aqui é que as semelhanças e diferenças não precisam serem sempre as mesmas, em cada um dos casos. Na realidade, não é necessário nem ao menos que alguma semelhança específica, por exemplo, esteja sempre presente em todos os campos de um dos lados e ausente nos do outro lado. Caso existirem semelhanças (ou diferenças) o suficiente poderíamos classificar os campos de maneira bem eficiente. A ideia fundamental aqui é a de ‘semelhanças de família‘ proposta pelo filósofo Ludwig Wittgenstein. As áreas, campos, disciplinas ou programas de pesquisa formariam ‘clusters’ (‘agregados’) baseados em combinações diferentes de similaridades e não seriam classificadas tendo como base uma série de características que todas elas deveriam apresentar e que nenhuma delas deveriam estar presentes nas outras [1, 3].

Na verdade, esta proposta é muito próxima ao que se faz na prática. Muitos dos critérios mais versáteis e efetivos de demarcação que têm sido propostos desde os anos de 1970 e de 1980, a começar pelos sugeridos por filósofos como Paul Thagard e Mário Bunge, seguem nesta direção. De fato, eles produziram ou inspiraram muitas listas de verificação utilizadas, informalmente, por muitos dos profissionais envolvidos na divulgação científica e no combate às pseudociências [3]. Outras propostas, que seguem uma linha parecida, contrastam as supostas pseudociências a exemplos de ciências particulares, bem consolidadas, que sobreponham-se em relação aos seus alvos de investigação ou objetivos de estudo [3]. Desta maneira, práticas como a astrologia deveriam ser contrastadas com a astronomia, psicologia e biologia, já que muitas de suas alegações envolvem fenômenos estudados por estes campos. Esta abordagem coaduna-se com a ideia defendida por Alan Chalmers [4, 5]. O filósofo sugere que a diferenciação entre ciências e pseudociências devem começar pela identificação dos objetivos ou alvos das alegações (ideias, campos etc) e dos métodos pelos quais tais objetivos deveriam se alcançados, avaliando-os em termos de sua efetividade, clareza e exequibilidade, rigor etc em alcançar estes objetivos. Outras sugestões também concentram-se nas práticas efetivas das comunidades de investigadores, ou seja, como essas comunidades (quando existem) organizam-se, avaliam as alegações, ideias e evidências uns dos outros, se fazem isso criticamente ou não e, especialmente, como se comportam frente aos resultados negativos e críticas externas [1, 3, 4, 5].

Estas abordagens claramente não são infalíveis, mas são flexíveis o suficiente, de um lado, e rigorosas o bastante, de outro, para servirem de base para análises e esforços de demarcação efetivos e ao mesmo tempo justos, uma vez que não desprezam uma alegação, ideia, teoria ou campo simplesmente porque ela não se conforma com um critério específico atemporal.

Pigliucci também sugere que poderíamos avançar ainda mais neste projeto caso, além do conceito de semelhanças de família, empregássemos as ferramentas da lógica difusa para melhor caracterizar a ideia de um contínuo em relação as garantias epistêmicas das alegações e dos casos limítrofes, trazendo mais rigor ao projeto de demarcação [1].

Ainda no simpósio temos  a filósofa Carol Cleland, da Universidade do Clorado, em Boulder, que traz um enfoque diferente. Ela debruça-se sobre uma outra questão que é, contudo, também relacionada ao que comentei anteriormente. Cleland interessa-se pelas diferenças entre duas abordagens distintas da investigação científica que distinguiriam o que ela  chama de ‘ciências histórias’ (astronomia, geologia, paleontologia etc) e, em contraste, aquilo que ela chama de ‘ciências experimentais’ (física, química, genética, bioquímica etc); essas ultima, normalmente, tidas como ‘modelo’ de cientificidade nas ciências naturais. Essa diferenciação, inclusive, é utilizada por criacionistas como forma de rebaixar o status de campos e teorias que vão contra seus dogmas mais entranhados, como a cosmologia, astronomia, geologia, paleontologia e a biologia evolutiva. Não obstante, Cleland insiste que essa diferença de status epistêmico não se justifica. Para ela, o emprego de protocolos experimentais nas ciências natura não advêm, necessariamente, do maior rigor desses campos e, portanto, de maiores garantias epistêmicas intrínsecas das alegações destas disciplinas. De forma complementar, o emprego do raciocínio abdutivo (inferências pela melhor explicação), característico das ditas ‘ciências históricas’, não significaria falta de rigor e, portanto, menor confiabilidade das suas conclusões. Segundo a filósofa, essas diferenças nas estratégias de investigação e de testagem de hipóteses cientificas devem-se a diferenças entre o presente e passado e entre presente e futuro que caracterizam, respectivamente, os dois tipos de estratégias de investigação e as conclusões dos campos que empregam essas diferentes estratégias.

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Portrait by Theo Stroomer

No caso das ciências históricas o presente já está causalmente determinado pelo passado, que já aconteceu. Porém, este não é o caso das ciências experimentais. Nelas os resultados dos experimentos estão no futuro que ainda é indeterminado e pode sofrer a influência de vários fatores, caso eles não sejam bem controlados e devidamente antecipados. Esta assimetria é o que faria com que pesquisadores no presente possam contar com múltiplas linhas de evidências distintas que, porém, convergem, levando-os a uma mesma conclusão. Porém, isso não ocorre no caso das ciências experimentais nas quais as hipóteses devem ser testadas através de arranjos experimentais precisos que controlem e isolem as muitas variáveis intervenientes e confundidoras que poderiam levar a resultados espúrios. Assim, de acordo com Cleland, os pesquisadores empregam métodos experimentais precisos, cheios de controles rigorosos (e sempre que possível tentam replicar seus dados) não porque querem simplesmente confirmar hipóteses ou refutá-las, mas porque desejam evitar tanto os resultados falsos positivos como os falsos negativos [1]. Para Cleland são essas diferenças intrínsecas a dimensão temporal do que está sendo investigado que demandam estratégias de investigação e avaliação de hipóteses tão diferentes e não o suposto fato de uma área ser menos ou mais ‘científica’ do que a outra:

As hipóteses da ciência naturais históricas preocupam-se tipicamente com passado remoto, eventos  e processos singulares, por exemplo, o que teria causado a extinção em massa do final do Cretáceo. A evidência para tais ocorrências é adquirida através de estudos de campo no caótico, incontrolável mundo natural. Como as hipóteses sobre o passado remoto não podem ser testadas diretamente da forma clássica da ciência experimental, a ciência histórica é, por vezes julgada inferior. […] Versões tradicionais do método científico (indutivismo e falsificacionismo) são baseados em um a análise – ‘tamanho único- serve para tudo’ – profundamente lógica falha da relação avaliativa entre hipótese e observação. As metodologias distintas das ciências históricas e experimentais, no entanto, refletem diferenças causais disseminadas em suas situações evidenciais. O raciocínio evidencial dos cientistas históricos é fundado sobre o princípio da causa comum, que afirma que as associações aparentemente improváveis ​​entre os traços atuais do passado são melhor explicadas em termos de uma causa comum. A verdade do princípio da causa comum repousa sobre uma fisicamente difundida assimetria do tempo de causalidade: Em resumo, o presente contém registros do passado, mas não do futuro. Visto por este prisma cientistas históricos realmente tem uma vantagem evidencial sobre experimentalistas clássicos. [do abstract, 6]

O trabalho de Cleland é revelador porque lança luz em uma outra questão importante e frequentemente ignorada. Algumas disciplinas científicas cujas conclusões não agradam a certos segmentos da sociedade são atacadas e acusadas de pseudocientíficas empregando-se uma perspectiva muito simplista como deveriam ser as ciências; uma perspectiva que privilegia apenas os testes experimentais. Isso é exatamente o que fazem os criacionistas que são basicamente defensores de um dos tipos mais característicos de pseudociência, não estando eles mesmos envolvidos em nenhum programa experimental que vise testar suas próprias ideias. Eles aproveitam-se de certas concepções simplistas sobre o ‘método científico’ para atacar a legitimidade da biologia evolutiva, da paleontologia e das geociências. Esse simples motivo já torna a discussão filosófica sobre as pseudociências e sobre o problema de demarcação extremamente útil, já que pode nos ajudar a compreendermos melhor as diversas estratégias utilizadas pelos pseudocientistas (especialmente os negacionistas), sugerindo, inclusive, maneiras de lidar com essas táticas de desinformação e assim explicarmos melhor a força das evidências e das abordagens científicas à população leiga.

O livro, além dos textos equivalentes as apresentações dos autores mencionados, traz também outras contribuições que vão além de discussões filosóficas em sentido mais restrito e adentram nas ‘ciências das pseudociências’, ou seja, na sociologia e na psicologia das pseudociências, além de também oferecerem algumas discussões mais práticas sobre o tema.

O vídeo e o livro são materiais de reflexão muito interessantes e espero que ajudem a revigorar as discussões sobre o tema e nos permitam enfrentar o problema do combate as pseudociências de maneira mais efetiva e rigorosa.

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* Não, esta não é a primeira resposta dada por filósofos aos argumentos de Laudan. Na realidade, há bem pouco tempo (2009), antes da publicação deste livro portanto, outro filósofo da ciência, Robert Pennock, da Universidade Estadual de Michigan, tomou as dores dos críticos de Laudan e escreveu um longo artigo sobre o mesmo tema. Isso sem mencionar outras respostas e artigos que nunca deixaram de aparecer na literatura técnica que apontaram para os problemas da postura de Laudan. Porém, este livro, destinado a um publico mais amplo, representa um esforço mais focado e, ao mesmo tempo, mais diversificado que acho que merece  muito a nossa atenção e que, talvez, consiga colocar a questão em pauta, mais uma vez, mas em bases diferentes das que têm servido de apoio a forma como problema tem sido tradicionalmente concebido.

**Note, contudo, que Laudan, apesar de não gostar do termo ‘pseudociência’ e de considerar o problema de demarcação insolúvel, não era, ele mesmo, contra o exercício de demarcação das atividades investigativas humanas, pelo menos quando isso era compreendido em um sentido mais amplo. Ele apenas insistia que não existiam critérios gerais, precisos e atemporais que pudessem ser empregados de maneira direta e infalível na tarefa de avaliar se algum tipo de ideia (alegação, hipótese, área ou campo do conhecimento) é ou não epistemicamente justificada, portanto, esta tarefa deveria ser levada a cabo caso a caso e, de preferência, sem o emprego de rótulos ‘derrogatórios’ [Veja o comentário crítico publicado por ele sobre uma conhecida decisão judicial contra o ensino do criacionismo [“Science at the Bar—Causes for Concern“] por causa do apelo a critérios de demarcação].

***As várias atividades intelectuais e investigativas humanas são bastante heterogêneas entre si, principalmente em termos dos métodos por elas empregados, dos tipos de fenômenos que elas têm como alvo e, por consequência, em relação aos seus objetivos. Apesar dessas diferenças existe um agrande interdependência entre essas diversas áreas e separá-las pode ser muito mais uma questão de organização administrativa do que de qualquer outra coisa. Porém, essas áreas também têm algumas coisas muito importantes em comum, além de certos padrões gerais de argumentação racional das quais não podem fugir, qualquer atividade séria desse tipo que tenham um real compromisso com a compreensão dos seus objetos de estudo deve manter uma orientação geral para honestidade intelectual, a precisão e o rigor crítico na avaliação das ideias, além de uma comunidade crítica e colaborativa que implemente essas orientações e valores.

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Referências:

  1. Pigliucci, Massimo & Boudry, Maarten (ed) Philosophy of Pseudoscience: Reconsidering the Demarcation Problem University of Chicago Press 2013.
  2. Laudan, Larry (1983), “The Demise of the Demarcation Problem”, in Cohen, R.S.; Laudan, L., Physics, Philosophy and Psychoanalysis: Essays in Honor of Adolf Grünbaum, Boston Studies in the Philosophy of Science 76, Dordrecht: D. Reidel, pp. 111–127, ISBN 90-277-1533-5
  3. Hansson, Sven Ove, “Science and Pseudo-Science”, in Edward N. Zalta (ed.). The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Spring 2015 Edition)
  4. Chalmers, Alan F. O que é Ciência, afinal? São Paulo: Brasiliense 1ª ed, 1993, 230 pg.
  5. Chalmers, A. F. Fabricação da ciência, A (tradução: Sidou, Beatriz) São Paulo: UNESP  1ª ed, 1994.185 pg
  6. Cleland, C. E. “Common cause explanation and the search for a smoking gun”, in Baker. V. (ed.) 125th Anniversary Volume of the Geological Society of America: Rethinking the Fabric of Geology, Special Paper 502 (2013), pp. 1-9.
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Plantas, wi-fi, projeto de ciência e mau delineamento experimental.

Recentemente dei de cara com uma postagem do Facebook sobre um pequeno projeto de feira-de-ciências, realizado em 2013, em uma escola na Dinamarca. Os resultados do projeto, que durou 13 dias, foram anunciados em vários sites como tendo fornecido evidências para um efeito inibidor do crescimento de planta. Este efeito seria devido a efeitos não térmicos da radiação eletromagnética, na faixa das micro-ondas, produzida por roteadores Wi-Fi. Este é mais um exemplo de notícia que alimenta a histeria, comumente alardeada pela imprensa, envolvendo os supostos efeitos biológicos negativos dos campos eletromagnéticos (principalmente no câncer), que são emitidos por torres de telefonia, pelos próprios telefones celulares e, agora, roteadores de internet. A reportagem que menciona o projeto de feira-de-ciências pode ser vista aqui.

cress-collageA primeira questão com a qual me deparei é que, a não ser em situações muito particulares, estes tipos de experimentos não servem para chegarmos a qualquer tipo de conclusão sobre um assunto como este. Estes tipos de experimentos, normalmente, têm objetivos bem modestos e servem, principalmente, para dar um gostinho do que é fazer ciência para as crianças e adolescentes envolvidos nestes projetos. Geralmente são projetos bem simples que usam tempos de observação curtos e delineamentos experimentais muito simples, não passando por análises mais detalhadas, não havendo nem ao menos garantias de terem sido conduzidos de maneira realmente rigorosa. As reportagens sobre o projeto não trazem muitas informações relevantes, mas, pelo pouco que é dito, dá para perceber os vários problemas do experimento e, procurando um pouco mais, achamos ainda mais motivos para nos mantermos bem desconfiados esses resultados.

Gostaria de deixar claro que minha crítica não é às meninas que realizaram o projeto e muito menos ao tema por elas escolhido. Estes tipos de problemas de delineamento e condução de experimentos não são muito sérios em um projeto de feira-de-ciências, mas são inaceitáveis caso queiramos julgar os méritos de suas conclusões e usar esses resultados como evidências para uma avaliação mais precisa e pormenorizada de uma alegação tão sensacional como a que está em questão.

O que fica bem claro, desde o começo, é que o experimento não foi conduzido em condições de ‘cegamento’ dos participantes. Esse simples fato já impede de tomarmos os resultados sem uns dois pés atrás. Não estamos discutindo uma questão neutra, mas uma que tem gerado grande comoção social e uma certa paranoia. O problema básico é que a falta de cegamento introduz uma série de vieses no tratamento dos dois grupos (controle e tratamento) e na forma como as medidas são feitas, já que os participantes sabem quem é quem e o que esperar, podendo (consciente ou inconscientemente) medir ou manipular as medidas de maneira diferente em cada um dos grupos. Precisamos lembrar que, de acordo com a matéria do site, as alunas autoras do trabalho haviam pensado no experimento após relatarem dificuldades de concentração após dormirem com os seus celulares ligados, próximas as suas cabeças.

Nas postagens dos sites não são dados quaisquer detalhes metodológicos mais substanciais. A princípio não sabermos, por exemplo, quais os testes estatísticos (se é que foram usados) ou mesmo quantas medidas de desfecho foram empregadas, se elas foram definidas a priori ou a posteriori, se algumas foram descartadas ou não, se houve controle para a possibilidade de resultados espúrios por causa de várias coisas sendo testadas ao mesmo tempo etc. Pelo pouco que pude ‘adivinhar’ olhando o trabalho em dinamarquês (infelizmente, uma língua que não leio. Veja aqui para o PDF completo com as fotos) não há qualquer menção as questões que levantei, sugerindo que a avaliação é puramente qualitativa mesmo tendo sido tomadas algumas medidas quantitativas, como os gráficos parecem indicar.

A discussão do trabalho também é bem genérica e bastante seletiva, sendo principalmente feita a partir de citações de um relatório da ONU (cuja classificação do risco das micro-ondas dos celulares em 2B foi bastante controversa, especialmente porque foi baseada em vários estudos epidemiológicos e experimentais em animais com resultados amplamente negativos, ou seja que não davam suporte a alegação) e a partir de trabalhos de pesquisadores bastante criticados pela baixa qualidade metodológica dos resultados, principalmente no tocante ao suposto mecanismo de ação deste tipo de radiação em tecidos biológicos. O principal problema é que, como essas radiações não são radiações ionizantes,  não é nada claro como elas poderiam ter efeitos biológicos mais pronunciados e relevantes, especialmente porque a potência dessas emissões é muito menor do que a de muitos outros processos biológicos e fatores ambientais aos quais os seres vivos estão expostos. Por isso, diga-se de passagem, caso houvesse algum efeito deste tipo ele deveria atuar por mecanismos nada triviais, implausíveis na perspectiva do que sabemos sobre a física dos campos eletromagnéticos e de biofísica, como mostraram pesquisadores como Robert K. Adair [veja também este artigo de Bernard Leikind] citadas ao final do post. Embora essas objeções não tornem impossíveis tais efeitos, eles levantam problemas sérios e os tornam implausíveis, devendo portanto serem sempre levadas em conta ao analisarmos dados ambíguos e não replicáveis. Em resumo, como não existem mecanismos biológicos minimamente bem estabelecidos que justifiquem maiores, preocupações devemos ter muito cuidado e evitar alimentarmos este tipo de preocupação exagerada com este suposto tipo de ligação. Principalmente, porque a imensa maioria dos estudos maiores e mais robustos, apesar das suas limitações, não apoiam a ideia de um risco crescente de tumores e outros tipos de câncer em virtude do uso de aparelhos celulares (o roteadores de wifi) e exposição aos campos eletromagnéticos emitidos por estes aparelhos e pelos sistemas de telefonia celular. Então, embora novos estudos rigorosos sejam sempre bem vindos – especialmente, devido a limitação temporal, de acompanhamento e notificação dos casos dos estudos que dispomos até o momento – não há motivos para histeria e o medo. A divulgação de histórias como esta, sem um mínimo de crítica e contextualização apropriada, não ajuda em nada ao esclarecimento da população.

Voltando ao experimento das alunas Dinamarquesas, como existem várias citações em inglês, a discussão é a parte que dá para compreender melhor. Nela, a única menção a viés, é no contexto das fontes financiadoras e não da metodologia. Além do mais, pelo que dá para entender também não foram medidas as intensidades, distância da fonte e flutuações das emissões dos roteadores. O próprio suposto controle para o efeito do calor não parece adequado, pois, aparentemente, foi feito simplesmente com base na regulação por termostato. Porém, caso isso queira dizer que foi através do termostato da sala, isso é irrelevante pois é o feito da vizinhança imediata que importa.

Então, por uma simples inspeção superficial, fica claro que existem vários problemas no estudo, muitas fontes de viés que podem gerar toda sorte de artefatos, não parecendo ter havido nenhum cuidado mais sério em controlá-los, o que faz sentido em um experimento escolar que tem mais a função de despertar a curiosidade do que responder a questões sérias. Portanto, qualquer conclusão só pode ser obtida após a condução de estudos muito mais controlados, bem delineados e rigorosamente conduzidos, que depois precisariam ser repetidos por grupos independentes. De fato, caso esse fosse um estudo realmente bem delineado e houvesse real interesse de testar a realidade do fenômeno, estabelecendo uma ligação mais direta com a radiação dos roteadores, outros tipos de controles deveriam ter sido empregados. Por exemplo, como os campos eletromagnéticos tendem a enfraquecer com o quadrado da distância, um efeito de dose em relação a distância poderia ser explorado posicionando-se as plantas a diferentes distâncias dos roteadores. Caso encontrassem esse efeito, os resultados seriam bem mais confiáveis, ainda que precisassem ser replicados e outros controles adicionados.

Esses problemas trazidos à tona por uma análise superficial desse tipo já deveriam ser suficientes para inspirar ceticismo na imprensa. Contudo, outras pessoas analisaram mais profundamente o trabalho e com base nessas observações (de quem olhou o estudo com atenção e conhece a língua, no caso o jornalista científico Gunnar Tjomlid), citadas por Pepjin van Erp, o estudo, de cara, já mostra vários outros problemas sérios:

  1. Os grupos tratamento (‘radiação WiFi’) e controle (sem ‘radiação WiFi’) diferiam em mais do que a presença dos roteadores. Nas figuras do relatório dá para ver que os notebooks ficavam também bem pertinho das placas com as plantas. As máquinas podem ter tido um efeito sobre o fluxo de ar e na temperatura nas imediações diretas das placas, o que pode ter afetado a germinação das plantas de um modo independente da presença dos campos eletromagnéticos dos roteadores.

  2. Ao falar com a professora, Tjomlid descobriu que haviam sido feitos dois experimentos. No primeiro deles os roteadores enviavam apenas o SSID e no segundo experimento os laptops permanecerem conectando-se uns com os outros (testando o ‘ping‘) o tempo todo. Porém, este segundo experimento não mostrou a ‘enorme’ diferença na germinação entre os dois grupos. Infelizmente, apenas o primeiro experimento foi apresentado e mencionado no relatório final, em um caso de seletividade, indicativo claro de viés de publicação – ou seja, os autores decidiram não comunicar resultados negativos. Descarte injustificado de dados é prática inaceitável em estudos sérios.

  3. As fotos ilustrando os experimentos são enganosas, já que mostram plantas adultas não irradiadas ‘saudáveis’ nas placas e quase sem nenhuma semente germinada nas placas ‘irradiadas’. Porém, nos gráficos percebe-se que a maioria das medidas quantitativas revelou resultados bem menos dramáticos: O grupo controle apresentou 332 sementes germinadas contra 252 no grupo WiFi.

  4. As meninas pararam o experimento no 13o. dia, mas fizeram isso não porque este era um momento pré-definido, mas porque nesse dia o grupo controle havia atingido a altura máxima. Isso pode gerar outro artefato, já que devido a uma diferença de temperatura, alguns poucos dias a mais poderiam fazer que as plantas no grupo tratamento (WiFI) atingissem o tamanho máximo também. A parada por conveniência é outro indicador de mal delineamento experimental e sugere tendenciosidade para um tipo de resultado.

Como já havia dito, o que realmente faltou, e que também foi comentado por Pipjin e Tjomlid, foi o cegamento na coleta dos dados e avaliação dos resultados. Isso poderia ter sido feito de

Acima um dos gráficos do estudo das alunas Dinamarquesas.

Acima um dos gráficos do estudo das alunas Dinamarquesas.

maneira relativamente simples, com a colocação de roteadores em ambas as salas, mas com apenas os de uma delas ligado constantemente, sem que as alunas soubessem qual e sem que a pessoa, que sabia em qual sala eles estavam ligados, soubesse como estavam as plantas. Caso as medidas fossem feitas sempre com os roteadores desligados em períodos curtos do dia, e os roteadores e o arranjo experimental ficassem normalmente fora do alcance da turma, seria até fácil garantir a condição de cegamento. Seria mais complicado, mas as meninas aprenderiam um dos mais importantes delineamentos experimentais que existe,  o protocolo duplo-cego.

De novo quero enfatizar que as meninas não tem nenhuma culpa, mas a escola tem, além da própria mídia. Os professores que orientaram o trabalho deveriam, desde sempre, ter apontado as limitações do estudo, deixado bem claro a importância de realizar os controles adequados, e, principalmente, explicar que elas deveriam conduzir os experimentos e análises de maneira cega. Teria sido fundamental também que as professoras e professores ajudassem as meninas a fazerem uma revisão da literatura científica minimamente abrangente, calcada não nas expectativas e vieses pessoais dos participantes, mas na qualidade metodológica dos estudos. A escolha muito seletiva e tendenciosa de trabalhos para citar (o que alguns chamam de ‘cherry picking‘) é sempre um problema, contaminando mesmo alguns tipos de estudos acadêmicos, infelizmente. Buscar apenas os trabalhos com resultados que confirmam as expectativas é um exemplo de viés de confirmação e é uma prática que deve ser combatida, especialmente se esses trabalhos sofrem de sérias limitações metodológicas.

Essas observações, em conjunto com o fato das autoras comentarem somente o problema do viés dos estudos patrocinados por grupos de telefonia (deixando de lado o viés dos estudos patrocinados por grupos de ativistas anti-celulares e, principalmente, o problema da qualidade metodológica), aumentam a suspeita de que as conclusões já estavam predeterminadas e os experimentos foram conduzidos de maneira a obter resultados consistentes com elas. O descarte de um conjunto inteiro de experimentos com resultados inconsistentes com a aparente expectativa das alunas só reforça essa interpretação.

É sempre frustrante observar como a mídia é despreparada para lidar com este tipo de situação. Também é muito desencorajador perceber como alguns professores parecem desperdiçar ótimas oportunidades de ensino, o que poderia ser alcançado enfatizando não só o lado positivo da execução de um trabalho experimental, mas também apontando as limitações e a impossibilidade de chegarmos a qualquer conclusão mais robusta a partir de certos tipos de trabalhos.

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Referências recomendadas:

  • Adair RK. Vibrational resonances in biological systems at microwave frequencies. Biophys J. 2002 Mar;82(3):1147-52. PubMed PMID: 11867434

  • Adair RK. Effects of very weak magnetic fields on radical pair reformation. Bioelectromagnetics. 1999;20(4):255-63. PubMed PMID: 10230939.

  • Weaver JC, Vaughan TE, Adair RK, Astumian RD. Theoretical limits on the  threshold for the response of long cells to weak extremely low frequency electric  fields due to ionic and molecular flux rectification. Biophys J. 1998  Nov;75(5):2251-4. PubMed PMID: 9788920.

  • Adair RK. A physical analysis of the ion parametric resonance model. Bioelectromagnetics. 1998;19(3):181-91. PubMed PMID: 9554696.

  • Adair RK. Extremely low frequency electromagnetic fields do not interact directly with DNA. Bioelectromagnetics. 1998;19(2):136-8. PubMed PMID: 9492173.

  • Astumian RD, Adair RK, Weaver JC. Stochastic resonance at the single-cell level. Nature. 1997 Aug 14;388(6643):632-3. PubMed PMID: 9262395.

  • Astumian RD, Weaver JC, Adair RK. Rectification and signal averaging of weak electric fields by biological cells. Proc Natl Acad Sci U S A. 1995 Apr 25;92(9):3740-3. PubMed PMID: 7731976.

  • Adair RK. Biological responses to weak 60-Hz electric and magnetic fields mus t vary as the square of the field strength. Proc Natl Acad Sci U S A. 1994 Sep  27;91(20):9422-5. PubMed PMID: 7937782.

  • Adair RK. Constraints of thermal noise on the effects of weak 60-Hz magnetic fields acting on biological magnetite. Proc Natl Acad Sci U S A. 1994 Apr  12;91(8):2925-9. PubMed PMID: 8159681.

  • Adair RK. EMF research. Science. 1992 Dec 18;258(5090):1868-9, 1960.

  • Adair RK. Reply to “Comment on ‘Constraints on biological effects of weak extremely-low-frequency electromagnetic fields’ “. Phys Rev A. 1992 Aug  15;46(4):2185-2187. PubMed PMID: 9908364.

  • Adair RK. Criticism of Lednev’s mechanism for the influence of weak magnetic field on biological systems. Bioelectromagnetics. 1992;13(3):231-5. PubMed PMID: 1590822.

  • Adair RK. Biological effects on the cellular level of electric field pulses. Health Phys. 1991 Sep;61(3):395-9. PubMed PMID: 1669366.

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